O mistério dos fogos postos em Setúbal

Nas últimas semanas, quatro incêndios no centro histórico de Setúbal levantaram suspeitas e receios entre os moradores. A Câmara de Setúbal estranha os fogos, mas garante que está preparada para as emergências.

As casas são todas antigas, baixinhas - rés-do-chão e primeiro andar - e encostadas umas às outras. Noutros tempos, o bairro do Troino, na zona histórica de Setúbal, era abrigo de pescadores. Foi aqui, entre ruas estreitas e de sentido único, que, na madrugada de 23 de Setembro, três incêndios separados por algumas centenas de metros, deixaram os moradores em sobressalto.

Na Rua José Carlos da Maia, junto à igreja de Nossa Senhora da Anunciada, Elisabete Leitão, 66 anos, acordou com o cheiro do fumo. "Era fumo, muito fumo, coisas a estalar lá dentro e depois, saíam pela janela fora".

No rés-do-chão, onde vive com o marido, Elisabete ainda quis fugir, mas os bombeiros disseram-lhe que não seria necessário. O vizinho conta que antes do fogo, ouviu empurrões e portas a bater, como se tivessem entrado na casa que viria a arder.

Ana Isabel, que se senta ao lado de Elisabete, na mesa do café, não tem dúvidas. "De certeza que é fogo posto. São pagos para andarem a fazer isto e é para andarem a comprar as casas velhas com mais valor". Ela própria foi obrigada a sair de casa, pelo senhorio, e critica a "gentinha" que está a ocupar as casas que "qualquer dia vão arder".

Na fatídica madrugada, os bombeiros foram chamados a outros dois incêndios, no centro histórico: um na Rua Mártires da Pátria, no bairro do Troino, e outro na Rua Marquês de Pombal, no vizinho bairro da Fonte Nova.

Na semana anterior, outro fogo na avenida nobre da cidade, a Avenida Luísa Todi, atingiu dois prédios.

O vereador da protecção civil da câmara de Setúbal, Carlos Rabaçal, revela que está em contacto com a Polícia Judiciária. Em pelo menos dois destes incêndios, é "taxativo. Entraram e saíram pela porta, calmamente, depois de incendiarem o prédio". Houve "mão criminosa, sem qualquer dúvida". O vereador acrescenta que uma semana antes destes incêndios no centro histórico, registaram-se quatro incêndios nas zonas da Belavista, Gâmbia-Pontes-Alto da Guerra. Dois destes fogos tiveram também origem criminosa.

Preocupado, Carlos Rabaçal estranha estes casos, mas garante que a protecção civil está preparada para responder aos sinistros. Foi desenhado um plano de emergência para todo o centro histórico de Setúbal, com um levantamento "rua a rua, porta a porta" e, nas zonas de acesso mais difícil, foram colocadas 31 caixas de primeira intervenção, para permitir um primeiro ataque às chamas.

O certo é que os moradores sentem-se "em risco". Se houver fogo, "isto é do género do que houve no Rossio", receia Gabriel Almeida, dono de uma loja de reparação de estofos, que desconfia de interesses ligados ao alojamento local.

O presidente do clube recreativo da Palhavã, Tolentino Silva, lembra que se trata de "um bairro antigo, praticamente todo feito em madeira". "Quando isto começa a arder, é pólvora." Um barril que pode explodir a qualquer instante.

*a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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