
Os arrabaldes ganharam uma nova centralidade.
Já não se nos revelam como a Drummond, no "Sentimento do Mundo", sempre que o poeta se aventurava de rosto encostado à janela do comboio, "vendo o subúrbio passar". O subúrbio está em todo o lado, faz unhas de gel todo o santo dia em velhas avenidas novas. Nos pequenos centros comerciais dos subúrbios mais de metade das lojas acolhem os auto-designados barber shop, as arranjadoras de unhas de mãos e de pés operam pacientemente com seus alicates, suas limas, seus espanadores. Há lojas de massagens, perfumarias. Aceita-se ouro por uva mijona. O padrão alastra, nivelado por baixo.
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O preço da habitação aumenta no subúrbio, as esplanadas enchem-se de cavalheiros de óculos escuros fazendo soar, em altos decibéis, os seus telemóveis. Automóveis de grande cilindrada passam numa lentidão de passerelle, conduzidos por chavalos de boné com a pala para trás, debitando danos auditivos aos resignados pedestres. Nos seus tiques de mobilidade, a praça central e o fim da rua mais esconsa mimetizam-se.
Todos caminham de igual modo tricotando ecrãs com os polegares.
É desse rumor que me escapo por vezes para pequenas nesgas de verde, quase jardins, um ou outro banco à sombra de árvore, miúdos correndo lá ao fundo junto ao café onde mulheres alquebradas desbaratam a triste reforma em raspadinhas.
Assim estava, há dias, quando, do nada surge um velho que eu já observara no café. O homem atravessa o pequeno parque de uma das mais densas malhas urbanas da área metropolitana provocando, ao passar, o alvoroço do bando de miúdos junto ao escorrega. O que motiva aquela excitação? Uma cabrinha branca que o segue, como um cachorro. Não vai presa por corda, não é necessária voz de comando para que a cabrinha siga o homem.
Assim atravessam o parque, assim passam para o lado de lá da rua. Uma breve pausa na passadeira. "Vamos" diz o homem, batendo na perna. E a cabrinha segue-o como um cão pisteiro, mantendo a distância.
Por momentos, acompanho, extasiado, a passagem do homem e da cabra, presumo rumores perdidos de uma ruralidade ao virar da esquina. Mas é apenas um homem passeando com a sua cabrinha na malha urbana tão cheia de ruídos, tão tomada pelo padrão mimético dos que caminham tricotando ecrãs com os polegares.