A "mulher das cavernas" portuguesa que já descobriu 44 novas espécies

A bióloga portuguesa Ana Sofia Reboleira descobriu na Abecásia o milpés mais profundo do planeta.

Ana Sofia Reboleira, "a mulher das cavernas" que se dedica a procurar novas espécies nos ecossistemas subterrâneos e encontrou o milpés mais profundo do planeta, conta que as expedições às profundezas da terra não são propriamente uma diversão.

"Às vezes é um bocadinho complicado, do ponto de vista emocional, o ser humano tem um grande instinto de sobrevivência e as condições vão completamente contra o instinto de sobrevivência", conta a bióloga. O frio, a humidade e a escuridão mexem com a cabeça de uma pessoa quando se está a quatro, cinco dias da superfície.

Quatro, cinco dias foi o tempo que demorou a expedição que permitiu a Ana Sofia Reboleira encontrar, num ambiente muito frio, o milpés mais profundo do planeta, uma nova espécie que recebeu o nome científico "Heterocaucaseuma deprofundum". A descoberta aconteceu numa expedição ibero-russa a uma das grutas mais profundas do mundo, localizada na Abecásia, no Cáucaso Ocidental.

Trata-se de um mil pés, comummente conhecido como "maria-café", um animal invertebrado que pertence ao grupo dos artrópodes. Com esta descoberta, subiu para 44 o número de espécies descobertas pela cientista portuguesa que atualmente trabalha na Universidade de Copenhaga, na Dinamarca.

A descoberta mais especial para Ana Sofia Reboleira aconteceu em Portugal. A bióloga confessa que, apesar de não ser fácil escolher, tem alguns animais prediletos e elege o pseudoescorpião gigante das grutas do Algarve, "cuja descoberta foi algo fascinante". Trata-se de um animal que só tem parentes no continente americano, o que significa que é tão antigo que já existia antes dos continentes se separarem.

Mas afinal qual é o contributo que estes animais podem dar ao bem comum? Ana Sofia Reboleira afirma que o primeiro contributo é o aumento do conhecimento e " isso vale por si", depois estes animais têm um papel muito importante na reciclagem da matéria orgânica e na manutenção da qualidade da água das reservas subterrâneas. Além disso "produzem venenos, toxinas, coisas que não estão estudadas obviamente, mas que podem ter aplicações no tratamento de doenças", refere a bióloga.

"E permitem-nos também olhar para o passado", acrescenta. "À superfície nós temos grandes alterações climáticas e debaixo de terra o ambiente é muito estável e, portanto, muitas vezes encontramos elos perdidos da evolução, encontramos registos de outros climas, de climas passados, espécies que anteriormente habitavam esta zona e que se extinguiram à superfície devido às alterações climáticas", explica Ana Sofia Reboleira .

Apesar de este ser um trabalho duro é a paixão que move esta cientista portuguesa. "Antes de ser bióloga já me dedicava à exploração de cavernas", conta.

"Ser espeleóloga é uma mais valia para trabalhar nesta área da biologia, especialmente quando trabalhamos em sítios muito profundos", reconhece Ana Sofia Reboleira, que confessa também já ter apanhado alguns sustos. O pior foi uma inundação dentro de um rio subterrâneo com a água a 4º C, depois de uma chuvada.

"Não foi nada simpático, uma atividade que devia ter demorado seis horas acabou por demorar 24, é realmente complicado quando uma pessoa está num rio subterrâneo, vê o nível da águas a subir e a água a entrar por todos os lados, é uma experiência não recomendada."

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