Educação

"Não substituímos pais, nem professores. Somos um ombro amigo"

Todos os anos, a Universidade do Porto recruta alunos que depois são distribuídos por escolas da cidade, onde existe risco de insucesso e abandono. Durante o ano letivo, os alunos mais novos são apoiados, a nível pedagógico e não só. É que o papel do tutor não se resume a dar explicações ou tirar dúvidas sobre a matéria dada.

Ana Maia e Vítor repetem a experiência do último ano letivo. Ela é estudante universitária, na Faculdade de Farmácia do Porto. Ele é aluno do 7º ano, na escola básica Augusto Gil.

Para Vítor, estudar com a tutora "é mais fácil. Aqui estou sozinho. Na sala somos muitos alunos".

O projeto de voluntariado estudantil entrou na vida de Ana há três anos, para se sentir mais útil. "No primeiro ano não me envolvi em nada e quis mudar isso. Procurei um projeto de voluntariado, com crianças. Achei este muito bem estruturado, por isso decidi experimentar".

A Universidade do Porto é um dos parceiros do programa criado pela Câmara Municipal do Porto, com o objetivo de combater ao abandono e insucesso escolar. Os estudantes mais velhos candidatam-se para acompanharem um aluno do 2º ou 3º ciclo. Foi assim que Vítor passou a receber ajuda da Ana. O primeiro ano terminou sem sucesso. O aluno reprovou, mas Ana não desistiu. "Ainda é cedo, mas este ano letivo, ele está diferente, está mais interessado. Acho que vai ser diferente".

As sessões decorrem na biblioteca da escola Augusto Gil são semanais e duram uma hora. Para Ana Costa e Daniel é tudo novidade. Estudam Físico-Química. A tutora sabe bem o que é lidar com insucesso. Aconteceu na faculdade, onde estuda Engenharia Mecânica. "Eu era muito boa aluna no ensino básico e secundário, mas quando cheguei à universidade soube o que era insucesso escolar. Senti, assim, que devia ajudar alguém a não desistir".

Daniel tem 14 anos, frequenta o 8º ano e está apostado em ultrapassar as dificuldades. "Sei que isto é muito importante para mim. Para tirar boas notas".

Para a Vânia, o programa já não é novidade. Este é o terceiro ano que se candidata bem ciente do seu papel.

"Não venho substituir ninguém. Nem a professora, nem a mãe. Sou um ombro amigo que está disponível".

Vânia está sentada no meio de Bárbara e Fenda, as duas alunas que ajuda, em simultâneo, pelo segundo ano consecutivo. Já há confiança e empatia. Tudo começou por aí, "depois digo-lhes que vão conseguir sempre alcançar os seus objetivos".

Para Fenda, a Vânia tem sido o motor da sua autoestima. "Não tenho muita confiança em mim, mas a Vânia está a sempre a dar-me coragem e confiança".

Matemática, Físico-Química e Ciências são as disciplinas que as alunas do oitavo ano, descrevem como as mais difíceis. Com Vânia tiram todas as dúvidas. E não só. O programa de voluntariado não pretende oferecer apenas explicações. Cada estudante universitário é um tutor e nas conversas com os alunos mais novos cabem todos os temas.

Bárbara diz que aproveita "para desabafar. Falo sobre tudo, sobre namorados... é como se ela fosse minha irmã mais velha. Com os meus irmãos não estou tão à vontade".

No gabinete de Psicologia, Margarida Rocha orienta a aplicação do programa na escola. Na escola Augusto Gil, são cerca de vinte, os alunos que têm um tutor que vem da universidade. São escolhidos mediante alguns critérios, "como a dificuldades em organizarem-se, são alunos sem estrutura familiar que os ajude a estudar...".

Sara, tal como os restantes alunos, diz que Ana Gerós é um pouco de tudo: explicadora, professora, amiga, irmã mais velha. No seu caso, aqui inverte o papel que assume em casa. Aqui, durante esta sessão, ela é a mais nova, a que recebe apoio e que tem alguém focado em si.

"Aqui estamos só nós as duas. Com a professora somos mais de vinte alunos...".

O doutoramento e o voluntariado de Ana Gerós começaram ao mesmo tempo, ou seja, há três anos. São atividades que a estudante universitária concilia com explicações de matemática. Atividades com pontos comuns, mas muito diferentes.

"Aqui ajudamos em tudo. Não nos limitamos a explicar a matéria dada na sala de aula".

Para as quatro tutoras, a busca de novas competências profissionais e pessoais serviu de empurrão para o voluntariado. Ana Gerós resume o sentimento de todas.

"Às vezes só conhecemos o nosso mundo e estamos muito fechados. Aqui conhecemos outras dinâmicas familiares e sociais".

A par da Universidade do Porto, o programa de voluntariado recruta candidatos no Instituto Politécnico do Porto e a Universidade de Católica.

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