
Ao 12.º dia de greve da indústria automóvel nos Estados Unidos, um homem antigo, vestindo um blusão azul, um boné cobrindo a cabeça, aproximou-se do piquete de greve, pegou num megafone e dirigiu-se aos operários em luta. E disse-lhes o homem, sem cair na armadilha da fala oca e redonda que contamina, tantas vezes, o palavreado institucional, que eles merecem o aumento salarial reclamado, por muitas razões, ali mesmo enumeradas. Uma dessas razões, disse o homem de cabelos brancos cobertos por um boné: os grevistas que ele vinha apoiar "salvaram a indústria automóvel em 2008". E mais disse aquele homem cujas palavras traduziam uma serenidade firme, que quem construiu o país foi a classe média, não Wall Street. O homem que assim falou não é um sindicalista zangado, no aceso da luta. Todos vimos as imagens: o homem do megafone era Joe Biden, o presidente dos Estados Unidos, um político que nem sequer penteia o cabelo branco à esquerda.
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Esta imagem forte do primeiro presidente dos Estados Unidos capaz de juntar a sua voz a um piquete de greve trouxe-me de volta a mensagem, amável, sentida, que recebi no telemóvel, no dia em que a TSF fez greve. Vinha assinada por um antigo ministro e actual deputado, genuinamente solidário com a nossa luta. Respondi agradecendo mas sublinhando que nos fazia falta uma palavra do seu partido e que essa palavra, ainda por dizer, nos fazia falta em voz alta. Há coisas que só podem ser ditas de megafone ligado.
Nos tempos que correm, faz ainda mais sentido um certo grito revoltado de Nanni Moretti, dirigido ao ambíguo D'Alema.
É, por isso, saudavelmente surpreendente que Biden tenha pegado no megafone. E tenha dito o que era necessário e justo.