Conta-me como era

O que é feito das antigas escolas primárias? Viraram centros de apoio à terceira idade, albergues, hotéis, casas mortuárias, habitação social e até mesmo esquadras da PSP. Venha connosco nesta viagem entre o presente e o passado.

"1,2,3, som, som". Ana Alves é a presidente da junta. Está na igreja de Pensalvos a fazer testes de som para o funeral que há de acontecer no dia a seguir. "1, 2, 3, som. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7..."

Ali ao lado, está um corpo a ser velado na antiga escola primária, que agora funciona como casa mortuária. Na verdade, a escola foi dividida em duas partes: uma sala de aulas passou a ser a sede da junta de freguesia; a outra sala, a casa mortuária, "porque as pessoas já vinham a pedir". Ana Alves diz que "era uma coisa que fazia falta na aldeia".

A transformação reflete bem o panorama demográfico. Num país cada vez mais envelhecido, a freguesia deixou de ter crianças, passou a ter idosos. Deixou de precisar de uma escola, passou a necessitar de uma casa mortuária.

"Mais de 80% - quase 90% - são pessoas idosas", adianta a presidente da junta. E crianças? "Temos quatro crianças. Aliás, cinco!", corrige.

Ana Alves estudou nesta escola: "Foi aqui que aprendi o a,e,i,o,u e ainda tenho a minha professora que me ensinou viva, com 94 anos".

As memórias põem-lhe um brilhozinho nos olhos. "A nossa infância... foi aqui que aprendemos, que brincámos todos juntos. Quem andou comigo na primária não está cá ninguém. Ninguém. Foi tudo para o litoral e para o estrangeiro".

Quando aqui estudou, nunca sonhou que um dia havia de ser presidente de junta. Ana Alves dizia que queria ser enfermeira. A vida trocou-lhe as voltas, é presidente de junta de uma freguesia do concelho de Vila Pouca de Aguiar, cuja autarquia é presidida por Alberto Machado.

A Interioridade
"Há uma tendência objetiva de desinvestimento no interior"

"Tínhamos várias escolas com dois e três alunos", sublinha o presidente da Câmara, graduado em Políticas Educativas e Administração Escolar, explicando que "nessa idade as crianças desenvolvem [competências] e são períodos críticos para as capacidades coordenativas".

"Havia escolas onde era só um aluno e um professor e, por isso, faltava-lhe um conjunto de vivências enormes que os fazem crescer em comunidade. Não podíamos ter essa situação. Eu não deixaria um filho estar numa escola sozinho durante quatro anos com um professor". O autarca admite, no entanto, que há aspetos negativos na extinção das escolas.

"O que é imediatamente diagnosticado é a falta de vida nas nossas aldeias. Ao encerrarem-se escolas nalgumas das nossas aldeias - ou quase na totalidade das nossas aldeias - levou a que não houvesse essa vida, o movimento diário das crianças para a escola, o fim de uma tradicional ligação entre gerações, em que os pais acompanhavam a vida das crianças e eram também acompanhados pelos avós no transporte à escola, nos trabalhos de casa. Havia uma proximidade muito grande entre a família e o professor que estava ali ao lado. Isso perdeu-se. As nossas aldeias sentiram a perda de bens de proximidade. Não era esse o caminho que queríamos seguir".

Como autarca de um concelho do interior, o que Alberto Machado sente é um prolongado esquecimento por parte dos sucessivos governos. "Eu acho que há quase uma tendência objetiva de desinvestimento no interior. A perda de bens e serviços públicos é uma constante. Se eu pegar apenas nos seis últimos meses, no concelho de Vila Pouca de Aguiar foi encerrada a única agência de banco público na vila termal de Pedras Salgadas, foram encerrados postos de CTT, foram encerrados agregados que é uma forma diferente de falar do encerramento de postos da GNR. Este ano tivemos um médico que meteu atestado por um período alargado e houve uma incapacidade do Estado substituir esse médico. Só conseguia substitui-lo ao fim de um ano de ausência, porque não tinham substituto".

Foi a própria autarquia, garante o presidente da câmara, a tratar da substituição do médico, já que a lacuna afetava mil e 300 utentes.

São exemplos de como nos vários serviços, o Estado foi deixando de marcar presença no interior. "Devia ser precisamente o contrário. A presença do Estado devia ser reforçada todos os dias, porque se num território a densidade populacional baixa, é claro que a importância da presença do Estado nesse território se acentua. Isso leva a que a população ativa não tenha condições de vida neste interior".

Um albergue do Caminho de Santiago
"Muitas pessoas ficam nossas amigas. Isso já vale a pena"

Pelo concelho de Vila Pouca de Aguiar, passa a Estrada Nacional 2, que liga Chaves a Faro e passa um dos caminhos de Santiago. Cinco antigas escolas primárias foram transformadas em albergues. Aprígio Lopes Pereira cuida do Albergue Santiago, que, como o próprio nome indica, dá apoio aos peregrinos que buscam a Compostela. "Há pessoas que vêm e depois voltam com as famílias. Às vezes fazem a comida em minha casa e vem-se comer para aqui. Há pessoas que vêm de todos os lados e pessoas que ficam nossas amigas", diz num tom de voz baixo, com gestos simples.

