Um em cada três portugueses sofre com elas. Saiba como controlar as alergias para viver bem

Alergias, mais alergias, alergias mais graves... "Na escola dos meus filhos, no café onde vou, no supermercado, no trabalho, no cinema, no parque e na praia... para onde vou há sempre alergias. Será verdade?"

É mesmo verdade... No início do século XX a alergia era uma doença rara. Hoje, 1 em cada 3 portugueses tem pelo menos uma doença alérgica. Estão no Top 5 das doenças crónicas mais frequentes em todas as idades. E se o número de pessoas com doenças alérgicas aumentou muito nas últimas décadas, a tendência é aumentar ainda mais. De tal forma que se estima que, em breve, metade dos europeus possa sofrer de alergias. E nós não seremos exceção.

Mas de onde vêm tantas alergias?

As alergias dependem da interação entre os genes e o ambiente. Filhos de pais alérgicos têm maior probabilidade de terem também doenças alérgicas. E se forem os dois pais alérgicos, esse risco aumenta até 80%. Numa criança de uma família sem alergias o risco é de apenas 5%. É assim muito frequente encontrarmos pessoas na mesma família com várias alergias.

Mas os genes não explicam tudo. O ambiente em que vivemos tem um papel fundamental. Só assim se pode explicar o aumento tão pronunciado, em décadas, no número de pessoas com alergias. Mas porquê? O que mudou? Mudou muito o nosso estilo de vida. Mudámos para melhor, mas a vida nas cidades com mais poluição, a exposição ao fumo do tabaco, passar mais tempo dentro de casa, com cada vez menos atividades ao ar livre, o uso exagerado de antibióticos, as alterações na nossa dieta... todos os fatores externos em conjunto com os nossos fatores individuais contribuem para o aparecimento mais frequente de alergias e de alergias mais graves.

"Alergias! Será coisa de criança"?

Ninguém está "imune". É verdade que a maioria das doenças alérgicas começa durante a infância. Mas a alergia pode ter início em qualquer idade. Pode surgir de forma inesperada ou ir crescendo de forma lenta. É importante estar atento e valorizar as queixas. Quanto mais cedo for identificada uma doença alérgica, mais fácil será controlá-la e menos impacto terá nas nossas vidas. Desde o bebé ao bisavô...

Alergia: uma ou várias doenças?

As doenças alérgicas são doenças crónicas, que podem afetar vários órgãos ou variar ao longo da vida. É por isso mais fácil falar no plural. Rinite, conjuntivite, asma, dermatite atópica são várias doenças alérgicas frequentes. E muitas vezes surgem em conjunto na mesma pessoa. Das pessoas com rinite, 50 a 70% também têm conjuntivite alérgica. A rinite aumenta em 2 a 3 vezes o risco de desenvolver asma. Entre as crianças com dermatite atópica, 1/3 pode vir a ter asma. Por regra, quanto mais graves forem estas doenças alérgicas e mais cedo se manifestarem, maior será o perigo de vir a desenvolver outras doenças alérgicas. Por isso é muito importante identificar corretamente o problema para o podermos controlar.

E quais são os sintomas/sinais das doenças alérgicas?

Dependendo dos órgãos afetados, as doenças alérgicas dão queixas diferentes. A rinite é a doença alérgica mais frequente. Comichão no nariz ou na garganta, espirros, nariz a pingar ou a "fungar", ou nariz entupido são algumas das queixas mais referidas. Episódios de tosse ou de pieira/chiadeira no peito, cansaço com o esforço físico, sensação de peso no peito ou falta de ar são queixas resultantes da inflamação nos brônquios em casos de asma. Já a conjuntivite alérgica manifesta-se por comichão nos olhos, olhos vermelhos ou a chorar. Na pele, as alergias podem ser responsáveis por vermelhidão, comichão e pele seca a descamar nos casos de dermatite atópica.

Uma característica comum é que as alergias se repetem no tempo. Se existem estes episódios repetidos, estes sintomas que melhoram e pioram e voltam a aparecer outra vez, devemos procurar ajuda junto do médico. Existem formas eficazes e seguras de prevenir novos episódios... e passar bem.

A alergia pode ser grave?

As doenças alérgicas podem ser ligeiras, moderadas ou até mesmo graves, com sintomas que, se não forem controlados, afetam muito a qualidade de vida. Desde a rinite grave, à conjuntivite, asma ou dermatite atópica grave. Não podemos também esquecer que, na sua forma mais grave, a alergia pode também afetar de forma súbita vários órgãos ao mesmo tempo: a pele, a respiração, o aparelho digestivo (dor de barriga, náusea, vómitos ou diarreia) ou até cardiovascular (com pressão arterial baixa ou mesmo desmaio), que pode surgir, por exemplo, em casos de alergia a alimentos ou a medicamentos, ou mesmo a outros estímulos, incluindo até o próprio frio ou picadas de insetos. Nestes casos falamos de anafilaxia, uma forma de alergia que é uma emergência médica. Precisa de ser tratada rapidamente com adrenalina sob risco de poder ser fatal. Para controlar estas doenças, é importante ser avaliado pelo médico especialista em doenças alérgicas, o imunoalergologista.

