Previsibilidade e objetivos. Como convencer os portugueses a ficarem em casa mais um mês

Coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Psicólogos diz que as pessoas precisam de alguma "previsibilidade e controlo", numa espécie de luz ao fundo do túnel.

Com cada vez menos infeções e menos mortos provocados pela pandemia, como é que o Governo pode convencer os portugueses a ficarem em casa?

A dúvida surge numa altura em que, com as mesmas regras de confinamento, muitos portugueses já estão, na prática, a ficar menos em casa e em que o Governo já disse que tão cedo não quer ouvir falar em desconfinar, algo que dificilmente acontecerá antes do final de março - data estimada para os internados em cuidados intensivo descerem para níveis menos preocupantes.

O coordenador do gabinete de crise para a Covid-19 criado pela Ordem dos Psicólogos admite que a equação não é fácil. À TSF, Tiago Pereira refere que é essencial que as pessoas tenham uma perspetiva de futuro, ou seja, que daqui a "x" tempo isto acaba, para terem "alguma ideia de previsibilidade e controlo".

"Há muito poucos dados sobre os efeitos reais dos comportamentos das pessoas na redução de infeções quando uma ou outra medida são tomadas - ao contrário do que ocorre noutros países, que já usam o trabalho das ciências comportamentais, "algo que será importante no apoio à tomada de decisão".

O especialista compreende que tudo ainda seja muito incerto, fruto das variantes da Covid-19 e das dúvidas sobre a concretização do plano de vacinação, mas recorda o problema da fadiga pandémica - um problema também destacado por Nuno Santos, especialista em mobilidade da PSE, uma consultora de análise de dados.

Nuno Santos detalha que, "do que temos visto desde início da pandemia, as inibições mandatórias não são as mais eficazes", sendo preferível apostar numa boa "gestão das expectativas e da comunicação, variáveis muito mais importantes para garantir a adesão da população" às medidas para travar o avanço do coronavírus.

O representante da Ordem dos Psicólogos refere que a palavra-chave é "confiança", uma dimensão fundamental para que as pessoas acreditem nas mensagens que lhes são transmitidas, é preciso "dizer claramente aquilo em que vai resultar o esforço que estamos a fazer".

"A confiança tem um papel-chave e eu temo que tenha ficado condicionada por uma alteração para uma comunicação mais culpabilizante e mais ilegitimadora do cansaço dos portugueses", refere o especialista.

Concordando com as palavras do epidemiologista Manuel Carmo Gomes, Tiago Pereira defende que é preciso definir metas e indicadores concretos para que as medidas de confinamento sejam apertadas ou aligeiradas, de forma a dar "previsibilidade às pessoas, numa pandemia que tem muito de incerteza".

O psicólogo compreende, contudo, a prudência das autoridades em definirem esse quadro de referência: "Se, por um lado, é importante saber quando vamos desconfinar e em que condições, por outro lado, é importante que as autoridades precisem de informações mais concretas para definirem aquilo que se deve fazer", conclui.

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