Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Sinais

Domingos sem café

Domingos sem café

O café onde, todos os domingos, muito cedo, abria o jornal enquanto esperava uma bola torrada, fechou as portas com o estado de emergência. Lembro-me de ter escutado as palavras de desalento do proprietário, no fim de tarde da véspera, convocando os empregados para uma reunião. Queria que reflectissem em conjunto sobre o melhor passo a dar. Já tinham reduzido substancialmente o número de mesas, criando entre elas distâncias cautelares, mas isso não foi suficiente, como se verificou. O homem confessou que levava algumas noites sem dormir, interrogando-se sobre como conseguiria honrar compromissos a que nunca faltara. Não esquecerei o seu gesto derrotado, o encolher de ombros que me devolveu, no dia seguinte, quando o interpelei com o olhar, no passeio. Andava em limpezas e arrumações, não reabriu.

"Repugnante." Não há outra palavra

"Repugnante." Não há outra palavra

Não há outra palavra para cunhar a afronta contida na declaração do ministro holandês das Finanças, após o Conselho Europeu de quinta-feira. Ao classificar a intervenção do ministro holandês como "repugnante", António Costa usou a palavra apropriada. Nenhuma convenção diplomática pode obrigar a palavra de um homem livre a agachar-se perante a mesquinhez de outro. A solidariedade que deve balizar a resposta aos desafios comuns da construção europeia avulta em momentos como o que vivemos.

Anotações de um passeio higiénico

Anotações de um passeio higiénico

Todos os dias, por volta das 6, quando o João Janes termina o turno da madrugada, desço com ele. Ficamos lá fora uns minutos a tagarelar sobre o avulso quotidiano; depois, ele mete-se no carro e eu vou ao Lima. O Lima era já o único café aberto nas redondezas das Torres de Lisboa. Fechou na véspera da declaração do estado de emergência. Mas continuo a descer com o Janes, tagarelamos sobre o que calha, ele vai descansar e eu dou uma volta ao quarteirão. É muitas vezes nessa breve caminhada que encontro o gatilho da prosa. Esta madrugada era ainda mais forte a gritaria dos pássaros nas árvores perto do Lima e, quando iniciei o solitário ritual peripatético, começou a cair uma chuva miudinha que me soube bem. Estava anunciada e, de algum modo, casou bem com a ideia de passeio higiénico que pretendo adoptar nos próximos dias de maior recolhimento.

Urgências, cisnes negros

Urgências, cisnes negros

A edição digital da Euronews dá eco à indignação de uma médica nas urgências de um hospital parisiense . "Não temos armas para esta guerra", diz ela. As suas palavras reclamam, mais do que a aclamação de um heroísmo de classe, a garantia de condições mínimas de combate à pandemia. Perguntada sobre máscaras, responde que não se deve mascarar a realidade. Ela e os colegas têm máscaras, sim, mas "faltam batas, gel hidroalcoólico, toucas de protecção, calçado próprio".