Centenário do Armistício

"O avô decidiu fazer o que era certo, não o mais fácil." Carta do neto do 'soldado Milhões', 100 anos depois do Armistício

Desobedecer a ordens garantiu-lhe um lugar na História. Aníbal Augusto Milhais, o soldado português mais condecorado da I Guerra Mundial, ficou para trás para cobrir a retirada dos camaradas de armas. Por ocasião do centenário do Armistício, o neto mais novo do 'soldado Milhões' escreve-lhe uma carta, que a TSF publica.

Olá, avô 'Milhões',

Na realidade nunca nos chegamos a conhecer, mas não é por isso que sinto menos orgulho e admiração pelo que foi e pelo que fez, não só na Grande Guerra, como em toda a sua vida. Sinto que o conheço um pouco, pois sempre esteve presente nas nossas vidas, seja pelo contacto diário com a avó Teresa, desde que nasci, seja por todas as histórias e relatos sobre si contados em família, ou ainda pelo álbum de recortes que carinhosa e empenhadamente a minha mãe Leonida compilou ao longo da sua vida.

Desse contacto aprendi muito sobre si: que era um homem simples, que nunca renegou àquilo que era e de onde veio e que, portanto, queria apenas ser como todos os outros; que era alegre e gostava de cantar e contar histórias; que gostava de estar rodeado dos seus familiares e amigos, com a casa cheia de gente.

Hoje em dia, a história da participação do avô na Grande Guerra é muito falada entre nós, há até um filme e uma série televisiva, imagine! Bem, a história e os filmes são sobre o 'Milhões', mas não deixam também de mostrar o Aníbal. Em todo o caso, pelo que sei sobre si, o 'Milhões' nunca deixou de ser o Aníbal, mesmo nos momentos mais difíceis, como naquela manhã de 9 de abril em que o avô decidiu desobedecer à ordem do seu superior e ficou para trás a cobrir a retirada dos seus camaradas de armas portugueses e escoceses. Deve ter sido uma decisão muito difícil e solitária. Ficou só perante ofensivas sucessivas, mas com isso garantiu que os seus se salvassem.

Aníbal Milhais

A esse propósito, disse o avô em 1967, numa entrevista à RTP, que naquele dia apenas "fez o seu trabalho". E é precisamente nisso que o 'Milhões' e o Aníbal são exatamente o mesmo: naquele dia fez o que tinha que ser feito, era o seu dever. Nunca foi homem para deitar para trás das costas as suas obrigações, naquele dia e em todos os outros dias difíceis da sua vida, antes e depois da guerra. Mais, sentia que aquilo que fez não foi diferente do que tantos outros camaradas anónimos fizeram naquela e em tantas outras situações durante a guerra. Da história do 'Milhões' houve testemunhas e por isso a mesma se tornou conhecida e também reconhecida pela então jovem República, que o agraciou, entre outras, com a Ordem da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito.

Acredito convictamente que a condecoração que lhe foi atribuída reconheceu todo o seu valor mas, para além disso, também personificou em si todos os seus camaradas soldados, lãzudos, que de forma anónima combateram a seu lado e cujos feitos permanecem no esquecimento da história. Se há mérito maior nas comemorações do Centenário da Grande Guerra, e já agora no filme e na série televisiva, esse passa por lembrar a participação do Corpo Expedicionário Português na Grande Guerra e resgatar do esquecimento todos aqueles que combateram na Flandres e em África, em condições muito difíceis e de grande sofrimento. Todos, como o avô, são verdadeiros heróis, merecedores do nosso respeito e grande admiração.

Eduardo Milhões Pinheiro, neto mais novo do 'soldado Milhões'

Cem anos depois do fim da guerra, os dias que correm são tudo menos pacíficos, avô. Não estamos em guerra, felizmente, mas hoje em dia o conceito de guerra também já não se aplica exatamente do mesmo modo como se aplicava no seu tempo. Pergunto-me porque motivo todas as privações e horrores por que o avô e todos os seus camaradas de armas passaram não terão servido de exemplo. Como foi possível não ter aprendido com a Grande Guerra, a primeira, e ter-se permitido que apenas vinte e um anos depois tivesse eclodido um novo conflito à escala global?Mais, como foi possível que, no seio de uma Europa supostamente pacificada, emergisse um conflito fratricida nos Balcãs, na década de noventa do século passado?

Hoje, cem anos após Armistício, ainda temos muito que aprender com o vosso exemplo. A segunda Guerra Mundial surge porque a primeira não foi bem resolvida. Os vencidos foram de alguma forma humilhados e isso abriu as portas ao populismo, ao discurso fácil e agitador de massas, ao nacionalismo e à xenofobia. Hitler, que também participou na Grande Guerra, e o seu partido Nazi foram eleitos democraticamente na Alemanha. Apesar de quase seis décadas de prosperidade e paz na Europa, conseguidas através da criação da CEE e, posteriormente, da União Europeia, assistimos ao ressurgimento de nacionalismos e discursos xenófobos em vários países da própria União, nalguns dos quais se traduzem em programas de governo. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, constroem-se muros e travam-se refugiados e migrantes, enquanto no Brasil, para onde o avô chegou a emigrar durante meia dúzia de meses, acaba de ser eleito um presidente que em dado momento adotou um discurso misógino, racista e xenófobo.

Vivemos pois tempos perigosos, nos quais muito facilmente se podem reunir as condições necessárias para acender o rastilho de um conflito, que rapidamente se alastrará, dado o atual contexto de globalização. Há cem anos, a nove de abril, o avô decidiu fazer o que era certo, não o que era mais fácil. Decidiu ficar para trás para proteger os seus, melhorando as hipóteses de sobrevivência de todos. Com o seu exemplo e o de todos os outros que viveram a guerra, em particular daqueles cujas vidas foram ceifadas, esperamos hoje, cem anos volvidos do Armistício, que a vossa memória a todos nós sirva de inspiração para que, coletivamente enquanto cidadãos, não nos permitamos cometer os mesmos erros e para que a história fatídica não se repita.

2018-11-09

* Neto mais novo de Aníbal Augusto Milhais, o 'Soldado Milhões'

  COMENTÁRIOS