Stress pós-tráumatico, depressão, adição. As marcas deixadas pela guerra colonial

Psiquiatra considera que a perda de perspetiva de futuro na guerra colonial de há 60 anos é semelhante à da atual pandemia de Covid-19.

Estima-se que cerca de 100 mil antigos combatentes da guerra colonial sofram ou tenham sofrido de stress pós-traumático devido aos efeitos do conflito.

A psiquiatra Luísa Sales, responsável pelo Serviço de Psiquiatria do Hospital Militar de Coimbra, explica que a doença afeta cerca de 10% das pessoas expostas à guerra e que se manifesta de diferentes maneiras.

Luísa Sales esclarece que há ex-combatentes que ficam "determinantemente marcados, seja por stress pós-traumático, seja por patologias de caráter psicológico e psiquiátrico", mas há também um outro grupo "que faz a sua vida normal", porém, "em situações de crise, de pressão pessoal ou social" (situações de confrontos ou doenças físicas graves, por exemplo) pode "espoletar o reaparecimento de manifestações clínicas da patologia".

Luísa Sales recorda que outros conflitos e guerras, como, por exemplo, Timor, trouxeram à tona os sintomas da doença para antigos combatentes da guerra colonial.

"Há pessoas que têm flutuações nos seus sintomas. Quando houve [a guerra de] Timor, quando havia golpes na Guiné, as pessoas regressavam de uma forma muito dramática às vivências anteriores, aos 'flashbacks', aos pesadelos noturnos", conta a psiquiatra. "Diziam, muitas vezes: "Voltei à guerra. Voltei à selva, voltei ao mato"."

Apesar do stress pós-traumático ser uma das doenças mais comuns entre antigos combatentes, há outros efeitos da guerra, a nível de saúde mental.

"Há pessoas que deprimem, que desenvolvem quadros de ansiedade evidentes, que fazem ruturas psicóticas, que entram em comportamentos aditivos,...", exemplifica a especialista. "Há um núcleo que reage de uma forma muito particular, que é, especificamente, evitar tudo o que possa fazer recordar aquelas situações perturbadoras."

Luísa Sales considera que a pandemia de Covid-19 tem algumas semelhanças com o início da guerra colonial a nível de consequências para a saúde mental dos portugueses, sobretudo devido à imprevisibilidade dos dois acontecimentos.

"Na altura, [a guerra colonial] foi uma surpresa para a população em geral. Esta pandemia foi um bocadinho a mesma coisa, foi uma surpresa", compara. "Simultaneamente, esta perda de controlo, esta perda de perspetiva de futuro, esta ansiedade expectante sobre o que vem à frente, foi muito marcante durante o período da guerra e é muito marcante agora", sublinha a psiquiatra.

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