Furto em Tancos

Quem sabia o quê? Memorando entregue à justiça pode ajudar a explicar

O documento entregue pela PJ Militar ao ex-chefe de gabinete do ministro da Defesa sobre o furto de Tancos mostra que houve uma encenação da recuperação do material furtado, o que Martins Pereira estava obrigado a comunicar ao Ministério Público. Azeredo Lopes já declarou que o seu antigo chefe de gabinete agiu "de acordo com o que considerou ser o seu dever".

O jornal Expresso e a revista Sábado revelam que o memorando em causa tem apenas duas folhas A4, que nem são de papel timbrado (algo que nunca poderia acontecer se o documento tivesse sido elaborado a pedido do Ministério da Defesa), não tem data, nem carimbos e não foi assinado. Mas terá sido este o documento que o antigo chefe de gabinete do ministro da Defesa, o tenente-general Martins Pereira, recebeu em novembro de 2017, e que agora entregou ao DCIAP. Um documento que confirmará a encenação na recuperação das armas que terão sido furtadas dos paióis de Tancos.

Em declarações ao jornal Público , o ministro da Defesa afirmou que o seu antigo chefe de gabinete "agiu, com certeza, de acordo com o que considerou ser o seu dever", não confirmando, no entanto, se terá visto o memorando de que agora se fala.

De acordo com as duas publicações, o memorando é explícito: revela que a Polícia Judiciária (PJ) Militar tinha um informador que se comprometia a entregar o material roubado, se a Polícia Judiciária civil - o órgão encarregado de investigar o caso - não fosse envolvida. É ainda referido que a chamada que o piquete recebeu na noite em que as armas teriam sido descobertas foi encenado, a mando do ex-porta-voz da PJ Militar, o major Vasco Brazão.

No documento não existirá, no entanto, qualquer referência ao envolvimento dos três militares da GNR de Loulé, entretanto também constituídos arguidos no caso.

O Diário de Notícias escreve que a informação do documento obrigava o tenente-general Martins Pereira a informar o Ministério Público, algo que o antigo chefe de gabinete do ministro Azeredo Lopes fez apenas agora - quase um ano depois -, mas também que a documentação não consta do arquivo do Ministério da Defesa.

António Martins Pereira admitiu pela primeira vez , em entrevista à RTP, ter documentação referente à reunião no Ministério da Defesa com o ex-diretor da Polícia Judiciária Militar, o coronel Luís Vieira, e com o major Vasco Brazão, documentação essa que só esta quarta-feira entregou ao DCIAP.

O tenente-general garantiu que agora foi entregue às autoridades a "documentação verdadeira" - dando a entender que Vasco Brazão, que já pediu para ser ouvido novamente pelo tribunal, pode surgir com documentação diferente.

O advogado do major Brazão, Ricardo Sá Fernandes, já veio publicamente afirmar que há apenas um documento em causa - o único que existe - e que espera que Martins Pereira honre a verdade.

Já o primeiro-ministro António Costa reafirmou, esta quarta-feira, durante o debate quinzenal no Parlamento, que o ministro da Defesa e o próprio desconhecem o documento, agora nas mãos das autoridades judiciais.

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