"Senhor primeiro-ministro, venha ao terreno. Falta muito material"

Raquel Martins tem 32 anos, trabalha como enfermeira no norte do país há dez anos. Acusou positivo para a Covid-19, está em casa de quarentena e vive estes dias indignada com as declarações públicas de António Costa. Em entrevista à TSF, descreve aquilo a que chama um quadro de "pânico" que se vive, neste momento no Serviço Nacional de Saúde.

Da realidade descrita pelo primeiro-ministro na comunicação social, à realidade descrita pelos profissionais de saúde que estão no terreno, pode ir uma longa distância. A TSF falou com uma enfermeira, do norte do país, que acusou positivo para a Covid-19 e está neste momento de quarentena. Raquel Martins garante que falta muito material aos profissionais de saúde e avisa o Governo que de nada vale comprar ventiladores, se depois não existirem médicos e enfermeiros para os operar.

Há quanto tempo fez o teste para a COVID-19?

Eu testei positivo na terça-feira da semana passada. Estou no 12.º dia da doença, porque depois fazem o cálculo de contágio.

Qual é o seu estado de saúde de momento?

Não tenho sintomas. Passados uns dias, comecei a perder o olfato. Não tenho qualquer tipo de cheiro nem paladar. Mas tenho estado em contacto com as minhas colegas de serviço que também contraíram e estão exatamente iguais. A médica que me liga todos os dias, ou de dois em dois dias, diz-me que, efetivamente, muitas pessoas referem este sintoma. E, neste momento, acho que é muito o psicológico, porque, quer queiramos, quer não, fica sempre afetado. Nós estarmos a viver há uma semana no mesmo sítio, sem ir à rua, em todos os canais é só Covid e nós próprios também queremos saber porque sou profissional de saúde, não me consigo desligar disto, porque tenho os meus colegas com quem falo todos os dias e a todas as horas, é muito complicado. Parece que aparecem sintomas, mas já não são sintomas. De resto, nunca tive febre, nem tosse. Nada de preocupante, para já. Esperemos que continue assim até ao 14.º dia, onde depois farei o exame, até ter dois negativos.

Tem ideia de como terá contraído vírus? Como soube que tinha testado positivo para Covid-19?

Eu contraí em meio hospitalar, numa consulta externa, que é onde eu trabalho. Nós somos quatro enfermeiras, das quais três estão positivas ao Covid. Foi talvez - não sei - por não usarmos a máscara, porque as chefias, infelizmente, não gostam muito que as pessoas usem máscara. E em contexto de hospital privado, piora.

Fui fazer o teste ao Hospital de Santo António, deu positivo e foi um soco no estômago, porque todos nós temos medo. Foi uma sensação horrível e está a ser todos os dias. Espero que as pessoas fiquem em casa e que protejam os meus colegas, porque estão na linha da frente sem material. Não é verdade o que diz o nosso primeiro-ministro, que existe material. Não é verdade. Não é verdade quando diz que não falta nada no Sistema Nacional de Saúde (SNS). Não é verdade.

Os meus colegas falam - nós falamos todos os dias - e eles não têm material, nomeadamente as viseiras, que são imprescindíveis para a entubação de doentes. Alguns estão a fazer com aquelas películas de acetato, que depois não sabemos se os protege. Porque não sabemos se são protocoladas. É como as máscaras. As máscaras têm que ser resistentes. Por isso, isto é muito complicado dizer-se que não falta nada no SNS, quando nós sabemos que falta. Isso revolta muito, estarmos em casa a ouvir e não podermos entrar em direto e dizer: "Senhor primeiro-ministro, falta! Venha cá ao terreno, veja, falta. Falta muito material".

Espero que as pessoas fiquem em casa mesmo, porque isto não é brincadeira. É só olharmos para Itália, para Espanha. Espanha está a aumentar. É esse o meu apelo, que as pessoas fiquem em casa.

Também dizer uma palavra para os centros que nos fornecem bens alimentares. Eu estou em casa e só me fazem entregas daqui a um mês. Como é que eu sobrevivo sem sair de casa, sem expor os meus pais, sem expor os meus sogros que já passam dos 60 anos? Como é que vou expor essas pessoas para me irem a um supermercado para me fazer compras?

