Para cá do Sol posto, onde a luz tarda em chegar

Em pleno século XXI, ainda há famílias sem electricidade, em montes isolados no Alentejo. Pelos trilhos da serra de Serpa e das planícies de Ourique, a reportagem TSF foi ver como se vive sem energia eléctrica.

A água escorre das mãos frias e gretadas de Arlinda. Sob um precário telheiro erguido pelo marido, os baldes, alguidares e bidões de água amontoam-se junto à pedra que usa para esfregar a roupa. Apesar da manhã cinzenta de inverno, Arlinda dispensou as luvas de borracha, na tarefa diária de lavagem manual da roupa.

"É o meu desporto", afirma quem vive há mais de 30 anos sem energia elétrica, num monte isolado na serra de Serpa, a poucos quilómetros do Pulo do Lobo, em pleno Parque natural do Vale do Guadiana. Aqui, não há vestígio da estrada de alcatrão. Não existem placas a indicar o caminho, o GPS e a rede de telemóvel nem sempre funcionam e os socalcos marcados pela passagem dos tractores exigem um veículo com carroçaria alta.

"As condições são as mesmas dos meus antepassados", descreve João Afonso, o marido de Arlinda. A lenha e a água são transportadas monte fora, enquanto para beber, vai-se a um poço, junto às canas. A única diferença é que "antes era com um burro e agora, venho num tractorecozico velho".

João e Arlinda contam com a energia captada por um painel solar, suficiente para carregar o telemóvel, mas em caso de necessidade, o aparelho é ligado ao carro. Sem máquinas de lavar ou outros electrodomésticos, Arlinda e João sentem-se sozinhos, presos no tempo. "Há dias que só se ouvem os pássaros cantar. É o meu penar", lamenta ela. "Aqui não há nada. Quem tem luz, pode ter todas as condições, como um ferro de engomar. Mas também já não é como dantes". No passado, a família usava um ferro a carvão. Nos dias de hoje, evoluiu para um ferro a gás.

O monte perdido na serra de Serpa é um dos que deverá receber electricidade até 2020. Mas Arlinda nem sonha como a vida pode mudar. "Nunca experimentei, nunca tive (luz). Quando diziam isto está em crise, eu não achei diferença. A minha vida foi sempre em crise, eu estive sempre em crise. Porque quando o Sol nasce, deve ser para todos, mas não é. Às vezes não é".

No concelho de Serpa, serão beneficiados 25 montes, enquanto em Ourique, a luz deve chegar no final do ano, a 38 locais. Em Santa Luzia, no concelho de Ourique, Paulo Brito vive sozinho no monte da Corte Preta, que herdou dos pais. Ao contrário de João e Arlinda, este professor aposentado, de 63 anos, escolheu mudar-se da cidade para o casarão, onde os quartos se sucedem ao longo de um corredor que encontramos na penumbra.

Paulo gosta de ler sentado à janela por onde entra a luz do dia. Quando a noite cai, e só se ouvem os cães a ladrar, acende um pequeno candeeiro com lâmpadas LED - "gastam muito pouco", explica. Quatro painéis solares garantem a energia que não chega para alimentar o frigorífico. "Tenho um frigorífico, mas não funciona, porque não há rede eléctrica. A televisão trabalha 10 minutos e depois é preciso ligar o gerador". Paulo prefere ligar o rádio a pilhas, que muitas vezes o acompanha na cama.

"É uma companhia excepcional. Não preciso de usar os olhos. Fico só a ouvir". Nas noites mais frias, acende uma fogueira na chaminé pintada de manchas escuras. O problema é que "se acender o lume, faz muito fumo. Então, tenho de abrir uma janela. Se tivesse luz, podia ter um ventilador", lamenta Paulo, que quando quer lavar-se, aquece a água no fogão a gás. "Não temos condições para tomar banho. No Verão, é com água fria. De resto, aquece-se a água nuns tachos".

Paulo Brito levanta-se cedo para cuidar dos animais. Além das 300 ovelhas, comprou recentemente dois cavalos, a quem dá de beber com a água armazenada num grande depósito com capacidade para 10 mil litros. Para encher o depósito, necessita de um potente gerador, uma vez que não pode ter uma bomba eléctrica para captar água do poço.

"Estas pessoas ainda vivem como há 40 ou 50 anos. Praticamente no meio da nada, ainda vivem da agricultura familiar, com fracos recursos e fracos acessos", afirma Joaquim Falé, antigo militar da Marinha, que anseia pela chegada da energia eléctrica. Foi com esse objectivo que nasceu em 2017, a Associação de moradores da Neta e do Pulo do Lobo, da qual é presidente. No monte Vale do Linho, Joaquim tem painéis solares e energia eólica. "Remedeia, mas não é suficiente nem fiável".