É do que Aprígio mais gosta. Das amizades que faz com os caminheiros.

"Há pessoas que nem sabem dizer uma palavra em português. Até me admira como é que eles vêm. Nós que sabemos a língua, às vezes andámos perdidos. E eles com o mapa lá se desenrascam. Sozinhos, sem ninguém a acompanhá-los. E não têm medo. O que se ganha não dá nada, mas só de conviver com essas pessoas, muitas delas ficam nossas amigas, já vale a pena", alegra-se.

Isso vale mais do que aquilo que lhe pagam - a ele e à mulher - para tomar conta do albergue, que foi, em tempos, a escola onde Aprígio aprendeu a ler. "E as minhas filhas também andaram cá, da primeira à quarta classe. Quando saiu a minha filha mais nova, quase que acabou a escola".

A filha mais nova foi das últimas a estudar aqui. A cada ano que passava, a aldeia ia perdendo crianças. "No meu tempo, éramos à volta de 30. No tempo das minhas filhas, já eram 13 ou 14 e agora são cinco ou seis. Vão para a vila e é muito melhor. Se não fosse feito este albergue, isto estava no chão".

Em vez disso, o edifício, com um cedro à porta, está em bom estado, pintado de branco, as portas e janelas com isolamento, a cozinha equipada, as antigas salas de aula com beliches. "Nunca imaginei. Nem eu nem ninguém. Era uma escola e depois aparecem agora aqui camas? Mas foi bom isto. Há pessoas que dizem que não, que vêm pessoas estranhas para a aldeia. Mas, no fundo, foi bom, porque vem sempre aqui gente".

Onde agora estão camas, estavam antigamente carteiras, um quadro de giz, uma régua grossa de madeira. Cada erro, sua reguada. "Ai, porradinha levava. Entrei aos oito, ainda chumbei um ano. Na altura andávamos aqui 30 canalhas. A escola era dividida. Ali era uma sala e aqui era a sala principal e nós entrávamos por aqui e tínhamos aí essa saleta onde a professora nos punha a estudar. Ali daquele lado, tinha uma fogueira, onde agora é o quarto de duas pessoas".

As brasas aqueciam as manhãs frias, em que a geada deixava os campos cobertos de branco e as mãos tinham dificuldade em agarrar no lápis.

Uma escola transformada em habitação social
"É uma casa bonita, arranjadinha"

Ainda hoje Susana Rodrigues se queixa desse frio. Ela vive na escola onde estudou, transformada em habitação social pela Câmara de Sabrosa. Diz que só lhe falta um aquecedor em condições. "É uma casa bonita, arranjadinha".

A casa que a câmara lhe entregou não estava mobilada, ela foi arranjando ajudas. O frigorífico "foi uma professora lá da escola", por exemplo. Susana mostra com orgulho a casa ("Ainda tenho que arranjar um armariozinho"), indica as casas de banho ("Aqui a sanita e lavatório e aqui para tomar banho"), o quarto ("Ainda me falta um guarda-vestidos, mas vai com tempo").

Susana traz vestida a bata vermelha e preta com que trabalha na APPACDM, a associação que dá apoio a crianças e jovens portadores de deficiência intelectual. Ela própria estudou lá, depois ter saído da escola primária. As memórias que tem desse tempo são as de uma criança traquina. "Quando andava aqui na escola, ia com uma colega minha lá para casa fritar pão com azeite. Escaldei-a toda. Eu era má", ri-se.

A rebelde Susana cresceu, virou mulher, casou-se, teve uma filha. Mas a vida não foi linear. Ela e o marido viveram um problema de alcoolismo. Ele morreu por causa disso. Ela enviuvou, tratou-se, vive agora com menos de 700 euros por mês, que tem que fazer esticar para ela e para a filha. "Ela precisa de roupa, umas calças, botas... Ser mãe e pai ao mesmo tempo é muito duro. É doloroso".

O Lugar das Letras
"O luxo aqui é acordar com o Douro a entrar por dentro dos quartos"

As condições precárias da casa de Susana contrastam com o conforto do Lugar das Letras, outra antiga escola do concelho de Sabrosa transformada em turismo rural. Francisco Abrunhosa faz as honras da casa, em que uma noite custa acima de 300 euros.

"O Lugar das Letras diz tudo o que vai encontrar quando entrar dentro da unidade turística. O nosso objetivo foi obviamente preservar o mais possível o edifício original e mantê-lo, reabilitando. Acho que isso foi conseguido. E a ampliação - onde tem os quartos e a cozinha - praticamente não se vê".

Entramos. Mal se passa a porta, há um quadro preto, uma carteira da escola, livros da primeira e da segunda classe do tempo do Estado Novo. "O quadro estava todo desmantelado, foi refeito. O relógio é da época, era da escola. As carteiras são da escola, foram também restauradas. O estrado é uma parte do estrado original da escola. Aqui é um cantinho muito especial. As pessoas de todas as idades deliciam-se. Sentem-se aqui e leem os livros da primeira e segunda classe. Temos ali aquela peça, as orelhas de burro, para quando os alunos se portavam mal. Os mais novos não têm noção de como era isto há 50 anos, mas ainda bem que se evoluiu muitíssimo ao longo destes anos".

