
O grande poeta leonês Antonio Gamoneda, prémio Cervantes em 2006, acaba de editar o segundo volume das memórias, dedicado à pobreza.
Ele combateu o franquismo na clandestinidade, teve poemas cortados pela Censura e conheceu a pobreza, apesar de uma vaga ascendência aristocrática. Entrevistado há uns anos por Luís Miguel Queirós, no Público, Gamoneda falou da sociedade consumista e da regressão das conquistas sociais na Europa, partindo da tese de Eduardo Lourenço de que "as velhas ideologias são hoje inúteis". Ele está de acordo com o ensaísta português mas diz acreditar que há uma revolução pendente:
"Assistimos a uma perversa operação mundial, que consiste em embaratecer o preço do trabalho, porque o capitalismo precisa de o fazer para se aguentar. Creio, pois, que poderá haver uma revolução, mas não necessariamente semelhante às revoluções clássicas que acompanhavam as ideologias. Uma coisa é clara: há que destruir o consumismo. E para isso é preciso dar uma nova dimensão àquilo a que chamo a cultura da pobreza."
Quando fala em cultura da pobreza, o poeta desafia-nos a encontrar na pobreza ensinamentos, não a perpetuar a injustiça e a violência que ela supõe.
Há dias, um repórter do jornal El Pais visitou Gamoneda na sua casa de Leon, junto à qual o poeta plantou um castanheiro da Índia. O repórter conta que, aos 88 anos, o poeta fuma tabaco de enrolar. Tem várias embalagens sobre a mesa mas afasta o cinzeiro para as fotos da reportagem, com o argumento de que seria "pouco cívico" deixar que ficassem à vista de todos. Falam da pobreza, pois é esse o tema do livro que acaba de chegar às livrarias de Espanha. À pergunta sobre se existe a cultura da pobreza de que tanto fala, Gamoneda responde afirmativamente. "Ela não é invisível, mas está invisibilizada. Não é o mesmo conhecê-la objectivamente, como um sociólogo ou um antropólogo, ou vivê-la por dentro.". Outra ideia de Gamoneda: "O consumismo gera um bem estar falsificado e anestesia a consciência". Outra ideia, ainda: "Os pobres reconhecem de onde vem o que os oprime, sabem de marxismo sem necessidade de lerem um só livro. Entendem melhor do que ninguém conceitos como o de valor ou de salário". "Todo o faminto", remata o grande poeta leonês, "é um micro-economista".
Quantas vezes terão os desenhadores das políticas económicas colhido do sentido de frugalidade e de justiça dos famintos os ensinamentos que não escapam ao olhar do poeta?
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