A manutenção fica cara e "sem luz nem vento, é preciso ligar o gerador a gasolina. Quem diz que as pessoas do campo têm as mesmas condições, é mentira", protesta Joaquim, apaixonado pela serra de Serpa, onde quer ficar até ao fim dos seus dias.

Aqui, não há crianças

A estação da Funcheira, no concelho de Ourique, enche-se no Verão, por alturas do Festival Sudoeste. No Inverno, é ponto de encontro para os homens da terra, que esticam a conversa à mesa do café. É a partir da estação de comboios que nos embrenhamos pelos terrenos sem fim à vista, atrás de José Luís Nobre, em direcção ao monte Vale de Mós.

Junto à casa, um imponente moinho de vento, hoje desactivado, lembra "os moinhos dos cowboys". Ninguém mora aqui, mas José Luís tem um sonho antigo: voltar à casa onde cresceu. "Com a luz, estou a pensar arranjar o monte para vir para cá morar. Sou muito feliz aqui. Quando vou a Lisboa, estou desejando despachar-me para me vir embora. Aqui, ouvem-se os passarinhos, o gado, o vento. Ouve-se tudo e gostamos do que ouvimos."

Os três filhos de José Luís dedicam-se à terra, mas o agricultor não esconde o desabafo "o campo e o interior são muito esquecidos. Vive-se muito em função de Lisboa e das grandes cidades. Os mais velhos vão ficando, mas os mais jovens vão abandonando".

A escola primária de Cabeceiras de Vale Queimado, na serra de Serpa, está fechada há mais de 30 anos. É usada por caçadores e para convívios da Associação de moradores da Neta e do Pulo do Lobo. O vice-presidente, António Manuel Alves, mostra-nos as antigas salas de aula, onde os quadros de giz resistem ao tempo.

"Acabou-se. Agora, já não há nada. Aqui não há adultos, quanto mais crianças", queixa-se António. "Se não forem criadas condições para se habitar, é muito difícil. Por isso, é que a luz é uma mais-valia". Com 75 anos, António produz vinho, no monte da Corga dos Cardos, depois de ter investido quase 10 mil euros em baterias e painéis solares. "Tenho uma ocupação, porque se ficarmos sentados no sofá, depressa se morre".

Um dos primos de António, Raul Afonso, vive também da exploração agrícola num pequeno monte onde a luz ainda não chegou. Sozinhos, Raul e a mulher Irene Palma, cuidam de centenas de ovelhas, cabras, porcos, patos e galinhas. A guardá-los, 16 cães, alguns de grande porte, a fazer jus ao nome de Leão ou Tarzan.

Nos montes, todos têm cães, explica Joaquim Falé, "por causa dos predadores, raposas, saca-rabos, que atacam as crias". O dia começa cedo, com a ordenha, e só termina 15 a 18 horas mais tarde. Quando o trabalho se prolonga, Raul e Irene dormem numa caravana velha. "Isto não é viver, é sobreviver", lamenta o primo António. "Isto é tudo para vender", conclui Irene, enquanto Joaquim vaticina "se não criarem condições para os jovens, quando acabar esta geração, a agricultura na serra morre".

Sozinhos no escuro

A EDP Distribuição é responsável por 85% do investimento que vai levar a luz aos concelhos de Ourique e Serpa. "É um esforço grande de investimento, para situações muitos dispersas, de grande isolamento", salienta Luís Freitas, o responsável das redes e clientes da empresa, no distrito de Beja. A partir de Julho, as máquinas estarão no terreno, em Ourique, para construir 17 quilómetros de média e baixa tensão e 11 postos de transformação.

"Não são projectos que se fazem num mês. Podem levar um ano ou mais, desde o levantamento das necessidades, planeamento e identificação dos materiais de construção". No terreno, estará uma equipa permanente de 30 pessoas, com máquinas, camiões, sendo necessário abrir "covas para colocar apoios de betão com alturas de 18 a 20 metros. O processo não pode ser muito acelerado, para garantir a segurança das pessoas", avisa Luís Freitas. A EDP Distribuição conta que "até ao final do ano, todos tenham energia" em Ourique. No concelho de Serpa, o processo deverá estar concluído em 2020.

"Se for para o ano, já não é mau", ri-se Almerindo Pereira, recordando os atrasos na primeira fase de electrificação. Proprietário de uma das maiores explorações agrícolas do concelho de Ourique, Almerindo está a tratar dos bezerros, na Quinta da Zorra, em Panóias.

