UTAD criou a primeira Cátedra José Saramago de Portugal

Iniciativa é justificada pelos promotores com "uma ligação forte" de José Saramago à região de Trás-os-Montes e Alto Douro.

A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) criou uma Cátedra José Saramago. É a primeira do país tendo como patrono o escritor, único Prémio Nobel da Literatura de Língua Portuguesa. As áreas de atuação desta espécie de centro de estudos localizado em Vila Real serão a docência, a investigação e a ação cultural.

Mal foi anunciada, a cátedra despertou logo interesse internacional. São "professores e estudantes que estão a construir teses de doutoramento ou envolvidos em projetos de investigação sobre a obra de José Saramago e a língua portuguesa", destaca o reitor da UTAD, Emídio Gomes.

O reitor salienta que, apesar de já existirem "várias cátedras José Saramago espalhadas pelo mundo", em Portugal ainda não havia e foi essa lacuna que a UTAD quis colmatar. Emídio Gomes está convencido que "será bom para o país", mas terá, sobretudo, "impacto positivo no ambiente multicultural em torno da universidade", pois "a UTAD é muito mais que ciências tecnológicas e da vida".

A Cátedra José Saramago é um dos marcos das celebrações do centenário do escritor, que se iniciam esta terça-feira, dia em que faria 99 anos, e se prolongam por 2022.

Várias atividades

Para além da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, tem o apoio da Fundação José Saramago e da Livraria Lello do Porto. As atividades que abrange vão desenrolar-se em vários locais do país, designadamente na região transmontana e duriense, mas também estão previstas algumas no estrangeiro.

Tudo isto será possível através de parcerias com diversas entidades - autarquias, escolas, universidades, museus, associações culturais, entre outros - com o objetivo de beneficiar Portugal, a língua portuguesa, a cidadania em geral, os livros, os autores e a cultura.

Entre as áreas de intervenção desta Cátedra destacam-se dissertações de mestrado e teses doutoramento, roteiros pelo Douro ligados a Saramago, cinema, teatro, residências artísticas, tertúlias, conferências, seminários e cursos.

Haverá colóquios sobre o pensamento, a ação e a obra de José Saramago. Neste âmbito vão ser envolvidos autores relacionados com o escritor, como os que receberem ou venham a receber o Prémio Literário a que dá nome, entre outros.

O programa prevê também o visionamento, seguido de conversas, de filmes baseados na obra de José Saramago, como "Blindness", "Enemy", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "A Maior Flor do Mundo".

Estão previstas exposições de fotografias e de obras criadas a partir de Saramago, bem como dramatizações de obras do Prémio Nobel e de outros autores. Um deles é Valter Hugo Mãe, um dos que recebeu o Prémio Literário José Saramago.

Forte ligação ao Douro

A nova Cátedra da UTAD é justificada pelos promotores com "uma ligação forte" de José Saramago à região de Trás-os-Montes e Alto Douro. O percurso do "viajante", como Saramago se autointitula no livro Viagem a Portugal (1981), começa em Miranda do Douro, alonga-se a todo o Nordeste Transmontano e estende-se a todo o território do Norte.

A título de exemplo, leia-se esta parte, que é a primeira em que nessa obra aparece o topónimo Vila Real: "Antes de entrar em Chaves, o viajante vai a Outeiro Seco, não mais do que três quilómetros para norte. Ali, logo à entrada da povoação, está a Igreja de Nossa Senhora da Azinheira, peça românica do século XIII, célebre muitas léguas em redor, não tanto pelos seus merecimentos arquitetónicos, ou também alguma coisa, mas sobretudo por a escolherem para celebração de matrimónios e batizados as classes altas da região. Vão ali de Vila Real, de Guimarães, e até do Porto. À noite, quando as pedras podem falar sem testemunhas, deve haver grandes conversas entre elas, quem estava, quem casou ou saiu batizado, como ia a noiva vestida e se a mãe dela chorava com a comoção natural das mães que veem sair as filhas do seu regaço, hoje muito menos protetor do que antigamente".

Mais há mais excertos em que José Saramago fala do território transmontano e de Vila Real em particular: "E há as florestas. Torna o viajante a dizer-se afortunado por estar viajando no outono. Não se descreve uma árvore. Como se há de descrever uma floresta? Quando o viajante olha a encosta do monte fronteiro, o que vê é os altos fustes dos troncos, as copas redondas ou esgalgadas, escondendo o húmus, o feto, o brando mato destes lugares. Assim fica sabendo que viaja, ele também, no invisível, tornou-se gnomo, duende, bichito que vive debaixo da folha caída, e só torna a ser homem quando, de longe em longe, a floresta se interrompe e a estrada corre ao céu aberto. E sempre o rumorejar das águas, frigidíssimas, e as nuvens rolando no céu, é um murmúrio que passa, como serão aqui as trovoadas? Atravessar a serra do Marão, de Vila Real até Amarante, deveria ser outra imposição cívica como pagar os impostos ou registar os filhos. Enraizado no rio Douro, o Marão é o tronco deitado duma grande árvore de pedra que se prolonga até ao Alto Minho, entrando pela Galiza dentro: reforça-se na Falperra, e abre-se, monte sobre monte, pelo Barroso e Larouco, pela Cabreira e pelo Gerês, até à Peneda, nos altos do Lindoso e de Castro Laboreiro".

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