"Parece um bocadinho arriscado" atrasar 2.ª dose da vacina em mais de duas semanas

Professor da Universidade NOVA de Lisboa alerta para a falta de dados sobre os efeitos de um alargamento do prazo entre a toma das duas doses da vacina contra a Covid-19.

Atrasar a toma da segunda dose da vacina contra a Covid-19 em uma ou duas semanas pode não representar um risco para a efetividade da vacina, embora faltem dados para perceber os efeitos de uma decisão como essa. Mas atrasar mais do que isso "parece um bocadinho arriscado".

O alerta é de Luís Varandas, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade NOVA de Lisboa que, em declarações à TSF, deu conta das implicações da proposta do coordenador da task force da vacinação contra a Covid-19, vice-almirante Gouveia e Melo, que abriu a porta a um alargamento do período de toma das duas doses da vacina.

Na Comissão da Saúde, na Assembleia da República, o coordenador da task force revelou que está a ser estudado o alargamento deste período "por duas semanas, de forma a conseguirmos antecipar a vacinação a cerca de 200 mil pessoas", algo que, segundo o próprio, "não vai fazer grande variação no processo de defesa da pessoa que já foi vacinada com a primeira dose".

À TSF, Luís Varandas explica que os intervalos predeterminados para a toma de várias doses das vacinas são, habitualmente, os intervalos usado "nos ensaios clínicos, que estão avaliados e para os quais temos noção da efetividade da vacina". Assim, ao alterar o intervalo entre as doses "pode ficar tudo exatamente na mesma ou pode haver alterações".

No caso da vacina da Pfizer/BioNTech, o que acontece é que "foram testados intervalos de três semanas" que permitem saber que a vacina "é imunogénica e funciona, é efetiva na prevenção da doença". Mas, "se alargarmos os intervalos, poderemos não ter essa efetividade."

A segurança da proposta do vice-almirante Gouveia e Melo, que passa por alargar o período entre doses, depende em muito da dimensão do novo intervalo a aplicar, como nota Luís Varandas.

"Uma ou duas semanas não me parece, sinceramente, que seja complicado e que se perca alguma coisa em termos de efetividade da vacina", nota o professor, que avisa no que ir além desse alargamento "parece um bocadinho arriscado", não porque a vacina deixe de funcionar, mas "por falta de dados".

"É mesmo desconhecimento e é especulativo dizer o que funciona ou não", admite Varandas, que dá um exemplo para ilustrar uma situação em que aconteceu o contrário. Ou seja, foi encurtado o intervalo entre a toma das doses.

Na vacina da raiva, "fazíamos aos zero, 21 e 28 dias e agora faz-se aos zero e sete dias", isto porque a vacina "é muito mais rápida a conseguir a proteção" ao mesmo tempo que mantém o nível dessa mesma proteção. Assim, as alterações aos prazos "tanto podem ser para a frente como para trás".

Luís Varandas também sublinha que alargar o prazo pode, ainda assim, criar mesmo algum perigo para a saúde pública, porque "quando dizemos que as pessoas ficam protegidas contra a doença, não sabemos se ficam protegidas contra a infeção" ou se, estando infetadas, "podem ou não transmitir a doença".

Embora existam dados que demonstram "alguma redução do estado de portador da doença" ou de "estar infetado e assintomático", é preciso saber se duas doses têm impacto "nesse estado de podermos infetar e transmitir a doença a outros".

Se esse impacto se confirmar, alerta, "é importante, do ponto de vista de saúde pública, que façamos as vacinas na altura certa para reduzir" a possibilidade de assintomáticos continuarem a transmitir a doença.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A COVID-19

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de