
Esta manhã tenho pensado muito num verso de Paulo Leminski: "Haja hoje para tanto ontem".
Por vezes, hoje precisa de peito para merecer ontem, para estar à altura de ontem. Não se trata de ontem embalar um hoje de peito feito, basta que hoje guarde no peito o "pássaro azul" de ontem.
De ontem para hoje procurei um poema que Carlos Drummond de Andrade incluiu no livro "A Rosa do Povo". Chama-se "Ontem". Tomo a liberdade de o trazer aqui. Aqui está.
TSF\audio\2023\09\noticias\21\21_setembro_2023_sinais_tanto_ontem
"Até hoje perplexo/ante o que murchou/ e não eram pétalas./ De como este banco/não reteve forma,/ cor ou lembrança./ Nem esta árvore/ balança o galho/ que balançava./ Tudo foi breve/ e definitivo./ Eis está gravado,/ não no ar, em mim,/que por minha vez,/ escrevo, dissipo".
Haja hoje para tanto ontem.
Estaremos à altura de ontem, hoje? Haja hoje. Ou talvez devamos soltar o agá, como se libertássemos o pássaro azul do peito. Façamos com que o haja aja.
Aja. Hoje