Um dia numa fábrica de pólvora negra

Fábrica desativada há 16 anos sofreu várias explosões, mas mantém-se de pé para contar a história.

Em finais do século XIX, a industrialização chega ao bucólico e recôndito "Vale Milhaço de Baixo" pela mão de Libânio Augusto d"Oliveira, um industrial experiente, que assistiu à destruição massiva de vidas e da Fábrica, em 1897. Renasceu das cinzas com um elevando nível tecnológico, mais aperfeiçoado que o da fábrica estatal de Barcarena, Oeiras, chegando mesmo a dar-lhe cartas. Com envolvência de capital alemão, maquinaria fornecida pela firma Krupp - assumindo esta também, a reconstrução do complexo fabril, que hoje compõe o Circuito da Pólvora - e seguindo um plano industrial inovador, a Krupp garantia a produção média diária de 1.000 kg diários. Em 1900, para fixar os operários, constrói-se o "Bairro da Fábrica", berço de várias gerações de operários, infelizmente já destruído.

África será o mercado preferencial, como designado no nome: "A Companhia Africana de Pólvora". Sob gerência portuguesa, iludindo as medidas de protecionismo contra as importações estrangeiras, neste caso de pólvora negra, promulgadas na pauta alfandegária de 1892, após o Ultimato Britânico. Em 1899, produz já 438.974 kg de pólvora negra, superando a média prevista.

A primeira máquina a vapor é substituída por uma mais potente, da firma Joseph Farcot, de 1900, de fabrico francês (ainda em laboração).

Lutando contra as crises políticas e económicas que grassam à sua volta, a Companhia, apanhada na teia de proteção dos interesses da fábrica de Barcarena e pelo vórtice despoletado durante a Primeira Grande Guerra, acaba por sucumbir.

Em 1921 é comprada em hasta pública. Em pouco tempo a sua direção é assumida Francisco Camello. A "Sociedade Africana de Pólvora" torna-se uma empresa familiar. A família Camello estará à frente dos seus destinos, diversificando a produção ao criar novas oficinas para produção de rastilho (1940) e cordão detonante (1954). Com o fim da guerra colonial em África e o encerramento de minas e pedreiras em Portugal, anuncia-se o declínio da rentabilidade comercial, apesar da procura de novos mercados com a entrada de Portugal na União Europeia. No dealbar do séc. XXI, comercialmente em turbulências, cercada por vivendinhas e ultrapassada tecnologicamente, a Fábrica engrossou o número das empresas apanhadas pela onda de desindustrialização que varreu a "Margem Sul". Em 2003, encerra as portas.

Hoje João "Gil", ex-fogueiro e Francisco Moura, maquinista, o atual guardião do espaço e história da Fábrica, guardam recordações dos momentos áureos, mas que foram também, ao longo de mais de um século, intercalados por momentos negros, muito negros: as explosões. E, como na Fábrica "eram uma família", todos os operários sofreram com a morte de familiares. Dedicada e trabalhadora, a "família" da Fábrica teve uma forma muito peculiar de lidar com tudo, de continuar o seu caminho e vencer as adversidades, sujeitando-se a tudo, sofrendo na pele, percorrendo os carreirinhos que os levavam e traziam à Fábrica.

Conheça a história de Francisco Moura e da fábrica de pólvora negra de Vale de Milhaços

* Texto da autoria de Margarida Pogarell, escritora e professora de português na Alemanha.

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