
No átrio do hospital, aguardo um amigo doente. É incessante o formigueiro deste rossio de ar condicionado, sinais sonoros incisivos sublinham a roda das senhas no grande painel electrónico. Há quem permaneça alheado do fluxo contínuo, há quem mergulhe, absorto, nos abismos de um ecrã. Há quem pareça dormitar, como se tivesse desistido de qualquer ênfase futura, de um suplemento de ânimo.
Espalhados pela sala, bancos almofadados, muito confortáveis. Cada banco pode acolher, folgadamente, três pessoas. Escolho um deles, vazio, sento-me numa das pontas, tiro do saco o livro que me ocupa por estes dias, o mais recente de Enrique Vila-Matas de que folhearei em voz alta, em breve, uma ou outra passagem.
O ar condicionado da sala de espera faz esquecer o sufoco do dia lá fora.
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Um homem antigo aproxima-se e senta-se, com a lentidão que é sinal de muito padecimento. Senta-se no rebordo do banco, apoiado nas palmas das mãos. Ocorre-me que não queira incomodar, que não queira invadir espaço. Levo as mãos aos ombros do homem, insinuando que se aconchegue um pouco mais. "Sente-se bem", digo-lhe, cuidando que se acomode. Ele presume que o estou inquirindo, que trato de saber como se sente, não como se senta. E responde: "Não sinto, não." Devolve-me um sorriso triste, puxa duns papéis: "O senhor até se vai rir". Mostra-me o longo rol de medicamentos , uns trinta que tem de tomar por dia. E as novas marcações de consultas, exames agendados. Tem 90 anos, "o coração num fanico". Só lhe resta um pulmão.
Aí vem um lamento: "Tenho medo de desgraçar a minha mulher. Sabe... eu preciso de desabafar e ela não tem paciência".
Os tantos cuidados do cuidador que tem pouco tempo para se sentar, muito para sentir. "Mas o que é sentir?", perguntava o Pessoa, ensaiando a resposta: "Sentir é criar (...) pensar é errar".
Já lá vai o cuidador com as suas tantas dores, chamam pela sua senha.
Já lá vai, com o seu rol de desabafos, que remédio.
E eu fico sentado, sem grande coisa para acrescentar. Sem o que pensar, neste desconforto bem acomodado, vendo o homem que se afasta. Que pensamentos se apossam de mim, vendo-o afastar-se, nesses breves segundos antes de regressar à leitura? Que dizia o outro? "Ter opiniões é não sentir. Todas as nossas opiniões são dos outros. (...) O que se sente não se pode comunicar.