A neta de Martim voltou à roda dos expostos para resgatá-lo

O Arquivo Histórico da SCML tem a maior coleção de sinais e contra sinais do mundo. Os elementos encontrados junto das crianças deixadas na roda dos expostos eram uma esperança de que as mães ou os pais contavam regressar um dia para recuperá-los.

Elizabete Marteleira folheia um grande livro no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que contém registos de crianças entregues na roda dos expostos em Lisboa. Procura um menino de nome Martim, o avô de olhos azuis e cabelo ruivo que não chegou a conhecer.

"Quando a Santa Casa fez a exposição sobre os sinais dos meninos da roda na Igreja de São Roque eu vim ver a exposição e despertou-me a atenção." Foi a partir daí que começou a visitar o arquivo na esperança de encontrar mais detalhes sobre a origem do avô materno.

A família não tinha muita informação, mas uma certidão de óbito ajudou a revelar mais pistas sobre Martim. "Na certidão de óbito tem a data de nascimento que diz exatamente que foi exposto, filho de pais incógnitos. Por aí começamos a investigar com a ajuda destas senhoras que estão aqui, iam-me trazendo livros para folhear um a um."

Elizabete Marteleira passou muitos dias na sala de leitura do Arquivo Histórico da SCML. "Em cada página há um nome, depois tem vários averbamentos. Muitos faleceram, de facto. Apareceram muitos, outros falecidos. Quase nenhum voltava aos pais que os deixaram. Até que apareceu um Martim."

Havia dúvidas se este Martim seria o tal ruivo de olhos azuis que cresceu em Pregança do Mar, concelho da Lourinhã. "Com a indicação do nome, a Santa Casa tem aqui os nomes das amas a quem eles foram entregues. Com o ficheiro das amas, apareceu uma Rosa de Pregança do Mar, que recebeu um Martim."

Elizabete foi à aldeia e recebeu a confirmação que "vieram de imediato buscá-lo de burro, foi para Pregança do Mar e ficou com aquela família até aos 10, 11 anos".

As amas dos expostos

As amas externas foram fundamentais para garantir uma vida aos meninos da roda, apesar de muitos não terem sobrevivido. A mortalidade infantil era elevada e, no caso das crianças entregues à Misericórdia, ainda mais.

Francisco d'Orey Manoel, diretor do Arquivo Histórico da SCML, explica que "como entravam muitas crianças por ano, nós tínhamos que recorrer a amas do exterior, não chegavam as amas de Lisboa. Iam até Santarém, Torres. Todo o norte de Lisboa recebia muitas crianças. Mas no transporte daqui para lá, sem os antibióticos, sem as fraldas, sem os cuidados de transporte, era muito frequente as crianças morrerem".

Para as amas, receber uma criança exposta era também uma forma de sustenho, já que a Santa Casa pagava para que a criança fosse cuidada até pelo menos aos sete anos.

"Muitas vezes olhamos com os olhos atuais e achamos que era uma vergonha entregar uma criança na roda. Pelo menos até meados do século XVIII era perfeitamente normal, porque esta era a resposta encontrada pela sociedade para dar apoio a quem mais necessitava. A roda era para apoiar as famílias pobres. As amas eram pessoas pobres, por isso, tudo isto aqui não é um romance de grande abundância", conta Francisco d'Orey Manoel.

Os sinais da roda

As rodas surgiram em Portugal por volta de 1498, ano da fundação da SCML. Eram construídas em forma de portas giratórias, embutidas nas paredes, de maneira que "não se visse para dentro e a ama rodeira não conseguisse ver quem estava cá fora".

A roda dos expostos era utilizada para deixar recém-nascidos, que ficavam ao cuidado da instituição. Quem colocava a criança na roda deixava, muitas vezes, um sinal que a identificava, caso um dia alguém a pudesse resgatar. "Os sinais eram, no fundo, documentos que os pais deixavam junto da criança para a identificar mas também para a proteger porque muitos sinais diziam: nasceu no dia tantos tal às tantas horas, vai ser entregue na roda dos expostos, peço que a tratem bem, não vá para fora de Lisboa porque brevemente irei buscar."

Por vezes, esses bilhetes eram acompanhados também de outros elementos como bocados de tecidos, medalhas, amuletos, um bocado de trança de cabelo da mãe, cartas de jogo, imagens de santos.

O arquivo histórico da Santa Casa tem a maior coleção de sinais e contra sinais do mundo. São 87 mil peças que carregam um significado especial.

"Quando se deixa uma trança de cabelo da mãe, que por acaso até tem lá piolhos - que na altura era perfeitamente normal, os ovinhos dos piolhos veem-se lá e quando foi restaurado deixamos lá - tudo isso são elementos que marcam e que, olhando com os olhos de maior minúcia, temos outras leituras do que olhar para um documento", explica o diretor do Arquivo Histórico.

