Será um unicórnio? Será um dragão? Não, é o maravilhoso mundo das dobragens

São as vozes que os mais novos ouvem diariamente na TV. Por trás dos desenhos animados, há pessoas de carne e osso que fazem disso um trabalho diário. Neste Dia Mundial da Voz, desvendamos o universo dos atores de dobragens.

Por fora, parece apenas um prédio de habitação, numa rua isolada e pouco movimentada. Ao cruzarmos a porta, descobrimos um pequeno estúdio, com pouco mais do que paredes isoladas e algum material de gravação. Mas, acreditem, neste pequeno estúdio cabe um mundo inteiro de sonhos e imaginação.

Uma voz ressoa por entre estas quatro paredes. Ora está alegre, ora está triste. Ora está surpreendida, ora está com medo. Olhamos para o ecrã, para tentar descobrir de onde vem. É a voz de... um unicórnio? Na verdade, pertence à atriz Carla Garcia, que desde há 18 anos empresta a sua voz a desenhos animados.

Estamos nos estúdios da Áudio In, na Cruz-Quebrada, em Oeiras. É aqui que são dobradas para a língua portuguesa dezenas de séries de animação. É aqui que os bonecos ganham voz e recebem vida.

Hoje, Carla é um unicórnio. Amanhã, pode ser outra coisa qualquer. De Candace, a irmã chata de "Phineas e Ferb", à heroína sensação do momento Ladybug, passando pela Alegria de "Divertida-mente" ou pela Vanellope de "Força Ralph". Já perdeu a conta ao número de personagens que fez.

"Não consigo contar, foram muitas! Milhares, talvez", afirma.

Hoje, a acompanhar Carla no estúdio, estão Cristina Basílio, diretora de dobragens, e Hugo Carpinteiro, técnico de som.

"Neste momento estamos na régie, onde ficam o técnico e o diretor de dobragens. Temos ali uma cabine onde fica o ator que está a gravar", descreve Cristina, que nos vai navegando pelo pequeno estúdio.

"Trabalhamos para vários canais de televisão. Recebemos os guiões originais, que são entregues a tradutores. Feita a tradução, os diretores recebem os guiões traduzidos, fazem um casting, que será aprovado pelo cliente. E depois, passamos para o processo de gravação, em que cada ator grava as suas personagens", explica.

Depois de gravadas as vozes, a dobragem passa pela pós-sincronização, para garantir que tudo o que é dito se adapta aos movimentos feitos pela boca dos bonecos, e só aí é que o trabalho fica finalizado.

A (curta) História das dobragens

Cristina Basílio garante que as dobragens em Portugal estão entre as de maior qualidade em todo mundo.

E há um motivo para isso. É que se em Portugal, maioritariamente, apenas são dobrados os conteúdos dirigidos ao público infantil - que ainda não consegue ler legendas -, em países como Espanha, Alemanha ou Itália, a tradição é dobrar todo o tipo de programas, mesmo série e filmes para adultos, o que leva a uma produção massiva, onde, muitas vezes, a qualidade da dobragem acaba por ser descurada.

O fenómeno das dobragens em língua portuguesa é bastante recente. O primeiro filme dobrado em Portugal foi "O Grande Nicolau", em 1936. A dobragem portuguesa do filme do realizador francês Charles-Félix Tavano contou com a voz de grandes nomes do cinema da época, como Vasco Santana. Mas o Estado Novo viria, pouco depois, a proibir as dobragens de conteúdos estrangeiros, com o intuito de fomentar a produção nacional (a Lei nº 2:027 de 18 de Fevereiro de 1948).

Quando, finalmente, as dobragens voltaram a ser permitidas, Portugal não investiu no desenvolvimento da indústria, limitando-se a recorrer aos filmes e séries já dobrados em português do Brasil.

A primeira série infantil dobrada em português, "O Carrossel Mágico" (um original francês), foi transmitida pela RTP, já na década de 1960. Depois do 25 de abril de 1974, começaram, então, a surgir mais séries dobradas, como "Heidi", "Marco" e "A Abelha Maia".

