
Ao apresentar ontem um roteiro de geocaching em Ponta Delgada, o autarca José Manuel Bolieiro explicou que esta é uma peça importante da estratégia de afirmação do seu município como destino turístico.
Nada a opor: o geocaching é uma ferramenta de descoberta e de fruição que, neste caso, permitirá, como se pretende, um novo tipo de ligação à natureza. Por alguma razão seis milhões de pessoas em todo o mundo se entregam a tal actividade desportiva, com forte componente de lazer. Colocar a Rocha da Relva ou a Lagoa do Canário no roteiro de quantos procuram, através do GPS, caixas escondidas em lugares de interesse paisagístico ou patrimonial é algo que merece aplauso. Deveria, entretanto, o presidente da câmara de Ponta Delgada, esclarecer o que pretendeu significar com o anunciado combate ao que designou como "contemplação ignorante". Que tipo de ignorância associa o autarca à contemplação?
Tomemos "um renque de árvores lá longe, lá para a encosta". Se eu pousar no renque de árvores um olhar absorto, desligado do que possa bulir em redor, será esse gesto contemplativo, em si mesmo, ignorante?
Escolho deliberadamente um verso do Caeiro que ergueu à copa mais alta uma poética da contemplação. Pergunta o Caeiro, no verso seguinte: "Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas."
Dispensemos, José Manuel Bolieiro, por instantes, o GPS. As caixas escondidas não serão cobertas pelo musgo, se ficarmos, um pouco mais, em contemplação, escutando o Caeiro: "Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta./Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas./Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes./Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,/Que traçam linhas de cousa a cousa,/Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,/E desenham paralelos de latitude e longitude/Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso! "
E que tal procuramos búzios acendendo, diante do olhar contemplativo, os versos de Emanuel Félix, que tantas horas deve ter ficado sentindo o perfume da faia da terra e olhando o mar no farol da Serreta.
"Deixados pelos Deuses sobre a areia/Os búzios são cofres com pedaços da noite/Pequenos transístores para as notícias do mar/
Encontrados pelas crianças na praia./Os búzios são caixas de música/São os ouvidos petrificados dos peixes/ E um búzio separa/
as crianças dos Deuses".
Ao falar em "contemplação ignorante", Bolieiro afasta-me das suas caixas escondidas. Incita-me a responder que elas não me revelam o que é um renque de árvores nem me oferecem a música dos búzios.
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