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O que está a ganhar a linha do Minho com a eletrificação? Mochilas, bicicletas e carruagens cheias

As duas carruagens Sorefame, puxadas pela máquina série 2600 da CP, estão praticamente cheias quando entro em Nine no IR que partiu da Figueira Foz, ainda não eram sete da manhã, com destino a Valença. Como dormi em Braga, apanhei-o em Nine, mas fiz questão de vir neste IR, por ser uma das últimas novidades, por ligar duas cidades "periféricas" (no sentido de que não são duas grandes metrópoles) e para ver o que está, de facto, a acontecer. E parece que a aposta está ganha. Estas dezenas de pessoas não compraram bilhete só porque a TSF ia a bordo e eu até tirei fotos não vá haver algum espertinho que se ponha com ideias de que estou a inventar. E, se em Nine já vinha bem composto, em Barcelos completa-se. Não me parece nada descabido que, no próximo sábado, no lugar de duas, este comboio possa trazer três carruagens. A dica está dada. E esta viagem pela linha do Minho, a dada altura, começa a ser um autêntico passeio turístico.

Estamos a chegar a Viana do Castelo. Em Darque já avistamos, lá no alto, o Santuário do Sagrado Coração de Jesus, no monte de Santa Luzia que nos observa na viagem, logo depois o estuário do Lima e o atravessar da emblemática ponte Eiffel, pela qual passamos devagarinho, mas, convenhamos, com aquela paisagem, pouco importa. Depois de Viana, a companhia do mar, primeiro lá longe, depois de um extenso retângulo de campos de milho até Afife. Já a partir de Vila Praia de Âncora, quase molhamos os pés e vemos a espuma branca da rebentação das ondas. A vista para a praia e para o ilhéu do forte de Moledo é linda.

Em Caminha, as mochilas e as bicicletas atropelam-se no corredor para descer para a plataforma. O destino é o caminho de Santiago pela costa, que aqui tem passagem de ferry para a outra margem, em Espanha. Subimos agora o rio Minho até Valença, despedindo-nos do Monte de Santa Tecla.

O único ponto negativo que encontrei: tempos de espera demorados para cruzamentos. Um primeiro em Nine, de dez minutos, e outro de tempo idêntico em Barroselas. Creio que se deva ao facto de a linha ser, na sua maioria, de via única, e, na verdade, estivemos em ambos os casos à espera da chegada de outro comboio para que pudéssemos avançar.

"Há vantagem na ligação direta. Foi por isso que optámos por vir de comboio"

Ana Paula Esteves é das Caldas da Rainha. Viaja com as duas filhas menores. Sento-me ao lado delas no único banco livre e pergunto-lhes se vão fazer o Caminho de Santiago. A mochila denuncia-as. Vão começar em Valença e confessam-me que é a quarta vez que o fazem, contudo é a primeira vez que decidem vir até Valença de comboio, até aqui faziam-no de carro. "Não é muito habitual, mas optámos pelo comboio para fazermos a viagem mais descansadas." Queriam fazer o mesmo no regresso, mas de Santiago de Compostela para Portugal "os comboios estão um bocadinho limitados". Lá isso é verdade, até porque de Vigo para Porto Campanhã apenas há dois "Celtas" por dia, comboio operado pela espanhola RENFE e a tarifa internacional.

Quis perceber de onde vinham e se havia vantagem neste comboio IR. Nem de propósito, Ana diz-me que entraram na Figueira da Foz e que "há vantagem na ligação direta". "Foi por isso mesmo que optámos por vir de comboio", acrescenta.

Na outra carruagem encontro-me com Dulce e Paulinho, vindos da estação da Régua. Em Campanhã entraram neste IR. Também é a primeira vez, não no caminho, mas no comboio. Porquê esta mudança? "É um meio prático, rápido e tranquilo. É a primeira vez que estamos a usar o comboio para ir fazer o caminho, mas estamos a gostar muito." Vão tentar que o regresso seja da mesma forma, mas, para já, "ainda não está planeado".

Viajar neste IR é como viajar num IC, até porque as carruagens são as mesmas e conferem-lhe o mesmo conforto.

E o que diz quem trocou a automotora a gasóleo por uma elétrica?

Embora em abril deste ano, o primeiro-ministro, António Costa, tenha focado os benefícios da eletrificação da linha na capacidade de transporte de mercadorias, que triplica, a bem da verdade, a maior melhoria está mesmo no serviço de passageiros e relacionada com o material circulante agora disponível. Se há pouco, lá atrás, escrevia que tinha feito a viagem Nine>Valença com qualidade de IC a preço de IR, agora que estou a escrever estas palavras a bordo de uma UTE, que faz o serviço regional Valença>Viana do Castelo, deixem-me que vos conte uma história. Por razões pessoais, uma vez que tenho amigos em Vila Praia de Âncora, conheço bem a realidade antes da eletrificação. Nos últimos anos, os passageiros da linha do Minho eram brindados com as "camelas", as automotoras que estão alugadas a Espanha e que continuam a efetuar serviços nos regionais das linhas do Douro e do Oeste: o barulho, o cheiro a gasóleo e o desempenho não se comparam com estas UTE agora aqui a circular. "São de guerra", como dizia o Manuel Zacarias, em junho, no Entroncamento, na primeira volta destas crónicas. E, ainda antes das "camelas" espanholas, também estiveram por cá as "azulinhas", agora ao serviço na linha do Algarve. Foi, de resto, o primeiro comboio em que andou o meu filho mais velho, entre Âncora Praia e Viana do Castelo e, por isso, as "quero" com carinho. Porque falamos em "camelas", apetece-me dizer que a linha do Minho teve de "atravessar o deserto" para chegar ao que tem. Demorou, mas foi. Incomparável com o que era. E vai ficar melhor.

