Aula de assobio: Pode o assobio ser uma arte?

"Assobiar para o ar" é uma expressão que, em Leiria, perde algum sentido e ganha forma de arte, na SAMP-Sociedade Artística Musical dos Pousos. Desde setembro tem uma disciplina de assobio. Uma aula a que a TSF assistiu com o repórter Mário Freire.

Em plena sala de aulas, junto ao piano, a aula começa com exercícios de relaxamento, ao nível do desprender de braços, rodando a cabeça enquanto descomprime a cervical. Ginástica facial com movimento dos lábios e, "descontrair a barriga, olhe essa caixa-de-ar", lembra a professora Isabel Catarino.

Reportagem de Mário Freire

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Célia Simões é a única aluna deste curso, assobia desde que se lembra, não sabe bem quando, nem como é que começou... Certo é que assobiar, faz parte do dia a dia, desta empregada comercial, que aos 51 anos "quis aprofundar a técnica do sopro vocal". E procurou a Escola de Música dos Pousos para este "desafio" que considerou "invulgar".

Um sentimento que é confirmado pelo director artístico da escola, Paulo Lameira que vê na escola "um agente dinamizador e cultural da região", que entende "deve ter sempre as portas abertas às pessoas e novos projectos".

Foi o que aconteceu. Ainda que ao início de forma muito desconfiada, pensado mesmo "tratar-se de uma ideia louca, de um pessoa desnorteada, sem saber bem o que quer", quando ouviu falar em aulas de assobio.

Depois de uma primeira reunião, que serviu de mini-audição, que impressionou o maestro, pela vontade e convicção, demostrada pela futura, "que demonstrou uma serenidade enorme, muita cultura geral" e reconhece que ela lhe "deu uma lição tremenda de vida".

O que o deixou com um bom problema... Pois não havia nenhuma disciplina de assobio. A solução passou pela aula de canto, "à qual assistiu a muito pouco, 10 ou 12 minutos... para dizer que não queria cantar... queria assobiar", lembra Paulo Lameira.

Célia Simões, não se intimidou. Queria aprender assobiar e explica porquê, "queria explorar o que sei fazer desde sempre, que é assobiar, mas de forma correcta, com interpretações de músicas de vários estilos. Queria acima de tudo uma noção mais técnica e académica", por isso recorreu à escola de música.

Estávamos em maio e, perante esta vontade da aluna, o director musical, resolveu experimentar... esperançado que "esta ideia lhe passasse" no com a interrupção das férias de verão.

Estava redondamente enganado... pois no início do ano lectivo, lá estava Célia Simões para se matricular... o que levou a escola de música a fazer coisa "de uma forma mais séria", refere o director musical. No fundo obedecendo aos princípios académicos. Mas certo é que "não existe nada do género, o mais parecido é no oriente e estados unidos com campeonatos e concursos de assobios. Sem qualquer tipo de matriz, o mais próximo do assobio, "é a flauta e o canto.

Isabel Catarino é professora de canto a quem coube este desafio, com o qual reconhece também "está aprender". Com variantes que passam pela música clássica ou jazz, visitam o reggae o pop e a electrónica... Em Leiria "não se assobia para ar", explora-se uma sonoridade para a transformar em arte.

A Sociedade Artística Musical de Poussos-Leiria, conta com 140 anos de história e tem-se destacado pela irreverência, em projectos com concertos para bebés, que este ano vai ter pela primeira vez a vertente electrónica, é responsável pela musicoterapia no hospital de Leiria e, a música na prisão escola de Leiria.

Conta com um universo de cerca de 300 alunos, sendo que 102 destes tem idades dos zero aos cinco anos, contam com um corpo docente de 27 profissionais.

No início deste ano lectivo, sentiram os cortes por parte do estado, mas orgulham-se de não ter perdido "nem alunos, nem professores" mantendo a dinâmica dos últimos anos. Para isso contribui a sensibilidade de todos. Os professores tiveram uma redução salarial de 23%, e os alunos que pagavam (com o estado assumir verbas), passaram a ter um custo de 15 euros mensais.

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