Francisco d'Orey Manoel explica que é preciso ver além e perceber que o espólio tem muitas interpretações. "Essa documentação fervilha, tem fogo e emociona até mesmo quem não tem um antepassado exposto, quanto mais quando, na sala de leitura, vem um familiar e descobre um avô, um bisavô, um trisavô e vê, não só os registos, mas a emoção que as pessoas têm quando existe sinal, por vezes um sinal muitos simples".

A coleção mais consultada

Os sinais dos expostos é a documentação mais consultada do Arquivo Histórico da SCML. Pela sala de leitura passam muitas pessoas à procura de respostas sobre antepassados, mas também investigadores.

Orlando Carvalho tem dedicado os últimos anos a investigar a vida do Padre Carlos dos Santos, que foi pároco em São Domingos de Benfica. "Foi um grande amigo meu e da minha família, aliás como era da maior parte dos paroquianos. Ele faleceu em 1997 e, pouco tempo depois, comecei a recolher elementos para escrever sobre a sua vida e os seus ensinamentos."

A investigação sobre o pároco de São Domingos de Benfica levou Orlando Carvalho até ao Arquivo Histórico. A mãe do Padre Carlos dos Santos, Palmyra dos Santos, foi colocada na roda com um mês de idade. "Ela nasce no fim de 1893. Ao fim de um mês já está entregue nos expostos. Há uma carta em que a mãe a pede a mercê de receberem a filha porque não tem maneira de a sustentar. Ela tem pai. Não sei se os pais são casados, mas tem pai. Ela é aceite. É entregue a uma ama em Alcobaça e depois em Lisboa e vai andando por vários sítios."

A partir de 1870, a entrega de crianças na roda deixa de ser anónima e, por isso, foi mais fácil para Orlando Carvalho saber mais sobre a história de Palmyra dos Santos. "Sabemos que a mãe, conforme vem registado, é preta. Que o pai [de Palmyra] a abandonou e ela ficou sem meios para criar a filha."

Sete crianças por dia

Além do abandono por razões financeiras, Francisco d'Orey Manoel conta que com a as invasões francesas e chegada das ideias liberais, a mentalidade em Portugal começa a alterar-se. "Nós deixamos o absolutismo e passamos a ter um regime totalmente diferente. Isso também traz uma maior liberdade da sociedade e o número de expostos vai aumentando. E aí tem também a ver com algumas relações fora do casamento e, por isso, o número também aumentou."

Em meados do século XIX, a Misericórdia recebia cerca de 2500 crianças anualmente. "Isto corresponde a sete crianças por dia. Calculem o que é receber sete crianças ontem e hoje têm mais sete e amanhã vão ter mais sete. O que é toda a organização que é preciso ter para depois as colocar em Santarém, em Óbidos, em Leiria."

A SCML fez um grande investimento para preservar o trabalho minucioso da Misericórdia no registo e acompanhamentos das crianças. São cerca de 4,5 km de prateleiras, preparadas para resistir a qualquer intempérie. "O Arquivo Histórico é o local mais seguro de toda a Santa Casa", revela d'Orey Manoel, que carrega um apito na fita de identificação que leva ao pescoço. O apito serve como medida de segurança no caso de um sismo ou incêndio. O diretor do arquivo conta que a instituição tem "um trauma coletivo" do terramoto de 1755, altura em que a Misericórdia ficou totalmente destruída, perdendo grande parte do espólio histórico.

O Arquivo Histórico conserva apenas documentos de meados do século XVIII, organizando e conservando o acervo documental da instituição e da sua biblioteca histórica. "Queremos que o estudo sobre esta documentação seja cada vez mais profundo e que haja até um intercâmbio com outros arquivos, para que esta documentação tenha um cuidado especial porque, muitas vezes, as pessoas deitaram fora esses elementos."

A documentação sobre os meninos da roda foi resistindo ao longo dos tempos, acabando por chegar às mãos de quem procura antepassados. "Fiquei um pouco emocionada quando estas senhoras me deram o sinalinho que trazia, com uma fita de seda agarrada". A fita, cor de tijolo com barras pretas, acaba por trazer mais perguntas do que respostas mas, para Elizabete Marteleira, foi importante conhecer mais sobre o passado do avô. "É um sentido de pertença, de saber qual é a origem."

Martim José Rodrigues recebeu o nome da família que o recebeu em Pregança do Mar. Elizabete conseguiu perceber que, por volta dos 18 anos, o avô foi trabalhar para casa de uma família rural abastada. Casou-se com a filha do patrão, entretanto falecido, acabando por herdar propriedades e terras. Morreu aos 56 anos, deixando sete filhos.

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