Casa sustentável: nunca dormi num quarto tão silencioso, é como se as paredes fossem cobertores

Lloyd Alter é um arquiteto canadiano que escreve e ensina design sustentável. Veio a Portugal para a 6ª Conferência Passivhaus e dormiu na primeira casa Passiv usada para Turismo no nosso país.

Paredes que são como cobertores, uma variação de temperatura mínima e um silêncio absoluto. Lloyd Alter, que é o editor do site TreeHugger , um dos mais respeitados no mundo sobre sustentabilidade, e que colabora com o Guardian, garante que teve a melhor noite da vida a dormir na Cestaria , a casa PassivHaus na Costa Nova, que foi a primeira a ser usada para fins turísticos em Portugal.

Foi a primeira vez que o canadiano, arquiteto, escritor, professor adjunto de Design Sustentável na Ryerson University School of Interior Design dormiu numa casa projetada com este conceito, que assenta basicamente na eficiência energética, no conforto e na qualidade do ar dentro de uma casa. Alter foi um dos convidados da Associação Passivhaus Portugal que esta quarta e quinta-feira realizou a 6ª Conferência sobre o conceito Passivhaus, em Aveiro. Existem neste momento cinco casas certificadas como sendo Passivhaus em Portugal, mas a Associação adianta que há mais de 50 projetos a serem avaliados atualmente.

Lloyd Alter, que tem dedicado muitos carateres ao tema, acredita que estes edifícios são muito importantes na batalha que o mundo tem de travar contra ele próprio: combater o desperdício e otimizar o consumo, de tudo.

TSF: Defende que as pessoas estão a gastar tudo em demasia neste momento, espaço, comida, energia... Porquê?

Lloyd Alter: "O nosso maior problema neste momento é a pegada de carbono no planeta. O quer que consumas, até o produto mais "verde", tem uma pegada na sua produção, o que é chamado de energia incorporada, (numa tradução livre). Fundamentalmente, se dissermos que vamos ter algo mais eficiente muda um pouco, mas o que realmente temos de fazer é descobrir o que é suficiente, o que é que realmente necessitamos e não usarmos nada mais do que isso, basicamente usar menos em vez de mais eficiente é uma forma melhor de reduzir a nossa pegada mais rapidamente e lidar com a quantidade de pessoas que há no planeta."

TSF: Estamos dentro da primeira Passivhaus usada para Turismo em Portugal, qual é a diferença que uma casa assim pode fazer?

Lloyd Alter: "Quando o Passivhaus começou, na Alemanha, e até antes disso no Canadá, era realmente pensado para climas frios e a função primordial era poupar energia no aquecimento. O que aconteceu foi que perceberam que, como efeito colateral disso, as casas são extremamente confortáveis, que as paredes são como que cobertores que nos mantêm quentes no interior. Numa casa antiga, quando as paredes estão frias nós sentimos frio também, o calor é arrastado para fora do corpo para paredes e janelas frios. Portanto, o que acontece é que o edifício Passivhaus é extremamente confortável e isso acontece igualmente um clima mais quente, consegue-se o mesmo benefício. A outra grande vantagem é o silêncio. Eu dormi na casa Cesteira e é o quarto mais silencioso onde eu dormi em toda a minha vida, foi a primeira vez que dormi numa Passivhaus e foi incrível. As janelas são duplas ou triplas, as paredes são muito grossas e a casa é muito bem selada, isolada, não há fugas de ar. Tudo isso que leva a que a casa seja energeticamente eficiente na verdade faz com que seja a casa mais confortável que podes construir."

TSF: E conseguimos gastar menos, menos energia, dinheiro... É efetivamente uma boa opção para gastarmos menos tudo, como falávamos no início?

Lloyd Alter: "Absolutamente. Muita gente pensa: eu posso construir uma casa normal e serei "verde", ecológico, se colocar painéis solares no teto para gerar eletricidade. Mas esses painéis exigem manutenção, ir à rede, e andar para trás e para a frente dentro da rede, e a tua casa não vai ser necessariamente confortável por causa deles. Portanto, a Passivhaus é, na minha opinião, a melhor maneira de reduzir a energia que é gasta, a pegada de carbono e conseguires um benefício muito interessante de conforto, qualidade do ar e uma atmosfera mais saudável."

TSF: Em Portugal é uma realidade ainda relativamente desconhecida do público. Será um problema de comunicação? Será mais do que isso?

Lloyd Alter: "A Passivhaus começou, basicamente, com engenheiros, que se preocupavam muito com números, era algo muito técnico. Atraiu um grupo de arquitetos que também gostava de números, data, mais do que gostavam de design. Assim, nem sempre eram edifícios bonitos, porque a principal preocupação eram os números, a folha de cálculo, os dados. À medida que o conceito se foi implementando e tornou mais popular o design também tem melhorado, devido a pessoas que se preocupam com as duas vertentes, os números e o design. Por aquilo que tenho percebido, o conceito Passivhaus não é apelativo para a grande maioria da população, alguém que não diz: ah, eu tenho mesmo de ter uma casa que não gaste mais de 10 quilowatts por metro quadrado por ano..."

Quem é que quer saber disso?! A mensagem deveria ser, para tornar isto mais atrativo para as pessoas é mostrar-lhes que o resultado desse exercício é que ganhas uma casa que é muito confortável, aconchegante, que uma qualidade do ar fantástica, e que é muito silenciosa no interior. Temos de nos concentrar na ligação emocional que se estabelece com a casa em vez do lado técnico de quantos wats por metro quadrado."

TSF: Essa não é uma mensagem fácil de passar, certo?

Lloyd Alter: "É muito difícil. E tem sido um pouco a minha paixão, quase missão: ei, isto não é apenas sobre dados, é sobre design, sobre conforto e resiliência, a capacidade para, quando a eletricidade cai, numa tempestade, por exemplo, numa casa com janelas normais, num prédio, em Nova Iorque, podes ter uma temperatura de 30 graus, por causa do sol a entrar pela janela, e no inverno chega aos zero graus, numa Passivhaus, por causa do isolamento, e porque está projetada com tanto cuidado para não aquecer ou arrefecer demasiado, as pessoas podem continuar confortáveis. Eu ouvi falar num caso no Maine, por causa de uma tempestade a eletricidade caiu durante uma semana e a temperatura dentro de uma Passivhaus nunca desceu mais do que um ou dois graus...

Basicamente estás a construir uma garrafa térmica, que é quase como que uma arca, quando as coisas correm muito mal tu tens todo este isolamento à tua volta."

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