Salvamento feito por pescadores algarvios na II Guerra imortalizado numa escultura

A enorme escultura de ferro está a ser colocada no Largo de S. Francisco, em Faro.

Atrás da escultura está a ria Formosa, o local onde se passou toda a história. Era a noite de 30 de novembro de 1943, estávamos em plena Guerra Mundial e um avião militar norte-americano que tinha andado a perscrutar submarinos e barcos alemães saiu de uma base em Marrocos. No entanto, o bombardeiro perdeu-se e ficou sem combustível. E aqui começa a história de três pescadores de Faro.

Os aviadores "tentaram aterrar na praia, não conseguiram e despenharam-se a cerca de duas milhas", conta o jornalista que, mais de 50 anos depois, investigou e trouxe a lume a história. Carlos Guerreiro lembra que "mal tocou na água o avião partiu-se em várias partes". Cinco tripulantes morreram, seis foram salvos pelos três pescadores que se encontravam lá perto e que não ganharam para o susto. No entanto, não hesitaram em fazer o salvamento. Num pequeno barco Jaime Nunes, José Mascarenhas e o seu filho Manuel, ainda criança, tiveram que esperar que a maré subisse e vieram a remar toda a noite até terra. Dos seis aviadores, dois tiveram que ser transportados para Lisboa com ferimentos graves, mas todos sobreviveram.

A história foi abafada pelo Estado Novo e nunca relatada nos jornais da época. "Foi tirada uma fotografia aos pescadores que era suposto ser publicada nos jornais e que foi, felizmente, oferecida aos aviadores", adiantou. Nem a foto, nem a história foram publicadas. Segundo contou o jornalista à TSF foram mais tarde os aviadores que lhe deram a foto e ele entregou-a ao pescador Jaime Nunes.

"Quando eram atos da marinha e de entidades oficiais, os jornais não se calavam. Neste caso, tudo foi abafado", lamenta. Portugal não queria beliscar a sua neutralidade. Pior do que isso, os pescadores, gente muito pobre, não receberam qualquer compensação, nem puderam ir ao mar durante vários dias. "Tiveram que responder a todo o processo", conta o neto de Jaime Nunes.

António Afonso ouviu vezes sem conta o seu avô contar o episódio. Uma das histórias que relatava aos seus descendentes era a de que, naquela noite de aflição e frio, tinha embrulhado um dos aviadores norte-americanos num casacão seu. E, com muita pena sua, nunca mais o tinha visto. Carlos Guerreiro lembra que muitos anos mais tarde, sabendo da história, um dos comandantes das tripulações norte-americanas ofereceu um casaco ao velho pescador.

Este é um feito que vai ficar assinalado com uma escultura, mas Carlos Guerreiro, que escreveu o livro "Aterrem em Portugal" e investiga estes assuntos, estima que tenham sido realizados nas águas portuguesas cerca de dois mil salvamentos durante a II Guerra Mundial.

Quanto ao pescador Jaime Nunes, só foi alvo de uma homenagem quando contava mais de 80 anos e através de contactos feitos pelo jornalista. A um dos tripulantes norte-americano, na altura ainda vivo, tinham garantido que os pescadores tinham sido recompensados. Quando percebeu que isso não tinha acontecido e os pescadores nada tinham recebido, protestou junto da embaixada americana que acabou por fazer uma homenagem ao pescador Jaime Nunes, o único que nos anos 90 do século passado ainda estava vivo. Na altura deram-lhe uma placa. Agora, pela mão de Michael Pease, um britânico de 90 anos residente no Algarve mas que assim que soube da história se tem empenhado em fazer um memorial a este feito heroico, está a ser colocada uma enorme escultura no largo de S. Francisco, em Faro.

Na escultura em ferro, com mais de 2 toneladas e 5 metros de altura - obra é da escultora nascida no Zimbabué Toin Adams - pode vislumbrar-se o desenho recortado dos pescadores a salvarem os aviadores norte americanos.

Quando estava a montá-la no local, a artista apercebeu-se que que muita gente passava e não conhecia a história. "Havia senhoras velhotas que passavam e diziam Ah, eu lembro-me dessa história, mas a maior parte das pessoas não conheciam", conta Toin Adams.

O projeto teve muitas vicissitudes, a começar pela falta de verba. O inglês Michael Pease conseguiu angariar 10 mil euros, a câmara de Faro deu outros 30 mil. Mas, segundo a artista só foi possível fazer a obra devido a muito voluntariado." Tenho muitos amigos que, com o pagamento de sandes de queijo e cerveja, trabalharam". " Tudo não seria possível sem muita cerveja", diz a rir a escultora.

A estrutura do trabalho está quase toda montada, só falta a inauguração ainda sem data marcada.

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