Sabia que um quilograma não pesa o mesmo em todo o mundo? Isso vai mudar e é uma decisão de peso

Pode ser difícil de acreditar, mas até aqui era um cilindro com 130 anos, guardado numa cave em França, que definia o que é "um quilograma".

Faz parte de qualquer compêndio de piadas populares a velha "pergunta com ratoeira": o que é mais pesado, um quilo de chumbo ou um quilo de penas? Os mais incautos responderão "um quilo de chumbo", para gáudio do autor da pergunta, que responderá do alto da sua sabedoria que "pesam o mesmo".

Se já esteve numa destas duas posições, fique a saber que pode ter cometido dois erros. O primeiro é que não há "quilos", apenas "quilogramas". O segundo é que, em alguns pontos do mundo, um quilograma de penas e um quilograma de chumbo podem realmente não pesar o mesmo.

A questão promete ser resolvida esta sexta-feira, em Paris, numa mudança que pode ser histórica. O objetivo é que, a partir de maio do próximo ano, o quilograma deixe de ter o peso que tem atualmente.

A decisão caberá ao Comité Internacional de Pesos e Medidas, no qual Portugal também está representado, e que deve aprovar, num debate que começa às 10 horas e que tem transmissão em direto, uma nova forma de calcular o quilograma e outras três unidades de medida.

Um cilindro com 130 anos

A diretora do Laboratório Nacional de Metrologia (LNM) explica que esta alteração é feita porque, até aqui, o padrão do peso para todo o mundo era um cilindro com 130 anos, que está guardado numa cave em França. Tal como alguns vinhos.

"É um protótipo feito de platina iridiada, portanto, a sua massa tem vindo a degradar-se devido a fatores externos. Desde os últimos 100 anos, foram cerca de 60 microgramas", explica Isabel Godinho.

Até agora, todos os países tinham um protótipo deste cilindro, que iam comparando regularmente com o original, mas essas comparações devem agora chegar ao fim.

Isto é não é chinês... mas é física

A solução é a Constante de Planck, uma constante de física que é fundamental para determinar o valor exato do quilograma. "É universal e independente do tempo e do espaço. Ou seja, onde quer que as experiências sejam feitas, em qualquer ponto do globo, o valor obtido vai ser exatamente o mesmo", explica a diretora do LNM.

A utilização deste método vai iniciar-se em maio do próximo ano mas, garante Isabel Godinho, não é preciso acertar as balanças, sejam as de casa ou as de maior escala.

"Quando vamos ao supermercado e compramos um quilograma de maçãs, não estamos muito preocupados se é um quilograma ou se é um quilograma com mais ou menos 60 microgramas", explica.

Estes microgramas, traduzidos matematicamente como uma potência de base 10 elevada a menos seis, tem tão pouca expressão no nosso dia-a-dia que "os instrumentos de medição que eram utilizados antes vão continuar a ser usados".

A mudança na medição do quilograma também tem peso noutras áreas

Não é só o quilograma que passa a ser medido com recurso a constantes físicas. Também o Ampere (A), que mede a corrente elétrica, o Kelvin (K), usado para a temperatura, e o "mol", usado na medida de substâncias, vão sofrer alterações, passando a ser determinados com recursos a constantes.

Tal como no que diz respeito ao quilograma, não vamos sentir mudanças no nosso dia-a-dia. Já no que diz respeito à tecnologia, saúde ou ambiente, esta é uma alteração crucial.

"Não nos podemos esquecer que estamos numa era tecnológica em que, de facto, a nanotecnologia e as nanociências" necessitam de "medições com o máximo de exatidão."

Uma coisa é certa: esta é uma decisão de peso, portanto todos os microgramas contam.

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