Outra coisa também importante é como é que nós vamos ao lixo? Nós não podemos sair de casa, estamos isolados. Como é que levamos os lixos que fazemos todos os dias e como é que nos alimentamos? São essas as questões que eu faço quando os períodos de entrega são assim tão grandes e nós temos de continuar a alimentar-nos e a viver. Isto não é tão fácil. Quando um delegado de saúde diz para as pessoas se isolarem e que não podem sair durante 14 dias, nós não saímos, mas é preciso alimentarmo-nos.

"Estou neste momento a dormir e a alimentar-me na cozinha"

Considera que devia haver mais apoio, sobretudo para quem está de quarentena obrigatório, como é o caso das pessoas com Covid-19?

Sim, porque os números são muito bonitos: a maior parte da população portuguesa está a ser tratada em casa. É muito bom. Agora, estou a ser tratada em casa, mas eu não tenho uma arca industrial onde possa ter metido muita comida para um mês ou dois. Eu tenho duas crianças, preciso de bens alimentares e vou a todos os supermercados via online do Norte do país, não tenho entrega e não posso sair de casa. Tenho a minha lavandaria cheia de lixo, porque eu também não posso ir à rua.

Como é que faz o seu dia-a-dia do ponto de vista logístico? As suas crianças estão consigo ou estão com familiares?

Não, as crianças estão em casa porque não vou submeter os meus pais, nem os meus sogros, a ficarem doentes, porque as crianças também são portadoras. E como tal, as crianças estão isoladas de mim. Eu vivo, como e durmo na cozinha porque foi o sítio que eu arranjei, onde é mais fácil de, com uma máscara, fazer a alimentação, lavar sempre muito bem as mãos, lavar a louça com muito sabão. É lavar muito bem a louça, é lavar muito bem a roupa. Criei uma barreira cá em casa, vou passando a comida e eles vão-me passando a louça suja. Estou neste momento a dormir e a alimentar-me na cozinha.

Como são as suas condições para dormir na cozinha e as suas condições logísticas em casa?

Eu teria de ter um T4. Tenho um T2. As condições não são as melhores, mas isso já são coisas passadas: os vencimentos, os trabalhos... As coisas não são um mar de rosas nem a "Alice no País das Maravilhas". Há muitas limitações. E eu ainda me sinto feliz por ter uma casa, dois quartos de banho, dois quartos. Imagino outro tipo de pessoas, como é que estarão a viver?

Há um colchão de uma das minhas filhas no chão. O meu era impensável porque a cozinha não é enorme. Como sentada no colchão e vejo televisão porque trouxe a minha televisão do quarto, para poder deixar toda a casa para elas. Elas têm cinco anos e não é muito fácil explicar-lhes que a mãe está isolada porque tem um bicho. E com duas crianças é preciso explicar o porquê de estar sol e não poderem ir lá para fora, de terem de estar em casa. É preciso ter muito cuidado. Também não quero que elas fiquem preocupadas e isso possa afetar a parte psicológica de uma criança. Graças a Deus, não estão, estão bem, correm, saltam, brincam. Isso para mim é muito importante. Vamos esperar por melhores dias, que virão certamente.

"Se não proteger os profissionais de saúde, podem vir mil ventiladores que serão decoração num hospital"

Quais são os próximos passos? O que acontece depois do 14.º dia?

Nem eles sabem. A médica vai ligar-me daqui a três dias, se eu me sentir pior, para ligar. Mas tinha tudo para ficar sem evolução e até regredir o olfato e o paladar. O pico da doença é no quinto e no sétimo dia. É o estado inflamatório. Ou seja, é onde se revela o agravamento dos sintomas, embora eles possam aparecer até ao 14.º dia. Depois, disse-me que ainda não sabia como iria ser, mas para eu sair do isolamento teria que fazer dois testes, com um intervalo de 24 horas. Ou vem um delegado cá a casa ou vou ao centro de saúde. Eles ainda não sabem muito bem e eu compreendo. Eles nem sabem se ainda vão ter reagente para me poder fazer o teste. É muito complicado. Isto é gerido dia a dia e imagino como é que eles estejam a gerir as coisas dia a dia.

Que relatos vai recebendo dos seus colegas que estão a trabalhar?

