
Há pouco mais de um ano, o grande cantor e compositor nicaraguense Carlos Mejía Godoy foi obrigado a procurar o exílio na Costa Rica por sentir que, no seu país, tinha a vida em perigo. Ele tinha conhecido o exílio em Espanha, 40 anos antes, durante a ditadura de Somoza. Aos 75 anos, no seu segundo exílio, escreveu uma carta ao novo ditador, o antigo sandinista Daniel Ortega, intimando-o a parar com a barbárie. "Daniel, tenho uma má notícia para lhe dar", escreveu aquele que tinha criado com Ernesto Cardenal, a "Misa Campesina": "Nunca me aposentarei, porque os pássaros não se aposentam." Godoy mantém vivo o seu mítico "Canto dos Pássaros" tal como continuar a fazer ecoar os gritos das mulheres de Cua, Maria Venância, de 90 anos, quase cadáver enfrentando os guardas, perguntando pelos rapazes desaparecidos nas montanhas. Ou Armanda Aguillar, ou Ângela Garcia, aquelas de quem Cardenal cantou os gritos, como de parto, "gemidos da pátria como de parto", nesse tempo em que "as patrulhas entravam e saíam com presos./ A Esteban, o montaram num helicóptero e pouco depois regressaram sem ele./ A Juan Hernandez, o levou a patrulha na noite e não regressou." Outra noite levaram Saturnino e os de Cua não o voltaram a ver.
Agora Godoy fala do padre poeta com quem fez a Misa Campesina, a missa popular que a Igreja abafou na genuflexão de décadas perante ditadores. O padre poeta que organizou a comunidade de pescadores em Solentiname e a quem o compositor acaba de chamar "piloto da nave que é a dignidade de um país que continua a sofrer e a lutar". Este país chama-se Nicarágua e continua a ser reprimido, agora por um ditador saído da degeneração de uma luta vitoriosa contra outra ditadura. "Na Nicarágua, estamos em ditadura", tinha dito o padre poeta que esculpia pássaros sob o peso de um longo silêncio só quebrado pelo Papa Francisco. Cardenal fora proibido de exercer o sacerdócio por João Paulo II. Todos nos lembramos daquele dia, em pleno aeroporto de Manágua: o padre poeta que esculpia pássaros quis beijar a mão que o Papa retirou, num gesto agreste. O olhar de Cardenal tecia ainda o Cântico Cósmico: "Somos poeira de estrelas."
E afinal teria o poeta razão bastante para recitar nesse dia, diante de uma arrogância vaticana, os versos de Ruben Darío que tanto amara e tanto estudara e tanto lera, lá no Grande Lago da Nicarágua, junto aos pescadores que o estimavam: "Peregrino que vais buscando em vão/Um caminho melhor que teu caminho,/Como queres que te dê a mão,/Se meu estigma é teu estigma, peregrino?/Não chegarás jamais a teu destino"
TSF\audio\2020\03\noticias\03\03_marco_2020_sinais_o_escultor_de_passaros