Afinal o que são alergias?

As alergias correspondem a reações exageradas do nosso sistema imunitário (as nossas defesas) a um determinado fator do ambiente. Não são falta de defesas, são antes defesas a mais. Por exemplo, uma pessoa com alergia ao pólen pode reagir de forma intensa se for exposto a esse pólen, com espirros, comichão, nariz a pingar, olhos a chorar e até tosse ou falta de ar, como se estivesse a defender-se de uma agressão. Essa pessoa desenvolve anticorpos contra esse pólen, como se fosse um agente agressivo do qual se deve defender. Esta reação exagerada provoca uma inflamação crónica que justifica as queixas. Sem tratamento, essa inflamação vai-se tornando mais intensa e as queixas cada vez duram mais.

Alergias não são só na primavera - existem todo o ano

A primavera é uma altura em que o ar que respiramos e com que contactamos se enche de pólenes de várias ervas e árvores. Mas os pólenes não existem só na primavera (há algumas plantas que polinizam mesmo no outono/inverno) e podemos desenvolver alergias a vários outros fatores do ambiente. Desde logo, os ácaros do pó, que são a primeira causa de alergia em Portugal. Estão presentes no pó da casa, alimentam-se de restos da nossa pele (adoram almofadas e colchões) e reproduzem-se sobretudo na primavera e no outono. Os animais de estimação, os fungos e até as baratas podem também provocar alergias. Podemos também desenvolver alergias a alimentos, a medicamentos, a um creme, à tinta do cabelo, a metais e tantas outras substâncias com que contactamos. Definitivamente, as alergias não são só na primavera.

Vai passar com o crescimento? Olhe que não...

Crianças com pele atópica, que coçam, que andam sempre com o pinguinho no nariz e que fungam, que espirram, que parecem sempre constipadas, tossem quase toda a noite ou que têm episódios repetidos de pieira/chiadeira e falta de ar (e que até já tiveram de ir às urgências) - não espere que isto passe com o crescimento. Se é verdade que nalguns casos as queixas diminuem (se bem tratadas e, sobretudo, bem controladas preventivamente), em quase metade dos casos não passam. Esperar que o crescimento resolva pode ser muito perigoso. É arrastar a situação, as queixas e o impacto diário que causam, para além da utilização repetida de tratamentos que só deviam ser usados em caso de urgência e que, de forma repetida, podem ter efeitos secundários importantes. Felizmente existem tratamentos preventivos de controlo das doenças alérgicas para todas as idades. Vale a pena controlar, vale a pena prevenir para diminuir e eliminar as queixas, e crescer (bem) mais feliz.

Como podemos tratar e prevenir as alergias?

Em regra, temos três frentes principais de ataque às alergias. Por um lado, evitar o que nos faz mal, sejam eles alergénios (o que causa alergia, como os ácaros ou os pólenes, com medidas para evitar a exposição adaptadas a cada caso) ou irritantes (como por exemplo o tabaco). Para além destas medidas é importante fazer um tratamento preventivo, individual para cada pessoa, mas que trata todas as doenças alérgicas em simultâneo (até porque o controlo de uma afeta a/s outra/s. Por exemplo, o controlo das queixas de rinite influencia o controlo da própria asma). Aqui dá-se sempre preferência a tratamentos anti-inflamatórios locais. Já que queremos tratar a inflamação causada pela alergia, são preferidos tratamentos dirigidos aos órgãos afetados, para serem eficazes na diminuição das queixas, ao mesmo tempo que são muito mais seguros. Medicamentos anti-histamínicos, só os de 2ª geração, que não causam sonolência nem aumentam o apetite. É também importante ter um bom esquema de crise para usar em caso de sintomas, para não deixar aumentar as queixas e controlá-las rapidamente. E existe ainda a possibilidade de usar vacinas antialérgicas, um tratamento que terá de ser bem selecionado individualmente, com o objetivo de diminuir a alergia, aumentar a tolerância e assim reduzir as queixas e a necessidade da toma de medicação. Apesar de não existir um tratamento curativo, este é o único tratamento capaz de modificar a evolução natural das doenças alérgicas.

As pessoas com alergias não têm de ter medo dos tratamentos. Existem para todas as idades, com eficácia e segurança. A qualidade de vida das pessoas com alergias, a sua produtividade no trabalho ou na escola, o seu crescimento e as atividades sociais ou de lazer não têm de ser afetadas por estas doenças crónicas. É possível controlar as alergias e viver bem.

O futuro

Sabemos cada vez mais sobre alergias, estamos todos cada vez mais bem informados, mais alerta e mais preparados para enfrentar as doenças alérgicas. Em doenças tão frequentes como estas, precisamos que estejam todos envolvidos. Para prevenir e controlar as alergias, para melhorar a qualidade de vida das pessoas que têm alergias e para continuar a estudar e a investigar, em busca de novos sinais e de melhores tratamentos dirigidos a cada pessoa, que possam alterar verdadeiramente os mecanismos das doenças e alcançar a cura.

*Médica Imunoalergologista, Centro de Alergia, CUF Infante Santo Hospital e CUF Descobertas Hospital, Lisboa. Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC), NOVA Medical School/Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa.

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