Patriarca de Lisboa ocultou denúncia de abusos sexuais e manteve padre em funções

O caso remonta a 1990, mas foi recentemente dado a conhecer a D. Manuel Clemente. A polícia não foi informada e o sacerdote visado continuou o seu trabalho numa associação privada que acolhe crianças e jovens.

O atual cardeal-patriarca de Lisboa teve conhecimento de uma denúncia de abuso sexual de um menor por parte de um padre, na década de 1990, mas não informou a polícia.

O caso é avançado pelo Observador, que revela ainda que D. Manuel Clemente se encontrou pessoalmente com a vítima do alegado crime, mas optou por manter o sacerdote em funções.

O padre visado, que está neste momento hospitalizado​​​​​, já não tinha cargos diretamente associados a paróquias, mas nunca foi oficialmente afastado e até há pouco tempo dirigia uma associação privada (fora da jurisdição da Igreja Católica) que acolhe famílias, crianças, jovens e idosos.

O caso terá sido inicialmente dado a conhecer pela mãe da vítima ao anterior patriarca, D. José Policarpo. "O Patriarcado de Lisboa confirma que recebeu, no final da década de 1990, uma queixa contra o padre [...] por alegados abusos sexuais. Na altura, foram tomadas decisões tendo em conta as recomendações civis e canónicas vigentes", afirmou a instituição.

Apesar de não se saber ao certo que decisões foram tomadas, o padre acabou por ser, à época, afastado do serviço paroquial, mas manteve-se como capelão, passando a exercer funções mais discretas na Igreja.

Já depois de 2019, ano em que o Papa Francisco determinou a criação de comissões para denunciar abusos de menores na Igreja, o caso foi dado a conhecer ao atual cardeal-patriarca de Lisboa. A vítima, agora maior de idade, reuniu-se com D. Manuel Clemente para partilhar o caso, mas nada mudou.

Questionado pelo jornal, o Patriarcado confirma o encontro, mas justifica que o caso não foi entregue à polícia a pedido da própria vítima, que não queria tornar o caso público.

"O atual Patriarca encontrou-se com a vítima, que não quis divulgar o caso, mas sim que não se voltasse a repetir. Até este momento, o Patriarcado de Lisboa desconhece qualquer outra queixa ou observação de desapreço sobre este sacerdote", respondeu o gabinete de D. Manuel Clemente ao Observador.

Segundo as atuais normas internas da Igreja Católica, todos os casos de abusos alegadamente cometidos por membros do clero têm de ser comunicados às autoridades.

Também a Polícia Judiciária apela à comunicação de todos os casos de alegados abusos, mesmo que já se encontrem prescritos no plano judicial, uma vez que há um grande risco de repetição deste tipo de crimes.

Este caso enquadra uma das 300 denúncias já recebidas pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa e nome do suspeito já está nas mãos da PJ. No entanto, sem nomes de vítimas e outros casos conhecidos contra este padre, dificilmente será possível abrir uma investigação.

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