Mas o país ainda haveria de esperar mais duas décadas até estrear o a primeira longa-metragem de animação dobrada em português: "O Rei Leão", da Disney, em 1994. Foi um sucesso estrondoso e, a partir daí, todos os filmes de animação passaram a contar com uma versão portuguesa.

Um mundo instável

O mundo das dobragens em Portugal mudou muito, desde então. A proliferação dos canais infantis, que transmitem desenhos animados 24 horas por dia, veio transformar o mercado.

"O mercado alterou-se - para nós, para pior. Começámos a ser muito pior pagos", admite Cristina Basílio. "Parece contraditório, porque, por um lado, há mais trabalho, mas começaram a aparecer muito mais pessoas a fazer dobragens." Com a maior oferta de profissionais e o aumento da competição por cada trabalho, as remunerações caíram a pique.

"É importante que entrem novas pessoas e que o mercado se tenha aberto. É pena é que o custo disso seja todos nós ficarmos prejudicados e recebermos muito menos", lamenta Cristina.

É comum os dobradores terem outros empregos que ajudem a pagar as contas, uma vez que o mundo das dobragens é "muito instável".

"Eu tenho tido a sorte de ter trabalho regular e, praticamente só fazer dobragens, é disso que eu vivo. Sei que isso não é a coisa mais comum", admite Carla.

"A maioria dos meus colegas tem de ter outros trabalhos - e eu não estou livre disso, nenhum de nós está -, porque não é fácil. Há que navegar na instabilidade, sempre", diz a dobradora.

Cristina confessa que "nunca sabe" quando terá trabalho. "Há momentos em que acabo um trabalho e não há rigorosamente nada: não há oferta nenhuma, não há proposta nenhuma, nada", admite, sublinhando que, mesmo quando há trabalho, este não é pago num ordenado mensal - os dobradores recebem por linha ou por episódio.

A maioria dos atores dobradores depende de outras atividades. É o caso de Diogo Pinto, de 25 anos, que é terapeuta da fala e cantor de formação.

"Divido-me entre dar aulas de canto, dobragens, e cantar", revela.

Foi até pela parte musical que surgiu a entrada de Diogo no mundo das dobragens. "Comecei por dobrar canções, na Disney, com 18 anos, e mais tarde é que comecei a fazer mesmo dobragens."

Conta que, depois de ter feito um curso de teatro musical e um workshop de dobragens, fechou-se em casa durante as férias de verão "a gravar umas vinte e tal músicas".

"No final do verão, peguei no CD, mandei um e-mail ao diretor dos estúdios e fui lá bater à porta. Fiz um teste e acabei por ficar. E agora é a minha vida", sorri.

As dificuldades da profissão

O dia-a-dia de Diogo, assim como o de Carla e o de Cristina, é um corrupio entre estúdios de gravação. De acordo com um levantamento feito por um estudo da Universidade de Vigo, há cerca de duas dezenas de estúdios a operar em Portugal, e a maioria dos dobradores vai saltando entre eles.

"Fazemos dois ou três estúdios por dia - e há quem faça mais. De manhã trabalhamos num, à tarde trabalhamos noutro, à noite voltamos ao primeiro...", conta Carla.

"Por vezes, é muito cansativo. É acordar às 8h30 para estar às 9h00 a gravar uma personagem. Depois, sair e gravar uma locução, noutro estúdio. A seguir, vou dar oito horas de aulas e, depois, à 1h00, se for possível, vou para outro estúdio, à noite, gravar outra personagem", relata Diogo.

Gravam várias séries ao mesmo tempo e, dentro da mesma série, interpretam dezenas de personagens diferentes.

"Idealmente, num mundo perfeito, cada ator faria uma personagem. Mas, por questões orçamentais, não é assim. Numa série que tem 30 personagens, nós não podemos ter 30 atores", refere Cristina.