Os meus colegas estão em pânico nos meios hospitalares. Ainda ontem tínhamos uma discussão em que uma colega me dizia: "Mas eu vou abandonar o doente? E se fosse a tua mãe?". É esse o problema, porque nós não conseguimos abandonar os doentes. É característico nosso, não abandonar o doente, pondo em risco a nossa vida. E nós sabemos disto mas, no momento em que os estamos a tentar salvar, nós nem sequer estamos a olhar para a nossa saúde, nem se estamos protegidos ou não. Está intrínseco, é nosso. Nós somos assim - os enfermeiros, os médicos - nós somos assim. Nós estamos nos meios hospitalares para salvarmos as pessoas e ninguém vira as costas a um doente. O primeiro-ministro pode vir dizer que tem tudo e que gastou dez milhões de dólares para comprar 500 ventiladores. Pois então eu posso-lhe dizer-lhe a ele que os ventiladores não se programam sozinhos. Eu trabalho em bloco operatório, sou enfermeira de anestesia, trabalho com ventiladores e com anestesistas. Se não proteger os profissionais de saúde, podem vir mil ventiladores que serão decoração num hospital. É preciso EPIs, é preciso máscaras, é preciso fatos, é preciso viseiras, é preciso material de proteção.

Uma coisa de cada vez. Primeiro, proteger os profissionais. Depois, os ventiladores. Não adianta termos muitos ventiladores em Portugal para dizer que temos muitos e depois não termos os profissionais de saúde. Um cirurgião vascular não sabe programar um ventilador. Um médico de medicina interna não sabe programar um ventilador. Estamos a falar de [médicos] intensivistas e estamos a falar de médicos anestesistas. Esses, sim, são pessoas que estão habituadas. Se pegar num laringoscópio, que é o material que se usa para entubar e se passar para a mão de um cirurgião geral, ele não sabe entubar um doente. E a entubação é que salva vidas. Não estamos aqui a brincar, vamos buscar ventiladores, vamos buscar EPIs. Protejam os profissionais de saúde. É isso que é necessário. Um passo de cada vez. Eu falo do Norte. Só falo daquilo que conheço. Não falo daquilo que não conheço. No Norte do país faltam EPIs.

E para quem não está familiarizado com o termo, o que são EPIs?

EPI é material de proteção. São as máscaras - FFP2 -, são as batas, são aqueles fatos de corpo que até têm adquirido. Falo, nomeadamente, aqui do Norte, onde são empresas que têm oferecido. Maridos de colegas que têm oferecido. Isto não pode acontecer. Ainda ontem eu procurava material para dar a uma colega minha, que trabalha em [cuidados] intensivos, para eu comprar do meu próprio bolso porque vejo os meus colegas com medo. São as viseiras - um material transparente - que cobrem a cara. O grande problema é quando estão a entubar um doente, precisam de estar devidamente equipados. Precisam da viseira, precisam de máscara, de luvas, batas, os fatos, o cobre-sapatos. Existem até aquelas toucas que as pessoas conseguem ver nos vídeos que passam de Itália, que é branca e cobre a cabeça toda. Para estar o mínimo de área exposta. Nenhuma parte do corpo deve estar exposta, deve estar tudo protegido.

Que mensagem gostava de passar aos profissionais de saúde do país?

Os meus colegas têm medo, como todos nós temos. Eu costumo dizer-lhes todos os dias: "Os heróis não são aqueles que vão para uma guerra sem estar armados. Os heróis são aqueles que se mantêm em guerra armados". E é isso que eu lhes quero transmitir a eles todos os dias. É que vão, mas com EPIs. Porque nós precisamos de vocês. Nós precisamos deles.

Vamos ser verdadeiros. Vamos ficar em casa. É o que eu peço às pessoas, que fiquem em casa. Olhem para os nossos vizinhos e fiquem em casa. Olhem para Espanha, olhem para Itália, olhem para a China, olhem para o mundo e fiquem em casa porque precisamos de proteger os nossos. Aos meus colegas, que tenham muita força. Serão os heróis, vão ficar todos bem, vai ficar tudo bem. Olhem para vocês, para as vossas famílias e protejam-se porque é muito importante. Tenham muita coragem que estamos todos a torcer por vocês e precisamos muito de vocês. São os nossos heróis.

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