Empresas continuam a violar a lei, apesar do novo Regulamento de Proteção de Dados

A lock icon, signifying an encrypted Internet connection, is seen on an Internet Explorer browser in a photo illustration in Paris April 15, 2014. About two thirds of all websites use code known as OpenSSL to help secure those encrypted sessions. Researchers last week warned they have uncovered a security bug in OpenSLL dubbed Heartbleed, which could allow hackers to steal massive troves of information without leaving a trace. REUTERS/Mal Langsdon (FRANCE - Tags: SCIENCE TECHNOLOGY CRIME LAW) - GM1EA4F1SZM01
Reuters
Associação de Proteção de Dados avisa os consumidores: é urgente proteger as informações pessoais perante a ameaça digital.
No início a maioria das empresas jogou à defensiva e cumpriu o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) à risca, com receio das multas chorudas (até 20 milhões de euros ou 4% do volume de negócio) que se adivinhavam perante o incumprimento da Lei.
Deixa andar
Antes do RGPD entrar em vigor, a 25 de maio, quem não recebeu dezenas de emails com pedidos de consentimento livre e inequívoco sobre a utilização de dados pessoais? Pois é, mas o cenário tem vindo a mudar.
"Agora as empresas estão a começar a deixar andar, a deixar ver o que vai acontecer", diz o presidente da Associação de Proteção de Dados (APD). Henrique Santos lamenta que, seis meses depois de o novo regulamento ter entrado em vigor, muitas empresas públicas e privadas não estejam a cumprir a Lei, que pretende criar um enquadramento jurídico a nível europeu, aplicado de forma transversal pelos Estados-membros.
"Muito abaixo do que era esperado"
E se há organizações que foram pouco rigorosas na mudança, outras há que nem chegaram a rever os procedimentos. Muitas empresas privadas e várias entidades do setor público (pese embora a moratória de três anos prevista na proposta de lei, ainda por aprovar), continuam muito aquém do que seria de esperar pelo RGPD: "As [empresas] que lidam com dados críticos na saúde, a própria administração pública, seria de esperar uma maior capacidade de adaptação ao regulamento, nomeadamente através de formação e preparação dos responsáveis pela proteção de dados nas empresas e organizações. Está muito abaixo do que era esperado."
TSF\audio\2018\11\noticias\26\maria_miguel_cabo_rgpd
Henrique Santos explica que em relação às grandes empresas privadas que usam os dados como estratégia de negócio, como bancos, seguradoras e operadores de telecomunicações, o cenário é outro. Nesses casos, como era de prever, o RGPD teve mais impacto e está efetivamente a ser cumprido.
Fazer queixa é o 1.º passo
Ainda assim há exemplos que precisam de ser corrigidos: "É fácil encontrarmos sites onde vamos fazer transações comerciais e que claramente nos estão a pedir dados que não nos explicam para que é que eles servem. Já deviam ter isso corrigido". O presidente da APD lembra aos consumidores que nestes casos é preciso fazer queixa à Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) para tornar o RGPD mais efetivo e que essa é precisamente uma das premissas do documento: responsabilizar os cidadãos, que passam a ter parte ativa na gestão dos seus dados.
Lembra-se da Cambridge Analytica?
O investigador lembra ainda que cada um de nós tem o direito e o dever de proteger as suas informações pessoais: "Neste processo de transformação digital, em que toda a nossa informação ligada a organizações pode ser abusivamente utilizada, as pessoas se continuarem a deixar as coisas acontecer vão começar a autorizar as organizações a utilizarem os seus dados para fins menos corretos. Se as pessoas continuarem naquela atitude passiva de pôr a cruz e aceitar tudo, isso pode ser perigoso."
O perigo não se vê mas é real, exemplo disso é o polémico caso Cambridge Analytica, a empresa de análise de dados que em 2014 copiou a informação de mais de 80 milhões perfis do Facebook, sem consentimento, e utilizou os dados para vender publicidade a campanhas eleitorais e fins estatísticos.
Multas já aplicadas
A APD lembra que o RGPD obriga as empresas a indicarem, por exemplo, que tipo de dados vão usar, durante quanto tempo e com que objetivo. Caso contrario há multas pesadas, que já começaram a ser aplicadas. Pesadas como? Como a coima de 400 mil euros aplicada em outubro pela CNPD ao Centro Hospitalar do Barreiro Montijo, pelo acesso indevido a dados clínicos de doentes, por parte de profissionais não médicos.