Ir à universidade na cadeia tem sabor a liberdade

O Estabelecimento Prisional do Porto e a Universidade Aberta são parceiros no ensino à distância para reclusos, disponibilizando licenciaturas, mestrados e doutoramentos O número de alunos tem vindo a aumentar e este ano letivo são já dezasseis, os que acederam ao ensino superior.

Paulo Rocha ainda não cumpriu metade da pena de dezanove anos. Condenado por homicídio deu entrada no Estabelecimento Prisional do Porto em 2012, mas não começou logo a estudar.

"Optei por esperar mais um bocadinho. Quando entramos cá, andamos meios perdidos até nos adaptarmos, então inicialmente a questão de concentração e vontade não existia".

Paulo trabalhava em contabilidade antes da reclusão, por isso o curso de gestão pareceu-lhe o mais óbvio, na hora de fazer uma opção, mas encontrou um sistema pouco cimentado. "Computadores zero, as matérias eram quem estava cá responsável que se esforçava para conseguir que houvesse uma ligação com a universidade, as matérias vinham quando vinham... As limitações eram muito diferentes. Nem sequer tínhamos uma sala para estudar".

O recluso estudava ao início da noite, na cela, uma camarata com dezasseis camas, onde, apesar de tudo, Paulo Rocha encontrou compreensão por parte dos colegas. "É muita gente, mas felizmente tive sempre colegas que me respeitaram bastante e quando me viam a estudar limitavam o barulho. E isso nem sempre é fácil num espaço pequeno".

O cenário é, agora, muito diferente. A Universidade Aberta é a instituição parceira do estabelecimento prisional do porto, no ensino à distância. Este ano letivo está a testar uma plataforma, criando um campus virtual, coordenado pelo professor José António Moreira. "Estamos a testar, pela primeira vez, uma intranet num estabelecimento prisional. Assim, os alunos ficam mais próximo da Universidade Aberta".

A oferta da Universidade Aberta é igual para reclusos e alunos regulares. Inclui licenciaturas, mestrados e doutoramentos. Paulo Rocha, de 45 anos, já concluiu o curso e deseja continuar, no entanto, o pensamento está focado no maior desejo de todos, uma saída precária. "Ia gostar de ir primeiro à minha aldeia, lá cima em Arouca, pode parecer uma cosia maluca, mas se fosse possível gostava de dar um mergulho no rio. E depois então visitar a família. Mesmo que fosse no inverno, acho que é uma coisa que me faz falta, a água do rio da minha aldeia".

Carlos Duarte tem quase a mesma idade de Paulo e tem também dois filhos. Cumpre uma pena de oito anos e meio, por tentativa de homicídio e diz que não tem que provar nada a ninguém, "em tribunal já se provou aquilo que eu fiz, o caso está encerrado. Agora eu tenho de fazer é trilhar o meu caminho e recomeçar do zero".

Entrou em Custóias com o 9º ano, e já está no curso de Ciências do Ambiente. Com quase cinco anos de pena cumprida gosta de realçar a nota positiva nos primeiros exames, na universidade. Um sucesso que custou algumas horas de sono. "A hora de recolha é às sete da tarde. Até às nove da noite, eu estudo dentro na camarata, depois dessa hora vou para a casa de banho, que é grande, fecho a porta, estou com a luza acesa, tenho uma mesinha e estou ali a estudar e tirar apontamentos. Quando dou por ela, às vezes, já são uma ou duas da manhã. Bom, aí já é hora de ir descansar".

Lá fora, o ensino superior era uma meta quase impossível, por isso este recluso nunca imaginou sequer, o dia em que iria tirar dúvidas de Biologia com a filha, estudante de enfermagem. "Ela foi sempre boa aluna, está no segundo ano do curso. Então, às vezes nas visitas, é engraçado, trocamos algumas impressões e até nos rimos. E ela diz-me 'quem diria que com 40 anos estás aqui a trocar dúvidas de Biologia".

As visitas são um balão de oxigénio para aguentar a reclusão e a escola também ajuda, é quase como não ter barreiras. "Quando entro aqui neste recinto [da escola], parece que não estou em reclusão. Sei que estou, mas parece que não estou, porque depois tenho muita coisa para fazer. As atividades são muitas, daí eu tentar estar sempre ocupado".

Quando regressar à liberdade, Carlos quer trabalhar na área florestal. Acredita que vai ter uma oportunidade e que o curso será uma mais-valia para atenuar o peso e o preconceito de ser ex-recluso. Paulo Rocha tem perspetivas semelhantes. Uma porta vai abrir-se, quando a da cadeia se fechar. Do lado do Estabelecimento Prisional de Custóias, o diretor, José Júlio Silva, diz que aqui dentro faz-se o possível, depois, o rasto perde-se."Infelizmente não há notícia sobre o que se passa a partir do momento que saem do estabelecimento prisional. É uma falha que existe. Não há estudos sobre isso".

A cadeia de Custóias tem mil cento e cinquenta reclusos, trezentos frequentam a escola, dezasseis dos quais, o ensino superior. José Júlio Silva diz que esta é uma estrutura crucial. "A escola é sempre um sítio diferente dentro da cadeia, porque é constituída por alguém que vem de fora, que refresca um pouco a cadeia. É uma verdadeira escola. É um espaço à parte. Para os alunos não deixa de ser uma certa evasão".

Ter o tempo ocupado é uma prioridade para António Pereira, que está preso há quase quatro anos, por burla. Licenciado em Direito é o primeiro aluno de mestrado de Estudos sobre a Europa. A pensar num doutoramento, António prepara a dissertação para acabar o mestrado - talvez já fora da cadeira, pois em breve conta estar em liberdade condicional. Até lá, trabalha e estuda para sentir que existe um escape. "Não pode deixar de ser, não pode deixar de ser. Quando nós estamos aqui, não estamos presos".

Quando começou a cumprir pena, António já pensava no último dia na cadeia. A reinserção social vai ser apoiada pela família e pelos amigos. O sistema está ausente. "Eu costumo dizer que a cadeia é aquilo que gente quer. Se estamos à espera que nos deem uma política de reinserção social, não existe. Nós temos que a fazer. Temos que ajudar".

José Oliveira está mais longe do momento de saída. A pena a que foi condenado pelos crimes de furto e roubo é de dez anos e só quatro estão cumpridos.

"Eu tinha o 12.º ano e sempre tive a ideia de tirar uma formação até aos 50 anos. Por causa do trabalho, tal nunca aconteceu. Agora que tenho este tempo parado, não o quero dar como perdido, e até para me valorizar pessoalmente, decidi que tinha que ser".

Foi com este pensamento que se inscreveu no curso de Ciências Sociais, que encara como valorização pessoal e as aulas como um momento de liberdade. "Quando estou concentrado na matéria é como estar a dormir. A gente a dormir não está preso, está a sonhar, está no exterior. Quando acorda é que é o pesadelo. Aqui estamos concentrados na matéria e estou a tentar viver o que estou a ler, o que estou a aprender. E nesse momento sim, sinto uma certa liberdade... interior".

Sempre que tem tempo livre, José Oliveira vai até à sala de estudo, lê na cela e procura informação como pode. "No telefonema diário só tenho cinco minutos para ligar à família. Pergunto se está tudo bem e quando me lembro, peço 'olha enviem-me estas e estas fotocópias. Tens caneta? Tenho. Não tens? Olha fica para amanhã".

No resto do tempo, José Oliveira diz que conta todos os segundos até à liberdade condicional, que pode ser concedida no próximo ano.

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