
reportagem sobre inimputaveis na clinica psiquiatrica da cadeia de sta. cruz fernando oliveira
Fernando Oliveira / Arquivo Global Imagens
É uma das perguntas a que um curso do estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo procurou dar resposta. A formação era dirigida aos guardas prisionais que trabalham na clínica psiquiátrica com os inimputáveis.
Hélder Sousa foi durante muitos anos guarda prisional da clínica de Santa Cruz do Bispo. Enquanto trabalhava, era também estudante. Tirou o curso de sociologia. Agora é Técnico Superior de Reeducação. "Temos que tratar de quase tudo, controlar prazos, preencher o papel, comunicar com a família, elaborar o plano terapêutico, traçar o percurso que vai fazer cá dentro, fazer a monitorização do plano, preparar o internado para quando sair poder ser reintegrado".
Nesta formação destinada aos Guardas Prisionais da Clínica de Psiquiatria de Santa Cruz do Bispo, Helder Sousa dá um módulo sobre o doente mental em meio prisional. "Como reagir quando descompensam, como falar com eles? A arma de quem lá trabalha é a palavra", diz Helder, explicando que, no fundo, se pretende ajudar a comunicar "com pessoas que têm problemas psíquicos".
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E se cada caso é um caso, há algumas recomendações que são sempre válidas, como "falar baixo, deixar falar, deitar cá para fora, porque muitos precisam de atenção".
O ambiente na sala de aula é de silêncio para ouvir o antigo guarda, agora Técnico Superior de Reeducação. "O tempo do carcereiro, de abrir e fechar portas já lá vai há muito. O papel do guarda é mesmo importante. Quando há um problema é ao guarda que recorre", sublinha.
Que o diga Nelson Marques, chefe principal dos guardas da clínica de Santa Cruz do Bispo: "Eles consideram-nos de uma forma diferente da população reclusa normal, não somos encarados como um entrave à liberdade. Somos muitas vezes a última família, o último amigo".
Tal como o chefe Nelson, também Óscar Vieira está a trabalhar na clínica de Santa Cruz do Bispo há apenas um ano. "Precisam muito da nossa atenção, que a gente os ouça", reforça.
Hernâni Vieira, o diretor do estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, era um homem satisfeito pelo facto desta formação ter suscitado o interesse de muitos guardas prisionais. "São os primeiros a aderir, em estar interessados em perceber o que é a psicopatolgia, a doença mental, o que podem fazer em situações limite, de agressividade".
Mas afinal quem são estes mais de 150 inimputáveis que aqui estão? São "portadores de anomalia psíquica, com diagnóstico de esquizofrenia, psicoses diversas, que os levaram a praticar um crime".
Filipa Veríssimo é uma das psiquiatras que aqui trabalham, acompanhando os doentes. "Tem sido um desafio muito grande e muito bonito. É uma forma diferente de trabalhar. É um ambiente mais tenso, mais barulhento que o contexto hospitalar, mas são doentes que ficamos a conhecer muto melhor", adianta.
Um dos objetivos desta formação é fazer pontes entre os diferentes profissionais da clínica: guardas prisionais, psiquiatras, enfermeiros. Helder Sousa aconselha a que se promova essa inter-relação e sublinha que as "medidas especiais de segurança não são castigos".
Definem-se conceitos, ajustam-se dúvidas, corrigem-se defeitos de linguagem e de postura. A reintegração na sociedade destes doentes é muito mais difícil do que a de um recluso em regime normal. O diretor de Santa Cruz do Bispo explica que por vezes a retaguarda no exterior é muito deficitária.
Aqui dentro, alguns trabalham, outros não têm sequer capacidade para isso. Sergei é um dos 158 inimputáveis de Santa Cruz do Bispo. Trata das ovelhas e das vacas, que produzem 120 mil litros de leite por ano. Uma produção que a cadeia vende ao exterior, tornado útil o trabalho destes homens.