A casa está cheia de pormenores ligados às letras e aos livros. Mas o maior atrativo desta casa - que o The Guardian já classificou como uma das 25 melhores casas de turismo da Europa - é, sem dúvida, a paisagem deste Douro enquadrada nas janelas.

"Aqui é fantástico acordar com o Douro a vir-nos dizer 'bom dia'. O luxo aqui não é mármore italiano ou colchões nórdicos. O luxo aqui é esta paisagem, a privacidade, o sossego, é acordar com o Douro a entrar por dentro dos quartos. Para além de toda a harmonia arquitetónica e o conceito de decoração que está muito ligada à história do edifício".

Jardim de infância
"Torga era um escritor e desenhava muitas coisas"

"Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite.

Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos".
(Miguel Torga)

Nesta escola que é agora um jardim-de-infância, aprendeu a ler Miguel Torga. Desta sala de aula, Torga aprendeu a apreciar o Reino Maravilhoso, a desenhá-lo nas letras, a partilhá-lo em calafrios de enamoramento.

Mariana e Tomás, uma bailarina e um polícia, têm o privilégio de sonhar na mesma escola em que Torga sonhou. "Somos namorados", avisam, garantindo que sabem "onde morava o Miguel Torga, que era um escritor e desenhava muitas coisas".

Universidade Sénior
"Não podíamos saltar o muro que dividia a parte feminina da parte masculina"

"Aqui era a escola primária de Sabrosa. Eu estudei aqui, no tempo em que a escola era dividida". Manuel Carvas é o presidente da câmara de Sabrosa. "Havia um muro que dividia a parte feminina da parte masculina. Não podíamos saltar o muro, tínhamos um castigo. O presidente foi algumas vezes castigado. "Éramos miúdos pequeninos. Andei aqui até aos 9 anos. Depois fiz exame da quarta classe e fui estudar para o liceu".

Esta escola é agora uma Universidade Sénior, frequentada por 27 utentes, com uma média de idades de 68 anos e coordenada por Dina Barros. "Aqui eles gostam de jogar bócia, temos a tuna, também com uma grande adesão, temos pintura, trabalhos manuais, história e tradições locais".

Segundo o Ministério da Educação, entre 2005 e 2015, o último ano de execução do QREN, foram encerradas mais de seis mil escolas. Para os substituir, foram construídos 805 centros escolares, um investimento de mais de 1 milhão de euros. As escolas perderam quase 100 mil alunos na última década.

E se a redução do número de crianças é mais notória nas aldeias do interior, ela também se verifica nas grandes cidades. É o caso da escola primária da Vilarinha, em Aldoar, no Porto, que virou esquadra da PSP.

Esquadra da PSP
Estilo "Português Suave"

"Abrangemos as freguesias de Aldoar e Nevogilde, temos uma área de cerca de quatro quilómetros quadrados, e cerca de 8 mil residentes. Isto sem contar com toda a população flutuante que gravita em torno desta área. Estamos a falar de uma zona que vai até à Avenida da Boavista e até à Circunvalação. Apanha o Parque da Cidade, o Castelo do Queijo, até à Boavista, ao Estádio do Bessa. Estamos a falar de uma área bastante extensa. Vai quase até à Foz". O intendente Rocha e Silva já foi comandante desta esquadra, agora é comandante de divisão. É ele que nos apresenta a escola-esquadra: "A PSP, juntamente com a Direção-Geral de Infraestruturas, e em comunhão de esforços, fez um projeto de reconversão do edifício e transformou aquilo que dantes eram salas de aulas em gabinetes de apoio, zonas de acesso restrito, zonas de trabalho, de comando e de atendimento".

O edifício lá está, de linhas retas e brancas, as janelas alinhadas, as portas em arco, o mastro com a bandeira à entrada.

Nem todas estas escolas foram construídas antes do 25 de abril, mas mesmo as que nasceram depois mantiveram o mesmo tipo de arquitetura do chamado Plano dos Centenários. Trata-se de um plano lançado por Salazar com um estilo arquitetónico que ficou conhecido como "Português Suave". Até ao fim da década de 1950, foram construídos sete mil novas escolas. Mas a construção em larga escala manteve-se na década seguinte. Não havia povoação que não tivesse uma escola com este tipo de arquitetura.

Diz o ministério de Educação que "desde os anos 80 estava identificada a necessidade de encerrar escolas do 1.º ciclo do ensino básico, isoladas, com poucas condições e de pequena dimensão, nas quais se registavam elevados índices de insucesso escolar".

O processo iniciou-se em 2005, e ganhou força em 2009, há precisamente uma década. O ministério entende que a descida da taxa de retenção e desistência do 1.º ciclo do ensino básico demonstra que o encerramento das escolas contribuiu para a melhoria do sucesso escolar.

Continuar a ler