
Venho falar-vos de Gioconda Belli, a escritora nicaraguense exilada em Madrid que, em junho deste ano, venceu o prémio Reina Sofia de Poesia IberoAmericana. Poucos meses antes, o bando de Ortega tinha-lhe retirado a nacionalidade, tal como fez com Sergio Ramirez, o escritor que foi comandante sandinista durante a luta contra a ditadura de Somoza.
A autora da novela "O País das Mulheres", sua obra central que ficciona a chegada ao poder de um igualmente fictício partido da Esquerda Erótica, também lutou contra Somoza e travou essa luta sob a bandeira sandinista, em missões clandestinas que a trouxeram à Europa e a fizeram viajar pela América Latina. A ditadura de Somoza fê-la conhecer o exílio no México, a de Ortega obrigou-a a procurar em Madrid um lugar respirável.
TSF\audio\2023\09\noticias\13\13_setembro_2023_os_sinais_a_casa_confiscada
Gioconda Belli ergueu entretanto uma obra que almejou o infinito na palma da mão. As suas novelas e os seus livros de poemas permitiram-lhe conquistar, ao longo dos anos, prémios tão importantes como o da Casa das Américas que também distingiu Ernesto Cardenal, outro antigo sandinista perseguido pelo actual ditador Daniel Ortega.
Num poema de há dois anos, intitulado Despatriada, Gioconda Belli mostra-nos os seus dias num país que guarda debaixo da pele: "Não tenho onde viver", escreve ela. Traduzo livremente: "Escolhi as palavras./ Deixei para trás os meus livros,/ a minha casa./ O jardim, os seus colibris./ As enormes palmeiras/ a que chamavamos Bismarck/ pelo seu aspecto imponente./ Não tenho onde viver/ Escolhi as palavras", Nesse poema, Gioconda Belli recorda os móveis brancos da casa, o terraço, "o lago, com a sua pele fosforescente". O poema evoca a casa onde ficaram os cães Macondo e Caramelo, a cama com o mosquiteiro, a roupa deixada no roupeiro. Os seus sapatos, as suas paisagens do dia e da noite. O poema fala do que ficou na casa, quando ela partiu com as suas palavras pela rua. São as palavras que ela escolheu. As palavras que ela abraça. "Sou livre/ embora não tenha nada".
Fui procurar este poema porque uma notícia das últimas horas conta que a ditadura de Ortega acaba de confiscar a casa de Gioconda Belli. Ela disse aos jornalistas: "Perdi muitas coisas, mas não me farão perder a dignidade". E previu para Ortega "o terrível, mas merecido, fim que sofrem os tiranos". Confiscaram-lhe a casa. Mas ela continua a ser, se posso citar o título de um dos seus livros, " a mulher habitada".