"Só nesta série, faço umas vinte. Faço de cavalo, de vários cavaleiros, do pai da princesa, dos bichinhos e monstros que vão aparecendo...", indica Diogo.

O desgaste físico e, sobretudo, vocal é inevitável.

"Há pessoas que têm a ideia de que é uma coisa muito fácil", comenta Cristina Basílio. A realidade é bem diferente.

"Dormimos pouco. E a voz, que é uma das coisas mais importantes que nós temos, não está sempre nas melhores condições - exatamente por não ter descanso. Mas, como um ator precisa de viver, às vezes tem de aceitar mais trabalho do que aquele que pode", afirma Diogo.

Outra das maiores ameaças ao trabalho dos dobradores? Gripes e constipações. "Acabam totalmente com a nossa vida porque, se estamos constipados, a voz muda e a personagem já não vai ser igual - ou seja, não podemos vir gravar. Logo, são semanas em que vamos perder trabalho."

O futuro são as crianças

Nenhuma destas contrariedades parece assustar Henrique Mello. Começou a fazer dobragens aos 10 anos, depois de ter conseguido um casting, e também já deu o salto para a televisão e o cinema. Mas há algo que o fascina particularmente nas dobragens.

"O que é mais fixe nas dobragens é que um dia posso estar a fazer de um desenho animado, como noutro dia posso estar a fazer de um miúdo real que tem menos três ou quatro anos do que eu - ou seja, tenho que estar a fazer uma voz mais fina -, como noutro dia posso estar a fazer de um miúdo bem mais velho do que eu - e tenho que fazer uma voz mais grossa. Faço sempre personagens diferenciados", explica.

Agora com 15 anos, o jovem já sabe que é disto que quer fazer vida. "Eu quero ficar neste ramo", assegura, confiante - e já com todo o futuro planeado. "Vou para a Escola Profissional de Teatro de Cascais. E depois, se tudo correr bem, quero ir para uma universidade de Teatro, em Inglaterra."

Já Carminho Coelho ainda está indecisa. "Eu gostava de ser atriz ou veterinária, mas para ser veterinária é preciso ter uma média muito alta, por isso, é muito difícil", diz.

A realidade é que, com apenas 12 anos, já leva várias dobragens no currículo. "Já fiz a Sally, no "Snoopy", fiz a Dory bebé, no "À Procura de Dory", também fiz o "Panda do Kung Fu",...", enumera. "Eu adoro!"

Conciliar o trabalho com a escola não tem sido difícil. Henrique conta que, normalmente, aproveita as tardes em que não tem aulas para gravar.

"Acabo as aulas às 13h20, venho para aqui às 15h00 e fico até às 18h00. Depois tenho desporto - faço râguebi -, e dá para conciliar tudo. Tenho é de ser responsável: estudar nas horas certas e não deixar tudo para o fim", diz.

O mesmo acontece com Carminho. "Venho cá todas as semanas nas minhas tardes livres, e, às vezes, até estudo aqui, nos intervalos", conta. E parece que o método está a resultar: "Uma vez estudei aqui para o teste de Ciências e tive 97%", lembra, orgulhosa.

Uma paixão inabalável

Com amor ao que se faz, tudo se consegue. É esse mesmo amor que faz com que todos estes atores dobradores continuem.

"Eu sou apaixonado por desenhos animados desde miúdo e acho que esta é uma área onde podemos explorar todo o nosso potencial vocal", refere Diogo, que diz mesmo não sentir que está a trabalhar. "Para mim, estou sempre de férias, a fazer isto", diz, com um sorriso aberto.

O mesmo diz Cristina Basílio, que já conta com 22 anos de carreira. "Aquela sensação que, infelizmente, muitas pessoas terão, de passar a semana a pensar que nunca mais chega o fim de semana, eu não tenho isso. Não me vejo na minha vida a fazer outra coisa", garante.

Carla Garcia resume o sentimento: "Quero continuar a trabalhar até que a voz me doa. E espero que nunca doa."

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