Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Sinais

A influenza das influencers

A influenza das influencers

E se, de repente, uma certa marca de toalhetes contra o acne quase desaparecer das prateleiras das farmácias, de tão solicitada, que terá acontecido? O jornal El Pais conta que a recente corrida à Eridosis, nas farmácias espanholas, resultou não da influência da influenza mas da influência das 'Influencers'. O El Pais explica por que é que, neste como noutros casos, a influência das Influenciadoras pode ser mais nociva do que uma epidemia sazonal de gripe. Com a agravante de que não há, neste caso, vacina aplicável.

Espécies em risco

Espécies em risco

Qual a semelhança entre o periquito-cara-suja, o mico-leão-dourado, o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, a jararaca-de-alcatrazes e os jornalistas? São todos espécies ameaçadas. E se é certo que a jararaca, posta em perigo pelos exercícios da Marinha na ilha de Alcatrazes, no litoral paulista, parece ter podido respirar alguma paz quando, por insistência dos ambientalistas, acabaram os tiros de canhão, em 2013; e que o sapinho do Rio Grande do Sul talvez sobreviva depois de ter sido travada a construção de uma central hidroeléctrica, em 2014; e que o mico quase desapareceu com a devastação de certas zonas da Mata Atlântica, mas resiste; e que o periquito endémico do sertão cearense foi desaparecendo com o desmatamento e a caça ilegal e só não foi extinto porque uma instituição ambientalista lançou há quase duas décadas uma operação de emergência; já os jornalistas podem ser considerados criticamente em perigo. Eles são uma das espécies ameaçadas no quadro actual da bolsonarite aguda, confirmado por declarações do Grande Exterminador.

Pão de mula, com lágrimas lá dentro

Pão de mula, com lágrimas lá dentro

O repórter Idálio Revez foi ao Centro de Experimentação Agrária de Tavira e trouxe muito que contar. Devíamos pensar seriamente na espantosa realidade que ele nos desvenda esta manhã em duas páginas do jornal Público. O Centro reúne a maior colecção do país em árvores de fruto. Cerca de mil variedades, sublinha o repórter. Só de alfarrobeiras, mais de 40 espécies. 300 variedades de citrinos. "Um património em risco de desaparecer por falta de pessoal e interesses imobiliários", conta Idálio Revez. Este é o quadro de fundo, a triste realidade de uma instituição científica sob tutela da Direcção Geral de Agricultura do Algarve, possuidora de um importante património genético e ali abandonada à triste sina da morte lenta, reduzida a três funcionários, dois deles em baixa médica. O repórter conversa com o agrónomo João Costa que está de abalada, chegada a idade da reforma. Ele ajudou a criar a maior colecção de fruteiras mediterrânicas - romãzeiras, alfarrobeiras, amendoeiras e figueiras. Agora mostra na palma da mão os frutos que só deveriam chegar no Verão. O crescimento dos frutos secos fora de época é já um sinal inquietante da mudança do clima. Este Verão em Janeiro diz-nos, no ameaçado Centro de Experimentação em Tavira, o Inverno de um sonho. Se a ministra da Agricultura, depois de ler a reportagem de Idálio Revez, se meter no carro oficial para uma visita ao agrónomo de Tavira, recomendo-lhe que encomende para a viagem, num qualquer alfarrabista, um livro de poemas de Leonel Neves, um grande meteorologista algarvio, um dos pioneiros do Serviço Meteorológico Nacional. Leonel Neves correu mundo, fez fados para Amália e deixou uma obra poética importante. Em 1968 publicou na Guimarães Editores um livro intitulado "Natural do Algarve". Esse livro, mais tarde reeditado pela Universidade do Algarve, com prefácio de David Mourão Ferreira, inclui um poema, em louvor da alfarrobeira, que "concebe os frutos, íntima e discreta" e nos dá "pão de mula, com lágrimas lá dentro". Um outro poema desse livro é sobre a semente: "Um dia, o vento trouxe uma semente;/ a terra que no muro dormitava/ lembrou-se que era terra...e, de repente,/ brotou do muro uma figueira brava". Era isso num tempo de estações certas. O Plano Nacional de Leitura incluiu, aliás, um livro de "Historias e Canções em Quatro Estações" com textos de Matilde Rosa Araújo, Ilse Losa, Alexandre Honrado e Leonel Neves. O do poeta algarvio era um conto que contava como era a primavera. Quando o fruto da árvore "íntima e quieta" esperava o Verão para espalhar o seu perfume.