Paragens de autocarro são montra das tradições de Cabril

Oito artistas participaram no embelezamento dos sítios onde as populações esperam os transportes e que, agora, constituem um caminho cultural desta freguesia de Montalegre.

Na freguesia de Cabril, em Montalegre, espera-se pelo autocarro em paragens que são janelas abertas para os costumes e as tradições da terra. São obras de arte que dão nova vida aos imóveis. Oito artistas andaram lá uma semana a pintar vacas, cabras, ursos e, claro, pessoas nas suas atividades agrícolas. O conjunto gerou o Caminho Cultural de Cabril, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, que também é para turista ver.

Há muito que o presidente da Junta de Freguesia de Cabril, Márcio Azevedo, andava farto das paragens de autocarro da sua terra, "desprezadas e com mau aspeto", considerando-as verdadeiros "monos" - nome dado a objetos e volumosos sem qualquer uso.

Calhou que a designer de comunicação e ilustradora lisboeta Susana Antão fosse parar a Cabril para passar uns dias de férias. Em terra com menos de 600 habitantes, não obstante os 77 quilómetros quadrados de extensão, não foi difícil conhecer o presidente da junta.

Quando Susana lhe contou o que fazia na vida, depressa Márcio Azevedo viu a oportunidade de, finalmente, concretizar uma ideia que há muito lhe povoava os pensamentos. "Um dia ainda havemos de pintar as paragens de autocarro de Cabril e vais ser tu que as vais pintar", disse-lhe, "na brincadeira".

Mas a brincadeira transformou-se num desafio que agradou a Susana Antão. Como curadora do projeto decidiu convidar mais sete artistas, uns mais experientes em arte de rua, outros que nunca a tinham feito, e estudaram o que ali devia ser feito.

As sensibilidades dos artistas até podiam ser diversas, mas a temática já estava definida e não podia ser alterada. Márcio Azevedo queria que as paredes espelhassem a "identidade de Cabril". Ou seja, tradições como a "vezeira das vacas (consiste na reunião dos rebanhos duma aldeia para serem pastorados em terrenos comuns), o mel, o linho, os ciclos do milho e do centeio, as cozinhas tradicionais com as velhotas nas suas lides", entre outras.

Susana Antão, filha de pai transmontano e mãe alentejana, concordou que era melhor que a intervenção não tivesse aspetos abstratos. "É mais fácil entender a vida numa cozinha tradicional se ela for ilustrada com personagens reais e não com figuras com as quais as pessoas não se identificam", exemplifica a artista.

Que o diga o artista Pedro Lourenço, a quem calhou fazer, na paragem do autocarro de Fafião, uma representação de vacas de raça barrosã. À medida que as ia pintando com um laranja carregado, os passantes durante o dia comentavam que "estavam bem", mas, quiçá, "um pouco afogueadas". À noite, quem ia para o café detinha-se a "querer saber mais sobre aquilo tudo". Pedro gostou da experiência também por este aspeto, pouco habituado a intervir no espaço público com tantas questões dos transeuntes. "Foi muito giro", confessa.

Não é que a ilustradora científica Luísa Crisóstomo, outra artista deste projeto, temesse a reação dos locais, mas como era a primeira vez que saía da sua área de conforto, na qual trabalha "em ponto pequeno e com muito detalhe", a participação neste circuito cultural com um mural "foi um desafio muito bom". Salienta que "não é todos os dias que se tem a oportunidade de trabalhar no meio da natureza, no Gerês".

Se o presidente da Junta de Cabril não gostava das paragens de autocarro, ainda apreciava menos o impacto do reservatório de água da freguesia. "Um autêntico mono." Os artistas juntaram-se e pintaram lá o ciclo do centeio, desde à sementeira à malhada, passando pela segada.

Pedro Lourenço está convencido que esta "é uma boa forma de recuperar estruturas utilitárias e pô-las a falar dos costumes da região". Se a moda pega, muitas outras paragens de autocarro do país poderão transforma-se em pontos de interesse cultural e turístico.

Na verdade, era este o objetivo de Márcio Azevedo: "Fazer com que as pessoas percorram a todas as aldeias da freguesia de Cabril." Totalmente inserida no Parque Nacional da Peneda-Gerês, é constituída por quinze aldeias. As pinturas podem ser vistas em Chelo, São Lourenço, Fafião, Vila de Cabril, Pincães, Lapela, Xertelo e Azevedo.

Os artistas e ilustradores convidados por Susana Antão para participarem na iniciativa, para além de Luísa Crisóstomo e Pedro Lourenço, são Bruno Santos, Miguel ​​​​​​​Brum, Carolina Correia, Carolina Maria e Maria Taborda.

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