"Timor foi o primeiro país a ganhar a independência através dos meios audiovisuais"

A 12 de novembro de 1991, Max Stahl estava no cemitério de Santa Cruz com a sua máquina de filmar. As imagens que captou mostraram finalmente ao mundo o que se estava a passar em Timor. O repórter inglês dedicou os últimos anos a construir um arquivo para contar a história do nascimento da nação, que agora pode ser visto na Universidade de Coimbra.

Max Stahl entra no estúdio da TSF e aproveita os testes de som para fazer uma troca - tira a boina que traz e põe um boné com a bandeira de Timor-Leste. A bandeira dele. O repórter que captou as imagens do massacre de Santa Cruz escolheu Timor para viver e assumiu a missão de criar um arquivo de imagens e filmes que conte a história do país.

Este "arquivo do nascimento da nação", como lhe chama, começa em 1991, o ano em que chegou ao país pela primeira vez para fazer um filme sobre um povo em luta, ignorado pelo mundo. Com a destruição em 1999, muito se perdeu e o repórter quis devolver a Timor o testemunho dos que lutaram e já partiram.

Depois percebeu que o nascimento de nação não acontece com o hastear de uma bandeira. "Esta história continua porque é uma história do Passado mas também é uma plataforma de diálogo entre diferentes gerações", conta, "é esta a magia de um arquivo: mesmo os mortos estão vivos. Podemos vê-los e ouvi-los. Mesmo essas pessoas que sacrificaram tanto por Timor podem participar no nascimento da nação. Isso tem impacto real."

Esta história, que continua a construir-se num diálogo com o Passado, vai agora chegar a mais gente. Um protocolo com a Universidade de Coimbra vai permitir disponibilizar online o arquivo de imagens que construiu ao longo de mais de 25 anos. São mais de 5000 horas de material de vídeos, que cresce 400 horas por ano.

O arquivo-mãe, no Centro Audiovisual Max Stahl, vai continuar em Timor-Leste. É considerado pela UNESCO como Registo da Memória do Mundo. "Timor foi o primeiro país na História a ganhar a sua independência através dos meios audiovisuais. É isso que a UNESCO reconhece", afirma Max, "é uma questão técnica, mas que muda tudo."

Imagens que mudam o mundo

Imagens como as do massacre de Santa Cruz, que mostraram o que realmente se passava em Timor. Max é modesto quando lhe perguntamos se sente que mudou o curso da História. "Quando vi os timorenses morrerem à minha frente, também eu senti que podia fazer qualquer coisa para valorizar o sacrifício deles, mas também para contar ao mundo como eram aqueles que morreram."

Desse dia, escondido no meio das campas, enquanto tentava filmar tudo o que acontecia perante os olhos dele, só pensava numa coisa: "Não vou falhar. Não posso! Porque se não, porque é que eu estou aqui?". Para conseguir libertar aquelas imagens, Max teve de esconder as fitas numa campa. Entregou-as depois a uma holandesa, que teve de escondê-las também na roupa interior com medo que fossem apreendidas.

Hoje, os meios são outros. Estamos em direto de qualquer lado do mundo. Mas o repórter defende que é preciso mais do que isso. "Um jornalista que queira realmente contar a história dos oprimidos no mundo, provavelmente vai encontrar obstáculos. E, para contar essa história, provavelmente vai ter de sair do caminho normal. Atualmente, o problema é que há uma diferença enorme entre a maneira de fazer o jornalismo do dia-a-dia e o que é preciso para contar uma história difícil. Temos muito pouco trabalho investigativo."

Para investigar é preciso tempo. Max defende que isso é o que mais falta aos jornalistas hoje. E depois, é preciso pôr a imagem no contexto, não a banalizar; contar a história e transportar as pessoas para dentro dela. Foi esse o trabalho que fez em Timor, onde investiu todo o tempo que pôde. Depois de uma primeira passagem 1991, regressou em 99, no ano 2000 e em 2002, na altura da independência do país - o que ninguém achava que fosse possível.

Timor, um país em construção

Nas semanas anteriores ao massacre de Santa Cruz, Max Stahl recolheu testemunhos de políticos, académicos e repórteres de todo o mundo, materiais para o filme que queria construir sobre Timor. Dessa altura, recorda que ninguém acreditava na independência. "Não encontrei uma única pessoa que acreditasse nessa possibilidade. Os únicos que acreditavam eram os timorenses. E aconteceu."

Mais de 20 anos depois, o repórter olha para Timor como um país em construção. "E essa construção vai demorar", garante. "Muitas pessoas perguntam-me: 'qual é o maior problema de Timor?'. O maior problema é a gestão. E a gestão aprende-se ao longo de uma vida, uma educação de 20 ou 30 anos e a seguir a experiência 20 anos. E mesmo assim, muitas vezes não se consegue. Em Timor, a grande maioria dos gestores não tem preparação nem experiência e não fazem um bom trabalho."

Há problemas na Justiça, na Educação, na Política. Mas Max garante que nem tudo é mau. Por exemplo, recentemente a Freedom House considerou Timor como o único país na Ásia Sudeste que é livre. E daqui o repórter tira uma conclusão: "Timor ganhou a sua longa luta".

O resto, é um caminho que é preciso continuar a percorrer. Uma nação não se faz no papel, lembra Max, muitas vezes não tem lógica, vai-se construindo.

Ele assumiu a missão de contar esta história, que não é propriamente a que vem escrita nos livros; é a história dos timorenses. "São pessoas que ficaram 'mudas'. A história escrita não é aquela em que as pessoas falam."

Max lembra um momento em 1999, o ano em que entrou ajuda internacional em Timor. Quando desceu as montanhas, onde esteve sozinho com os combatentes, viu os helicópteros a chegar. Os indonésios continuavam nas ruas, com os camiões, "armados até aos dentes". O repórter reparou em três meninas, sentadas junto ao cais, a cantar canções timorenses. A voz delas sobrepunha-se ao som dos helicópteros, aos gritos, à confusão em volta. Max ligou a máquina e filmou.

Passados 20 anos, foram à procura delas. Na altura, tinham cerca de 15 anos. Hoje têm filhos. Sentaram-se no mesmo sítio, junto ao cais e voltaram a cantar. "Uma delas chorava enquanto contava que naquela altura, por pouco escapou a soldados indonésios que a queriam violar. Quando chegou ali e viu os indonésios e os australianos, já não tinha medo de nada. 'Era como se dissesse: nós estamos aqui!'. Eis uma pequena história da vida de três pessoas ao longo de 20 anos. Para mim, isto é fantástico."

É por isto que Max luta pelo arquivo, para contar as histórias a que se dedicou toda a vida, histórias de pessoas. Demore o tempo que for, podem passar 20 anos. Max acredita que vale a pena.

A apresentação do arquivo do Centro Audiovisual Max Stahl na Universidade de Coimbra tem lugar na quinta-feira, 21 de fevereiro, às 16h, na Sala do Senado da Reitoria e conta com a presença do repórter.

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