Montijo

Clima: Base Aérea do Montijo é vulnerável à subida do nível médio do mar

Estudo identificou zonas de maior risco em Portugal à previsível subida do nível médio do mar. Conheça o que aproxima o Montijo das ilhas barreira no Algarve. Base Aérea é extremamente vulnerável.

"A dúvida já não é se vai acontecer, mas quando e a que velocidade". A frase é de Carlos Antunes, especialista em engenharia geoespacial (antiga engenharia geográfica) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e coordenador de um trabalho que cruzou imagens de satélite, cartografia e as previsões dos cientistas (mínimas, médias e máximas) da subida do nível médio do mar, que no último século já avançou 22 centímetros, numa tendência que é certo que vai acelerar com as alterações climáticas, o aquecimento do mundo e o degelo na Antártida e no Ártico.

Os últimos anos e mesmo semanas têm sido, aliás, ricos em notícias de climatologistas (por exemplo da ONU) que concluem que o mundo nunca esteve tão quente e os pólos nunca tiveram tão pouco gelo.

O sério receio da subida do nível do mar, já antigo, levou mesmo uma diretiva europeia de 2007 a obrigar os países a fazerem um levantamento das zonas mais vulneráveis, sendo esse trabalho que tem sido feito por Carlos Antunes, Cristina Catita, Carolina Rocha e Mariana Costa da Faculdade de Ciências.

Os primeiros resultados mostram as zonas mais vulneráveis, não apenas devido a serem baixas mas também pelo que aí está construído.

Em Aveiro, 35,8% da área do distrito é extremamente vulnerável à subida do nível do mar até 2100, sobretudo na Gafanha da Nazaré, Murtosa e Albergaria-a-Velha. Seguem-se o distrito de Lisboa (22,1%), maioritariamente Vila Franca de Xira, mas também a Costa da Caparica e várias áreas do Estuário do Tejo, bem como o distrito de Santarém (19,6%).

Os resultados do trabalho destes especialistas da Faculdade de Ciências já os levou a serem contratados pela Câmara de Lisboa para fazerem um levantamento mais próximo dos efeitos da subida do mar para a cidade.

Carlos Antunes explica que por estes dias uma das principais dúvidas de quem estuda o clima é saber se já passámos o ponto, previsto na teoria, em que os pólos começaram a derreter de forma mais rápida. Há vários sinais que sim, como o nível mínimo de gelo no mundo registado em 2016 e 2017, mas só dentro de alguns anos teremos a certeza.

Os cenários de subida do nível médio do mar são diversos, mas a hipótese média, comum em muitas análises, aponta para uma subida de um metro até 2100, o que, parecendo pouco, pode ter sérias consequências.

Cristina Catita explica que o mais provável é que áreas muito importantes para o turismo ou mesmo outros setores da economia fiquem em algumas alturas do ano debaixo de água. As ilhas barreira da Ria Formosa arriscam-se mesmo a desaparecer, com consequências, também, para as cidades e vilas do outro lado da ria, numa preocupação comum à Ria de Aveiro.

O caso do Montijo

Apesar de não ser uma das situações mais preocupantes no mapa de Portugal, os investigadores da Faculdade de Ciências encontraram uma parte da Base Aérea do Montijo, que não toca nas pistas, extremamente vulnerável à subida do mar e que corresponde aos edifícios de apoio aos militares.

Um risco a longo prazo, até 2100, mas que é ainda maior, afetando muito mais espaço, se em vez dos critérios usados neste estudo se aplicarem os de uma diretiva europeia que colocam quase metade da base aérea, incluindo parte importante da pista, a poder ficar durante algum tempo do ano debaixo de água.

Conclusões que levam Carlos Antunes e Cristina Catita a dizerem que, mesmo não sendo especialistas em aeroportos, seria aconselhável ter em conta, nos estudos que se estão a fazer, as alterações climáticas e a quase certa subida do nível médio do mar.

Filipe Duarte Santos, um dos principais especialistas em alterações climáticas do país, coordenador de vários estudos recentes e antigos sobre a matéria, revisor do relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, também admite que a subida do nível do mar pode ser um problema para o futuro aeroporto do Montijo.

Filipe Duarte Santos argumenta que os estudos sobre o impacto da subida do nível médio do mar são fundamentais para perceber o impacto das alterações climáticas, sendo provável que até ao fim do século este aumente um metro ou mesmo mais.

Aeroporto pode não existir em 2100

Contactado pela TSF, o Ministério do Planeamento e das Infraestrutura explica que os estudos feitos antes do anúncio do novo aeroporto no Montijo, e os que serão feitos até ao final de 2017, têm um horizonte temporal de 30-40 anos.

Não se está a olhar para 2100, e nos anos mais recentes apenas foi detetado um risco de inundação na Base Aérea de Alverca, para onde também se avaliou a possibilidade de instalar o aeroporto.

Fonte do Ministério explica ainda que nesta altura não é possível saber se o novo aeroporto no Montijo vai continuar a existir em 2100 e que em termos de estudos, projeções, é quase impossível ter em conta o que pode acontecer até ao final do século.

Ainda segundo o governo, o tema do nível das águas será tratado na avaliação ambiental a ser entregue até ao final do ano. Havendo estudos de mais longo prazo, estes também serão tidos em contas, embora do ponto de vista económico só se esteja a olhar para os próximos 40 anos.