Sinais

"Outros Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Sinais

Conversas e epitáfios

Conversas e epitáfios

Folheio este livro precioso, "Diz-lhe que estás ocupado" - Conversas com Alexandre O'Neill, preparando a entrevista com Joana Meirim, a investigadora que o organizou para a edição feliz da Tinta da China. Detenho-me numa passagem da entrevista que ele deu a Eduardo Guerra Carneiro, em Outubro de 1973, para a revista Cinéfilo. Diz Eduardo: "Alexandre, você tem a mania dos ciclistas. Ainda numa das últimas crónicas da Manchete você fala nisso. E os seus poemas têm títulos como, por exemplo, "O Ciclista", "O Lanterna Vermelha". E O'Neill responde que andava muito de bicicleta com o pai, no tempo da guerra. E lembra que "a bicicleta era um tema muito querido dos surrealistas". Logo ocorre a "Roda de Bicicleta" de Marcel Duchamp ou a Sinfonia de Bicicletas do Dali, a orquestra tocando no convés por entre um mar de bicicletas-formiga. Foi de bicicleta que O'Neill pedalou para despistar a censura, quando a ditadura quis travar, nos jornais, a enxurrada de mortos das cheias de 67 em Lisboa e vale do Tejo. Lembro-me de Joaquim Letria ter dito, emocionado, nesta rádio, esse poema, recordando a reportagem contra o medo. "O meu marido / saiu de casa no dia/ 25 de Janeiro. Levava uma bicicleta/ a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,/ vestia calças azuis de zuarte, camisa verde/ blusão cinzento, tipo militar, e calçava/ botas de borracha e tinha chapéu cinzento/ e levava na bicicleta um saco com uma manta/e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo/ e uma panela de esmalte azul./ Como não tive mais notícias, espero o pior".

Bielorrússia

Bielorrússia

"As autoridades bielorrussas lançaram um ataque total contra a sociedade civil." O relatório anual apresentado ontem pela relatora especial da ONU para a Bielorrússia descreve um processo continuado de repressão, a tal ponto que "nenhum opositor do actual governo está a salvo, em nenhuma parte". O desvio de um avião civil que transportava um dissidente, em finais de Maio, é apenas um momento mais exuberante da implacável perseguição aos desalinhados. Milhares de pessoas presas porque tiveram a ousadia de reunir-se, casos de tortura nas prisões e de desaparecimento forçado de opositores, o rol de atrocidades é extenso e perturbador.

O jogo infinito

O jogo infinito

Por mais de uma vez, na ressaca de um certo futebol triste e previsível, pensado para pouco mais do que não perder, confiado nos astros e na calculadora, soltei, aqui na Redacção, imprecações sem freio, ancoradas num pensamento dançante que identifico em Cruyff, Valdano e Guardiola e que, quase sempre, são rematadas com uma sentença do género: "É preciso que alguém sacuda a nuvem aziaga e lhes fale de geometria, bailado e rasgo." Tenho na equipa testemunhas desse "sacrilégio" em voz alta.

O anúncio

O anúncio

Vários jornais europeus estão a recusar a publicação de um anúncio pago pelo governo húngaro exaltando as posições de Viktor Orbán sobre a União Europeia. O Times of Malta é um desses jornais. A direcção editorial do jornal explica a decisão pela recusa em se transformar num instrumento de promoção de um continuado ataque à liberdade de imprensa, lembrando ainda a recente legislação aprovada na Hungria em "flagrante violação dos direitos humanos" tal como são entendidos na União Europeia.

Cai o pano

Cai o pano

Numa página interior do JN, por entre a trama de um alegado golpe para controlar o BCP à custa da Caixa, Berardo pousa para a eternidade diante do pano de cena criado por Marc Chagall para a Flauta Mágica de Mozart. De braços abertos e olhar num ponto indefinido acima dos seus próprios ombros, parece chamar-nos para o Templo da Sabedoria. É uma imagem de um Verão antigo e, se apagássemos o que conhecemos da trama, poderíamos deixar-nos ir com os galos vermelhos voando na noite, os animais tocando instrumentos, as tantas telas de um mundo onírico com os seus violinos, peixes voadores e cenas de circo.

A arrastadeira para os olhos

A arrastadeira para os olhos

A mulher atravessou a esplanada a gemer das cruzes, alcançou a mesa preferida e esparramou-se na cadeira a mastigar as horas. Fez um gesto para a mesa do lado, onde as amigas seguiam o festim de conjecturas em altares de cerveja de norte a sul. Assim se reúne, num ai, em esforço titânico dos grandes generalistas, a conferência nacional da arte divinatória, augúrios e presságios a pedido, repórteres crédulos esticando o fio da euforia, "diga lá por quantos é que ganhamos e quem marca". E malta diz. É a raspadinha do paleio insano para encher as horas. Nunca sai mas a gente diverte-se. A mulher já acomodou as cruzes, espera pelo abatanado da praxe e deixa desmaiar uma frase feita que as amigas já acomodaram: "Ai meu Deus, desvia para canto." Terá ouvido aquilo num relato, daquilo fez um ademane para início de conversa. Quando lhe trouxeram o abatanado já ela tinha explicado às vizinhas de mesa que iria ver o jogo no quarto, numa das três televisões que tem em casa. "Gosto de ver na cama", explicou, descrevendo a arrastadeira para os olhos.

A máscara no cabide

A máscara no cabide

No jornal El Mundo a força simples de uma imagem deste tempo suspenso: uma máscara sanitária pendurada no cabide, peça solitária na correnteza de ganchos vazios. É um cabide de parede, uma placa metálica com ganchos alinhados, não um daqueles cabides de ombros caídos à espera de camisas no escuro tumular dos armários. Assim está a máscara, suspensa pelo atilho, como peça de roupa de uso frequente, soutien da boca por onde o peixe pode morrer, ali está no gancho de parede, espartilho pênsil, respiração repousada.