"Trauma e burnout": 65% dos maquinistas portugueses envolvidos em casos com vítimas mortais

Estudos apresentados pelo Sindicato dos Maquinistas indicam também que 90% destes profissionais receiam atropelamentos.

Cerca de 90% dos maquinistas portugueses afirmam ter medo de atropelar pessoas e 65% já esteve envolvido em situações que envolveram vítimas mortais. As conclusões são de dois estudos, a que a TSF teve acesso, encomendados pelo Sindicato dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro Portugueses (SMAQ)e apresentados esta quinta-feira.

António Domingues, presidente do Sindicato dos Maquinistas, afirma que os resultados dos estudos apontam para "incidências de trauma elevadas, que vêm acumulando ao longo dos anos, decorrentes do exercício da profissão" além de, "pontualmente", algum "descontentamento" com as condições de trabalho.

"[São] preocupantes estas situações de trauma e de 'burnout', que são elevadíssimas, muito superiores àquilo que estávamos à espera", alerta, em declarações à TSF.

"Há situações em que há mais exaustão emocional (...), também decorrente das especificidades da própria empresa - se tem um acordo de empresa vinculativo, se não tem,... Há outras empresas empresas em que o trauma é mais elevado - há mais colhidas, mais atropelamentos - essencialmente nos comboios suburbanos, mas também nos de longo curso", refere.

Para minimizar o desgaste destes profissionais, o presidente do Sindicato dos Maquinistas aponta que devem ser tomadas medidas em "duas dimensões": a nível das empresas, que "devem identificar o problema e mitigá-lo, melhorando as condições de trabalho", com medidas como, por exemplo, a redução dos horários semanais; e, a nível político, com iniciativas legislativas que permitam que haja "uma bonificação no acesso à reforma" - isto porque 66% dos profissionais admite preocupação em relação ao tempo que falta para chegar à reforma.

O 'Inquérito Nacional às Condições de Vida e de Trabalho dos Maquinistas Ferroviários em Portugal' foi elaborado por investigadores do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho (Universidade Nova de Lisboa, Instituto Superior Técnico e Université de Paris), com base em inquéritos feitos a 610 maquinistas, distribuídos pelas empresas da ferrovia pesada -- CP, Medway, Fertagus, Takargo -- e pelas duas empresas de Metro Ligeiro: Metro do Porto e Metro e Transportes do Sul (MTS).

De acordo com o estudo, quase 90% dos maquinistas ferroviários trabalha quarenta ou mais horas por semana e 61% diz que o tempo de descanso é insuficiente, o que aumenta os riscos para a sua saúde e concentração. A elevada carga de trabalho é potenciadora "de erros, e de riscos acrescidos para a segurança ferroviária".

O estudo revela que mais de metade dos maquinistas não gozou mais de 12 dias seguidos de férias completos e a maioria teve de trabalhar nas folgas previstas. Quase todos trabalham por turnos e escalas (em 600, apenas cinco não o fazem), 94% faz trabalho extraordinário e 61% diz que o tempo de folgas não é suficiente para descansar, enquanto 75% afirmam não ter tempo livre para a família e para si próprios. Cerca de 59% afirma estar esgotado algumas vezes por mês ou semana.

As condições de trabalho têm também consequências na saúde dos profissionais. Os investigadores salientam que as "longas jornadas de trabalho (mais de 11 horas por dia regularmente) podem aumentar o risco de doença cardiovascular e os sintomas depressivos, diabetes mellitus de tipo 2, síndrome metabólica, acidentes de trabalho e incapacidade.

De acordo com o estudo, os maquinistas consideram que são muito afetados por rendimentos insuficientes e por turnos e escalas fora do controlo. Quase 50% consideram que a avaliação individual de desempenho é um fator de conflito e mais de 60% que o trabalho afeta negativamente a sua saúde física e psíquica. Os dados recolhidos indicam que 58% dos maquinistas entende que a informação sobre os riscos profissionais disponibilizada pela sua empresa é insuficiente ou inadequada.

O sindicato divulga também um estudo sobre os 'Fatores de desgaste psicológico e trauma nos maquinistas da ferrovia portuguesa', elaborado por investigadores da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação (FPCEUP) da Universidade do Porto, com base em inquéritos feitos a quase 700 maquinistas ferroviários.

Os estudos, iniciados em 2020 e terminados no início de 2022, foram patrocinados pelo SMAQ com o objetivo de "realizar uma avaliação, com bases científicas, sobre o desgaste biopsicossocial que o exercício da profissão de Maquinista Ferroviário provoca ao longos dos anos nas pessoas que a exercem".

Notícia atualizada às 11h27

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