Bibliomóvel, no Algarve
isolamento

Uma biblioteca que sobe à serra algarvia e leva também amizade

No concelho de Castro Marim uma carrinha transporta livros e atividades para combater o envelhecimento e ajudar na saúde mental de uma população idosa em confinamento.

A equipa parte de Castro Marim na carrinha da bibliomóvel. Vai percorrer alguns quilómetros na serra algarvia. Primeira paragem, Odeleite. Estão apenas três pessoas à espera no largo.

Vitalina vem espreitar que novidade é aquela. Quem lhe deu a notícia foi o presidente da junta de freguesia. "Vim ver o que era." Admite que pouco lê. " Não vejo as letras pequeninas", explica.

A sua escolaridade também não é muita. "Tenho a quarta classe, nesse tempo a gente ia para o campo ceifar, à laranja, apanhava ervilhas", conta, lembrando tempos da sua meninice. Mas mais do que transportar livros, a carrinha da bibliomóvel leva companhia a quem está habitualmente isolado nos montes e que esta pandemia ainda deixou mais só. Este projeto do município de Castro Marim é coordenado pela Associação Odiana e pretende levar não só a leitura mas também alguma atividade às aldeias do interior. "Trazemos também uma atividade para promover a estimulação cognitiva e ocupar os tempos livres", diz Sílvia Lourenço. Hoje o desafio é construir um boneco de trapos, um coelho de Páscoa que a funcionária da autarquia explica a Vitalina como se faz. Na bibliomóvel vai também um terminal de Multibanco para que os serranos possam pagar por exemplo a água e a luz sem se deslocarem à vila.

João Madeira, habitante da terra, sobe à carrinha e escolhe um livro."Romances não é comigo, gosto mais de histórias reais." Escolhe um livro de Barack Obama e Ângela, a funcionária da biblioteca explica-lhe que pode não ler tudo numa semana, logo entrega o livro quando o acabar.

A carrinha põe-se novamente ao caminho e sobe mais uns quilómetros na serra, até ao sítio de Furnazinhas. Um monte com mais gente, a maioria idosos que aguarda a chegada da bibliomóvel. "Boa tarde, minhas meninas lindas." Ângela brinca com as pessoas, arranja-lhes cadeiras para se sentarem à sombra, entrega-lhes um jornal regional. Olívia, 81 anos, ensaia a leitura do cabeçalho.

"O dia em que os testes chegaram aos montes", lê devagar. A notícia fala dos testes à Covid-19 que a autarquia já fez naquele local. Lê devagar porque a sua terceira classe não permite mais. "Andava dois dias da semana à escola e depois ia para o campo com uma cabrinha ou duas, ovelhas, porcos." Justifica uma vida de trabalho passada na serra. Estarem ali, sentadas à sombra num dia soalheiro, e ver a carrinha que vem da vila é uma distração para estas pessoas."Toda a serra algarvia é envelhecida, é desertificada, com alguma tristeza à mistura", diz o presidente da câmara de Castro Marim. Tristeza que se acentuou nesta pandemia. "Nós queremos combater esta situação e daí esta bibliomóvel, para dar alegria a esta gente", sublinha.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de