Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.

Sinais

De gola alta e colarinho branco

Mal o dia clareava, já os clientes madrugadores, cotovelos apoiados no balcão da pastelaria, faziam gala em aprimorar dichotes afogueados sobre o caso das golas. "Então, lá degolaram o padeiro..." disse um tipo sanguíneo com voz de trombone, presumindo que o gracejo o firmava em alcândora respeitável, do mesmo passo que os antecedentes profissionais do adjunto caído em desgraça lhe retirariam qualquer resquício de protecção civil. Da gola alta ao colarinho branco vai um palmo de língua afiada.

O dentro e o fora das palavras

Ando há uns dias a pensar no que poderei dizer ao meu neto Pedro, de 6 anos, se ele retomar comigo um diálogo que manteve recentemente com a mãe. Tendo ele interpelado três ou quatro vezes o primo mais novo usando a palavra "puto" ("ó puto, vem cá ver isto", "ó puto, chuta a bola para este lado", "ó puto isto", "ó puto aquilo"), a mãe observou que, estando para breve a entrada dele na escola, deveria acautelar o uso da expressão, quando estivesse com meninas. Porque, caso contrário, estaria a dizer uma palavra muito feia. Ele fez uma breve pausa e respondeu "Mas, por fora, não parece nada". Ele costuma perguntar, também, como é que uma dada palavra se tornou tão feia.

As perguntas

Uma professora da Póvoa de Lanhoso alertou o Iave para "um erro grave" na pergunta 6.2.1 do exame: "a pergunta não tem resposta". Quer isso dizer que a pergunta conduz a uma resposta que ainda pergunta? Antes fosse isso, pois isso nos conduziria a uma arte da pergunta. Isso nos conduziria a um ponto central da tese de José Tolentino Mendonça, no livro "O pequeno caminho das grandes perguntas": "Há um momento em que percebemos que as perguntas nos deixam mais perto do sentido, da abertura do sentido, do que as respostas".

Duas perguntas

O homem de Roda tem 80 anos, acaba de ficar despojado de tudo o que tinha, o fogo destruiu-lhe um camião, tratores, alfaias, os gestos sugerem que perdeu o sentido dos caminhos, corpo e alma abalroados na estrada de fogo. Fala com o repórter da SIC como se fossem vizinhos ou caminhantes, numa encruzilhada de pesadelo. O repórter regista, com um critério que não dispensa o pudor, os escombros daquela fala humana, tão digna no seu desamparo. A dado momento, como se declinasse um verbo de irremediável desolação, o homem formula uma das duas perguntas que me inquietam desde ontem: "Que hei-de fazer?". Três vezes, a paradoxal pergunta de um homem habitado pela sageza. "Que hei-de fazer?".