Reportagem TSF

A memória nazi sepultada em Aljezur. Há quem se sinta incomodado

Há 75 anos, um avião alemão foi abatido por caças ingleses ao largo de Aljezur. Os sete aviadores que morreram foram sepultados no cemitério da vila. Hoje, as campas são cuidadas por outros alemães que lá vivem. Mas há quem se sinta incomodado com a história.

Francisco Duarte nem hesita quando lhe perguntamos pelas campas dos militares alemães. O coveiro do cemitério já se habitou a ser o guia dos curiosos que por aqui passam. Entre as campas do cemitério de Aljezur, vai direto ao local onde estão sepultados os aviadores.

São sete lápides alinhadas que se destacam das outras. As pedras são sóbrias. No topo têm gravada a cruz de ferro nazi, seguida da patente e o nome de cada um dos aviadores: Walter Beck, Martin Angermann, Ernst Herppich, Johann Bauer. Werner Riecke, Hans Weigert e Gunther Nikolaus. Todos com idades entre os 22 e os 26 anos.

A história recua até 9 de julho de 1943, quando nos céus de Aljezur se travou uma batalha aérea . Um avião alemão acabou por ser abatido por caças ingleses e caiu na ponta da Atalaia, a cerca de 2 quilómetros da vila.

No acidente, morreram sete aviadores, que tiveram direito a funeral com honras em Aljezur. Nos anos que se seguiram, as famílias enviavam dinheiro da Alemanha para cuidar dos túmulos e depositar flores. Hoje, continuam a ser cuidadas.

"São os alemães que estão aqui na Charneca que tomam conta. Eu também ponho aí água... E esses alemães vêm visitar isto e têm posto aí esses vasos", explica Francisco, apontando para as floreiras colocadas em cada campa.

Quando chega a novembro, o tratamento é especial. "Acho que é da parte da embaixada que vêm cá. Às vezes dizem a missa".

Volta não volta, aparecem outros grupos no cemitério a pedir para ver túmulos. Uma curiosidade que não toca a todos. "Os ingleses às vezes vêm aqui e eles não gostam. Nem querem que lhes fale nisto. Eu pergunto se estão interessados e eles dizem logo: 'não, não, não...".

No centro da vila, a Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur (ADPHA) tenta preservar a memória do que aconteceu há 75 anos. Há dois anos, foram descobertos novos documentos no sótão da antiga câmara. Telegramas, o relatório do acidente, pedidos de informação de familiares, os comprovativos da compra dos terrenos das campas pelo estado alemão. Dados que permitem reconstruir tudo o que aconteceu no dia da tragédia e nos que se seguiram.

A Associação tem ainda maquetes com o cenário do acidente, e destroços encontrados no terreno (desde fragmentos de munições ao manómetro do avião) e o livro de José Augusto Rodrigues sobre aquela que ficou conhecida como "Batalha de Aljezur". No fim de semana vão ser expostos na cerimónia que assinala os 75 anos do acidente.

Lídia Caetano está habituada a receber visitantes de fora. "Há pessoas que vêm mesmo ver, querem comprar o livro, ver os destroços. Muita gente", adianta, "são curiosos com estas coisas, alguns colecionadores, gostam de saber".

Mas também há quem se sinta incomodado. "Noto isso nos alemães. Portugueses, poucos. Mas alguns alemães não gostam de falar da altura dos nazis. Perguntam porque é que estão a escrever a história de uma altura tão terrível para eles".

São principalmente os que vêm de passagem porque a comunidade alemã que vive na região participa e até promove cerimónias de homenagem.

É o caso de Uve Zelinski. Tenente-coronel alemão reformado, mudou-se para Portugal há 18 anos. Escolheu Aljezur para viver, como tantos outros alemães.

Poucos meses depois de se mudar, soube da Batalha em 1943. No Dia da Memória na Alemanha, a 13 de novembro, o cônsul honorário alemão no Algarve assinalava a data. A determinada altura, Uve decidiu começar a promover uma cerimónia especial no cemitério.

"Este dia especial, instituído em 1952, serve para lembrar todos os mortos na I.ª e na II.ª Guerra Mundial em todo o mundo", explica Uve. Para assinalar a data, têm o apoio do consul honorário em Lisboa. "Vêm três soldados que depositam coroas de flores e vem um representante fazer um discurso junto aos tumúlos em Aljezur".

Na homenagem não participam apenas alemães. Uve faz até questão de convidar os ingleses que também moram na zona.

A cerimónia é promovida por uma comunidade internacional. Até porque alguns compatriotas não mostram interesse em participar. Mas Uve garante que não tem a ver com um passado mal resolvido. "Não há nenhum segredo, nenhum fantasma, nenhum problema em falar nisso".

O tenente-coronel assegura que é totalmente errada a mera ideia de associar as homenagens a qualquer tipo de saudosismo sobre um período negro para a Alemanha. E lembra até que começaram por ser promovidas por portugueses.

"Especialmente a pedra da memória, colocada perto da costa, no local do acidente. Foi um arquiteto português, do Porto, que investigou este acidente e quis assentar esta pedra. Surgiu do um interesse de um português, não de um alemão", conta, "não há boas recordações dos tempos nazis, de 1933 a 45, e ninguém está aqui a querer dizer que foi o melhor tempo que vivemos".

E mesmo naquela altura, há 75 anos, os aljezurenses souberam distinguir as coisas, acredita Uve.

"Nas fotografias do dia podemos ver todos os portugueses a participar, com os representantes alemães que vieram de Lisboa e de Berlim. É impressionante que tenha sido possível fazer isso. Eles viram aqueles sete corpos e enterraram-nos com todas as honras que podiam dar. Não houve nenhuma combinação para honrar os tempos e as ideias nazis. Eles deram-lhes um tratamento humano, de coração".

Para o tenente-coronel, acima de tudo, hoje é importante não deixar esquecer o que aconteceu.

Uve até já acompanhou uma turma de Hamburgo à ponta da Atalaia, para mostrar o sítio onde caiu o avião. E as gerações mais novas têm o direito de saber.

"Agora são os netos que estão interessados e perguntam aos pais: 'o que aconteceu? E como é o que o meu avô fez parte disto?' As novas gerações estão mais interessadas do que a minha. E se querem saber mais, devem poder informar-se, ler, ver as fotografias... Não é recordar os 'grandes tempos' durante esses anos terríveis. É lembrar todos os mortos que tivemos".

Por isso, Uve faz questão de continuar a cuidar das campas dos sete aviadores que morreram em Aljezur há 75 anos. "Sentimo-nos responsáveis".

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