Na passada quinta-feira, 2 de setembro, a CP esteve a fazer ensaios de linha nas primeiras três carruagens arco, inteiramente remodeladas, depois de compradas como sucata à vizinha espanhola RENFE. Depois de conseguirem a certificação, o processo de remodelação pode ganhar um novo fôlego e a cada três meses termos a entrar ao serviço um conjunto de três carruagens. E estão lindas: azuis e vermelhas, a fazerem lembrar as cores que tinha o Alfa quando entrou ao serviço há mais de 20 anos.

A modernização da linha do Minho custou 86 milhões de euros, dos quais 65 milhões foram financiados pelo Compete 2020. Entre Nine e Viana do Castelo, as obras terminaram em julho de 2019, o restante traçado até Valença terminou a eletrificação em 2021. À eletrificação juntou-se ainda a criação de sinalização eletrónica, intervenções nas estações e a supressão de passagens de nível.

Com isto, pela primeira vez na história do nosso país, passou a ser possível circular do extremo Sul (Faro) ao extremo Norte (Valença) com comboio elétrico. Só falta agora um Alfa ou qualquer outra alta velocidade a fazer, nem que seja uma vez por dia em cada sentido, isso mesmo: o país de uma ponta a outra. Podíamos chamar-lhe o "Lés a lés": Valença, Viana, Porto, Aveiro, Coimbra, Lisboa, Casa Branca (para servir Beja e Évora), Faro. Pensem lá nisso...

A jovem Jéssica, que entra num dos apeadeiros da linha do Minho, faz o caminho para Moledo, para ir à praia no verão, e para Vila Nova de Cerveira, para ir à escola no inverno. Escolhe o comboio, ao longo de todo o ano, "porque é mais rápido". E a passagem para as automotoras movidas a eletricidade trouxe vantagens: "Olhe, este fala. O que dá muito jeito, porque, às vezes, adormece-se. E este é mais confortável".

Na mesma automotora, mais à frente, vai António Silva, que é a primeira vez que viaja desde que a linha foi eletrificada e "na realidade, os comboios são melhores". Quanto à frequência dos comboios, "continua tudo na mesma, porque a linha é só uma", mas "há novos serviços e fiquei agradado por poder ir de Valença à Figueira da Foz sem mudar de comboio, o que, no meu caso, dá jeito para complementar com o uso da bicicleta".

Ao fundo da composição está Joaquim Mota, acompanhado por dois amigos e três bicicletas. Quiseram fazer uma brincadeira de Braga até Valença, mas faltaram as forças e, por isso, regressam de comboio, com as bicicletas encostadas. "O comboio é sempre uma opção para viagens longas, que é ótimo para viajar com bicicleta", afirma.

Espanha tem alta velocidade a todo o gás, mas galegos olham o Minho com inveja

Não podia terminar esta crónica sem passar pelo vídeo que há uns dias me chegou às mãos. Está publicado no YouTube, mas foi criado por um site galego de informação sobre a ferrovia em Espanha e em especial na Galiza, o Gou Ourense 2018. O vídeo recebe como título "Portugal: la otra manera de gestionar los trenes (la buena)", ou seja, algo como "Portugal: a maneira correta de gerir os comboios". Pode vê-lo na íntegra aqui.

Mas explico aquilo que me parece ter sido o mais importante do que retive com este vídeo e com meia dúzia de outros que visionei neste site: a aposta desenfreada de Espanha na alta velocidade é uma espécie de presente envenenado para as regiões e para a proximidade entre localidades de menor dimensão. A alta velocidade chega a todo o lado, Espanha é já o segundo país do mundo com a maior rede de alta velocidade, até temos uma estação mesmo aqui ao lado, na Sanabria, que nos provoca uma inveja enorme (e não estou com isto a dizer que não devemos ter alta velocidade, pelo contrário, a minha opinião é no sentido contrário). Mas, a alta velocidade está a matar as ligações regionais. Estações como a de Caminha, que serve pouco mais de seis mil pessoas, em Espanha, estariam encerradas. Em Portugal, tem 11 comboios por sentido, os mesmos que tem Vila Nova de Cerveira, ainda mais pequena que a anterior. Em Espanha, já foi assim. Agora, por exemplo, entre Vigo e Ourense, a RENFE apenas possibilita dois comboios diários. E tem sido assim um pouco por toda a região, supressão atrás de supressão.

"O comboio é anedótico para mover-se em curtas e médias distâncias na Galiza", dizem no vídeo. "Em Portugal, o comboio é a grande aposta de futuro", acrescentam eles e esperamos nós. "Como seriam as comunicações entre Vigo e Ourense se estivessem nas mãos da Comboios de Portugal?", questionam e respondem que não seria com um comboio único em cada sentido. E depois elogiam o facto de estarmos a criar comboios de grande qualidade, adaptados às necessidades do século XXI, "confortáveis, com acesso para bicicletas e a preços mais acessíveis", com recursos modestos, com mais de 50 anos, mas renovados.

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