Pandemia faz disparar pedidos de ajuda de jovens que cresceram em instituições

A Plataforma de Apoio a Jovens Ex-Acolhidos, registou um acréscimo de 50% nos pedidos de auxílio. Cláudia Martins, que entrou numa instituição aos três anos de idade, ficou desempregada em março de 2020 e precisou de ajuda financeira.

Durante a pandemia houve um aumento de pedidos de ajuda por parte de jovens que cresceram em instituições de acolhimento. A PAJE, a Plataforma de Apoio a Jovens Ex-Acolhidos, registou um acréscimo de 50% nos pedidos de auxílio.

O presidente da associação, João Pedro Gaspar, fala de um "aumento considerável" e destaca pedidos de ajuda de jovens que já tinham recebido algum tipo de apoio anteriormente.

"Nós tivemos cerca de 100 pedidos de ajuda no último ano e meio. É um aumento na ordem dos 50%", avança à TSF.

Os pedidos de ajuda estão sobretudo relacionados com situações de desemprego e incapacidade de pagamento das prestações da casa ou do carro.

"Alguns dos jovens que nós apoiamos têm empregos mais indiferenciados e acabam por não cumprir a renovação do contrato, tinham trabalhos temporários e esses trabalhos acabaram", afirma João Pedro Gaspar, lembrando que sem um suporte familiar, muitos destes jovens acabam por não ter uma rede de apoio em alturas de crise.

É o caso de Cláudia Martins que cresceu numa instituição de acolhimento para crianças. Trabalhava como operária fabril em Alcobaça e foi despedida em março do ano passado, quando se viu obrigada a ficar em casa a cuidar da filha de oito anos.

"Depois, passado um tempo, também foi o meu companheiro. Também esteve na mesma instituição que eu, crescemos juntos e depois mais tarde é que nos viemos a reencontrar. Nós temos os nossos compromissos para honrar, todos os meses como todas as pessoas e não nos estava a ser possível", conta à TSF.

Claúdia cresceu numa instituição

Cláudia ficou a receber o subsídio de desemprego mas não chegava, por isso pediu ajuda financeira à PAJE. "É muito complicado. Para quem não tem ninguém, é muito complicado", desabafa.

A jovem, agora com 35 anos, destaca o trabalho da associação que oferece acompanhamento psicológico, apoio burocrático, ajuda financeira, bens alimentares e roupa a jovens que tenham passado pelas instituições de acolhimento. "Eles estão ali para tudo. Digamos que são os pais que a gente não tem."

O casal arranjou emprego ao fim de seis meses e já conseguiu equilibrar as contas mas Cláudia Martins, que entrou numa instituição aos três anos de idade, garante que a vida depois do acolhimento não é fácil.

"Como temos tudo lá dentro, não temos noção de como é uma vida cá fora. O termos de ir ao supermercado, comprar as coisas necessárias, guardar o dinheiro para se pagar as contas. Quer dizer, não há noção de nada", conta.

João Pedro Gaspar confirma que estes jovens não estão habituados a tomar decisões. "Muitos deles nunca tiveram que decidir coisa alguma na vida deles, alguém decidiu quase tudo por eles".

Mudar a lei para voltar a acolher

Para prevenir más decisões, que muitas vezes passam por saídas precoces das instituições, a PAJE está empenhada em alterar a lei para que os jovens institucionalizados possam regressar ao sistema de proteção ou de acolhimento depois dos 18 anos, caso não tenham condições para estar sozinhos.

Depois de várias reuniões junto de vários grupos parlamentares, a PAJE informa que o projeto-lei está a ser analisado, aguardando o parecer de várias entidades. "A nossa expetativa é que até às férias parlamentares possa ser levado a votação", afirma.

O objetivo é criar uma alteração à Lei n.º 147/99 de proteção de crianças e jovens em perigo, de forma a criar um período em que os jovens, que saiam após completar os 18 anos, possam ter a possibilidade de regressar ao sistema de promoção e proteção.

O presidente da PAJE explica que, por vezes, os jovens saem das instituições quando atingem a maioridade com o objetivo de começarem uma vida autónoma, mas os planos nem sempre correspondem às expetativas.

"Quando isso acontece, que o sistema possa voltar a acolhê-los, no fundo, como qualquer família faz com os seus filhos quando eles tentam sair atrás de algum sonho e as coisas não lhes correm bem, as portas não se fecham", explica.

A PAJE, a primeira plataforma do país a dedicar-se exclusivamente ao apoio de pessoas que viveram em casas de acolhimento, afirma que a lei não prevê que um jovem que escolha sair do sistema ao atingir a maioridade, possa regressar ao sistema de proteção e proteção e acolhimento, caso enfrente dificuldades.

Tanto o Bloco de Esquerda como o PCP apoiam esta iniciativa. A proposta dos comunistas prevê duas alterações à lei, explica à TSF a deputada Alma Rivera: A primeira define um "período de arrependimento", que permita aos jovens que tenham abandonado a instituição ao atingir a maioridade regressar, se precisirem . A segunda pretende tornar transversal o mecanismo de casas de autonomização, "para prevenir e estimular um melhor processo de adaptação" à vida fora da instituição.

Para já, o PCP não consegue avançar uma data para o tema ser discutido no Parlamento. Por enquanto, aguardam pareceres de várias entidades, como o Ministério Público e a Ordem dos Advogados, para "melhorar a proposta".

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