Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Sinais

Do Jardim dos Amuados aos Banhos Islâmicos de Loulé

Do Jardim dos Amuados aos Banhos Islâmicos de Loulé

Chego a Loulé com o sol a pino, mais de uma hora antes do que fora combinado com o arqueólogo Rui de Almeida, um dos que trabalharam arduamente para que nos fossem revelados os magníficos banhos islâmicos sobre os quais nasceu e feneceu uma casa nobre, a Casa Senhorial dos Barreto, cuja construção mereceu o sim do punho régio de Afonso V. Nem isso evitou que os Barreto se passassem para Espanha, na ressaca da Restauração. São essas contas de outro rosário. Da mais fina pedra faz o tempo ruína, mas nesta hora de espera daria tudo por uma sombra ao abrigo da qual pudesse reflectir sobre o significado de haver por aqui uma rua de Portugal que certamente nos levaria a um país outro, talvez vizinho, como se diz na mais pobre gíria jornalística. Ou, se tal sombra houvera, procuraria onde me sentar e daria algum avanço à leitura das Crónicas de Sebastopol, que Tolstói escreveu entre Dezembro de 1854 e Agosto de 1855, durante o cerco de Sebastopol, em plena guerra da Crimeia, e que acabam de ter edição portuguesa. Mas onde a sombra?

O professor Tournesol em Alcoutim

O professor Tournesol em Alcoutim

Corre sem pescadores e, ao que consta, sem peixe, o Guadiana, à passagem por Alcoutim. Até os veleiros que neste espelho de água fundeavam por meses, às vezes anos, parecem ter zarpado. Há meia dúzia de convivas no Soeiro. É dia de descanso no Beira-Rio. No Contrabandista, não reparei. Desci até perto da água com Fernando Dias, técnico do Património e dirigente da Alcance, a Associação para o Desenvolvimento do Nordeste Algarvio. As notas de Saramago, na passagem por Alcoutim, são o mote para uma conversa breve, enquanto a luz transforma o rio em espelho do branco imaculado das casas de Sanlucar, na outra margem.

A sopa de amanhã

A sopa de amanhã

Por vezes, chego à Courense ainda mais cedo do que o muito cedo a que chego sempre e aproveito a mesa de todos os dias para uma leitura mais cuidada dos jornais ou para um avanço no livro que me ocupe na ocasião. Mas o melhor é a conversa com o senhor Manuel, sobre o que calhe, os dias em que ali podia entrar o Mário Viegas ou Magalhães Mota, o deputado que andava de autocarro e de cachimbo. A galeria de figuras que fizeram a história da Courense é imensa e dela se desprende um halo que é o da celebração do mais íntimo de cada ofício. O senhor Manuel é interrompido pelos telefonemas que o fazem gritar para a cozinha: "duas sopas ao meio dia para a senhora do nono andar, uns chocos e uma sopa para o sr engenheiro por cima da pastelaria." Pedem muitas sopas, os mais velhos. Nunca ouvi o sr Manuel usar a palavra idoso, o senhor Manuel gosta de pessoas, não estabelece cordões sanitários do idadismo, essa doença dos cínicos, uma das doenças dos cínicos que por aí vegetam. Ninguém tem idade a mais, mesmo quando tem muita idade. Idosa é a tia deles.

O ciclista na estrada de Brinches

O ciclista na estrada de Brinches

À entrada de Brinches, vinha um ciclista em sentido contrário. Atacava com determinação o piso plano. Equipado a rigor, capacete, óculos, luvas, manguitos, tudo o que o preceito estabelece, excepto a balaclava, desaconselhada pelos quase 30 graus de temperatura, às 10 da manhã. O atleta solitário pedalava no sentido da EN 260, com determinação. Não se tratava de um passeio entre seara, vinha e olival. Há em Brinches uma rua chamada da Pouca Força, mas o rosto do ciclista revelava uma determinação tranquila que encontrara o seu próprio ritmo, intenso, rápido, de rolador em piso favorável. Ia talvez para Serpa, que para si mesma reclama, nos muros caiados de branco, a condição de Terra Forte. Não me demorei em Brinches, passei os olhos pelo casario, tinha à espera, em Baleizão, a filha de Catarina a quem iria pedir que comentasse palavras antigas de Saramago. Há em Baleizão uma rua do Vinho e uma rua dos Pintores, mas estou ainda de regresso à EN 260 e ali vai ele, de novo, ali vai o ciclista com que me cruzara à entrada de Brinches, agora dobrado sobre o guiador, tentando vencer uma subida nem sequer íngreme. Quando o ultrapasso, reparo que está em esforço, há no seu rosto um esgar com que afronta a adversidade. Penso por momentos que este ciclista, galgando as estradas do Sul, foge de um pelotão invisível, tenta escapar a uma implacável perseguição. Lanço-lhe um olhar cúmplice pelo retrovisor. Quando assisto a provas de ciclismo, torço sempre pelos fugitivos. Não gosto dos pelotões, do calculismo concertado dos pelotões, da máquina trituradora dos pelotões e dos jogos de protecção dos chefes por quem outros batalham contra o vento, preparando passadeiras vermelhas a poucos metros das metas. Gosto dos que sacodem o marasmo do pelotão, dos que provocam o esticão, dos trepadores que montam apenas o próprio selim. E gosto dos fugitivos que adiam, na pedaleira, o destino aziago.

No plaino sem fim

No plaino sem fim

Sento-me na nesga de sombra que a estátua da rainha dona Leonor lança em redor, em pleno largo da Conceição de Beja, com o professor Florival Baiôa Monteiro, historiador de arte, dois livros publicados sobre a arte azulejar desta cidade que fez sua e que lhe deu, há quatro anos, a medalha de mérito artístico e cultural. É um homem magoado com a degradação de importantes edifícios do centro histórico de Beja, sempre ligado a ideias novas como aquela da candidatura do forno da Ti Bia Gadelha a um centro de interpretação do pão. A conversa atravessará o ar quente do sul, como um balão de aventureiros. Porque ali sentados subimos a pulso de palavras ao alto da torre do castelo a que Saramago fez vénia. Falámos das voltas de uma vida que o trouxe de Mértola a Beja e que lhe permitiu calcorrear as antigas estradas romanas neste mapa que percorro com o ar condicionado ligado.