Nos 200 hectares da herdade, produz milho, tomate, borregos e bezerros. Em anos bons, a produção de tomate ultrapassa as 120 toneladas, mas entre máquinas, tractores, alfaias agrícolas, recolhedoras e motores de rega, Almerindo gasta mais de mil litros por dia em gasóleo. São os geradores espalhados pela quinta que substituem a energia eléctrica.

Contas feitas, são mais de cem mil euros por ano em gasóleo. Almerindo sente-se esquecido, mas aos 74 anos, mantém o ânimo. "Nem que tenha de vender vacas", vai arranjar os 12 mil euros necessários para fazer chegar a luz à propriedade. "A gente não pode é ficar às escuras. Onde não há luz, estamos às escuras, não é assim?"

A nova geração

Nem só de idosos vivem a agricultura e as habitações onde a luz ainda há de chegar. No monte Vale das Romeiras, em Panóias, Isaque Martins, 39 anos, cria vacas e ovelhas. Foi na casa sem energia eléctrica que cresceu, quando a família veio de Moçambique. Partilha memórias com a irmã, dos tempos em que brincavam às escondidas, com desenhos e os trabalhos da escola eram feitos à luz da vela. "Nesse tempo, nem (tínhamos) telefone, quanto mais computador! Agora, poder carregar num botão e acender uma luz é uma diferença muito grande".

Isaque estudou em Beja, mas a verdade é que o coração nunca saiu daqui. Foi sempre um filho da terra. "Ao fim de semana, queria era vir para o monte com o meu pai. Sempre tive uma doença pela agricultura. Apanhava todos os bocadinhos, para vir a caminho do monte. Sempre gostei do campo e dos animais e quem faz o que gosta, é meio caminho para se ser bom naquilo que se faz".

Desde que lhe roubaram 47 ovelhas, Isaque dorme mais vezes numa das duas casas em Panóias. Uma delas foi electrificada há cerca de três anos. "Agora, consigo ter um frigorífico. Foi um dos eletrodomésticos mais importantes para ter na exploração". A casa acolhedora também está equipada com micro-ondas, torradeira, televisão e computador. "Hoje estamos aqui, mas estamos ligados ao mundo", declara com um sorriso confiante. "Custou, mas já me sinto no século XXI".

A segunda casa de Isaque, o monte onde cresceu, será uma das contempladas na fase que vai fechar o ciclo de electrificação em Ourique. E o agricultor já tem planos. "Havendo luz, estou a pensar num projecto de turismo rural, para não deixar o monte estragar-se. Porque aquele monte tem uma história de vida, foi ali que fui criado". Com a chegada da luz, Isaque espera criar 10 postos de trabalho no investimento de turismo rural. "Se correr bem, já vai ser um Natal com projectos para o futuro".

Outro filho da terra, Paulo Marques, 42 anos, foi emigrante na Suíça. Aí tentou a sorte, depois de uma infância iluminada por candeeiros a petróleo e gás. "Brincava-se na rua, com pedrinhas. Não chegámos a ter brinquedos, mas nem pensávamos nisso", recorda sem arrependimentos.

As saudades encurtaram a experiência no estrangeiro e hoje, com uma empresa de terraplanagem, Paulo não pensa sair do Alentejo. O monte onde ainda vivem os pais foi electrificado recentemente. "Comprámos um frigorífico, uma arca. Fizemos uma casa de banho com água quente". A energia eléctrica acabou com um mundo de sombras, em particular para os pais. "Há 20 ou 30 anos que falavam nisso e pensavam que iam embora (sem electricidade), mas conseguiram ver a luz e ficaram todos contentes".

O isolamento dos montes atrai cada vez mais estrangeiros, como a suíça Daria Boom. Já trabalhava com cavalos e trouxe 9 animais bem treinados, a pensar num projecto de hipoterapia na serra de Serpa. "Gosto muito de estar isolada. Dá-me calma, para fazer o meu trabalho e as minhas coisas espirituais. Posso viver muito bem aqui. Estamos aqui há um mês e com electricidade é mais fácil", conta risonha.

Quando se mudou para o Alentejo, Daria começou por viver num monte sem luz. Agora, no novo espaço, basta entrar em casa para se sentir a diferença. A lareira elétrica e a voz de Luciano Pavarotti, que se solta da aparelhagem de som, aquecem a sala de estar iluminada. "Agora posso ouvir música clássica o dia todo", conta Daria. No outro monte, "precisava sempre de um gerador e não é a mesma coisa ouvir música com um gerador em fundo", afirma bem-disposta. "Gosto de estar aqui. Sinto-me mesmo em casa, pela primeira vez na vida".

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