Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Sinais

Chuvas antigas, trovoadas secas

Chuvas antigas, trovoadas secas

Fez ontem cinquenta anos, o céu desabou sobre os Estados de Pernambuco e Alagoas. Na cidade de Caruaru, até os cangaceiros de barro e os caçadores de onça saídos das mãos do já falecido mestre Vitalino estremeceram nas vitrinas. Em Caruaru, tudo é em grande. A feira de Caruaru, cantada por Luis Gonzaga, é uma das maiores do mundo ao ar livre. A beleza do lugar é tamanha. Por alguma razão, Caruaru tem sido considerada "Princesa do Agreste" e capital do forró. Tudo é em grande, também a chuva. Também a seca.

Um repasto frugal

Um repasto frugal

Num dos "25 poemas da triste alegria", Carlos Drummond de Andrade convida um amigo, tomemos que convida o leitor, para a sua casa nova. O poema vai descrevendo as "paredes limpas", a mesa onde escreve e sobre a qual há "um ramo de rosas frescas". Consta que Mário de Andrade fez um reparo mais severo a um dos versos desse poema da fase juvenil do mineiro de Itabira, aquele em que Drummond aponta o banco em que se hão-de sentar, ele e o amigo, ele e o leitor, para um "repasto frugal". Mário de Andrade considerou "horrível" essa expressão paradoxal. Na verdade, o que será um repasto frugal?

A sonda Esperança

A sonda Esperança

Era ainda noite de domingo em Portugal, já manhã de segunda feira no centro espacial Tanegashima no Japão, de onde a sonda Esperança, "Al-Amal" em árabe, foi lançada. A sonda dos Emirados Árabes Unidos ganhou os ventos sem fim, tornando-se deste modo a primeira missão espacial árabe lançada para a órbita de Marte. "Al-Amal" vai permanecer na órbita do planeta vermelho durante um ano marciano, o que corresponde a quase 700 dias do confinamento terrestre. Em breve, outras missões, uma chinesa, outra norte-americana, ganharão a poeira de Marte.

Flecha

Flecha

Este livro pede que o visitemos à sombra do caramanchão ou sob a aragem do alpendre. "Flecha", de Matilde Campilho, é um livro de histórias curtas, espantos, alumbramentos. Algumas destas histórias cabem num verso, outras espreguiçam-se por meia página, umas quantas, poucas, trazem chapéu de aba larga, aquela que conta a história do melhor trapezista do circo voa sobre os homens e os leões para a pirueta final na página seguinte. São histórias que podem pedir um suspiro fundo ou um silêncio iniciático. O olhar, demorando-se na frase, faz-se palavra e flecha. Ambas pertencem ao vento. Apontamentos, instantes que perduram e se organizam como fio de Ariadne de uma deriva mansa pelos dias. Não há aqui uma urgência que não peça flechas lentas. É a urgência da demora.

Não livra ninguém   

Não livra ninguém 

Seu Jair sentiu febre e dores no corpo, foi ao hospital fazer "chapa do pulmão" e regressou ao palácio mantendo distâncias. "Estou evitando", disse ele. Aproximações. A máscara, agora, afivelada. Desta vez, o sanfoneiro não sanfonou e seu Jair não fez a rábula do atleta sacudindo "gripezinha ou resfriadinho". Seu Jair fez o teste da covid 19 porque a febre estava a 38 e achou melhor tirar a prova dos 9. Ou acharam por ele. O que quer que fosse, febre dos fenos, um ácaro desgovernado, o perfume da flor cadáver que um cara de São Paulo trouxe do Oriente, talvez a chapa despistasse, o resultado chega hoje. Haja fé, não vai ser uma gripezinha que o vai derrubar. Seu "instante de febre" não dará um poema que lhe pergunte " e agora?", e daí? Ele dispensa essa pirexia do espírito, não vá algum leviano colocar na vitrola a Ciranda da Bailarina, uma buarquice pior que hipertermia maligna. "Não livra ninguém, / todo o mundo tem remela / quando acorda às seis da matina. / Teve escarlatina / ou tem febre amarela. / Só a bailarina que não tem". Por essas e por outras, manteve seu Jair suspensa a assinatura mais poderosa, encostando à parede um tal Camões.