Um solar e uma casa de pasto na rota de Camilo

O solar de Pouve, de que há seculares registos, está situado nos arrabaldes de Vila Nova de Famalicão. Vizinha de S. Miguel de Seide, onde Camilo passava largos períodos, a casa solarenga é um dos palcos de um dos romances do escritor que, fosse, hoje, abancaria, certamente, na antiga casa de lavoura que passou a albergar um restaurante de cozinha regional.

«Estamos no Minho, uma légua andada de Vila Nova de Famalicão», diria Camilo Castelo Branco, que deambulou por S. Paio de Seide, «sob o dossel de carvalheiras, sentindo o acre saudável das bouças».

O lugar é Pouve, conhecido pelo solar da torre com ameias, uma construção em pedra, de que há registo datado do século XV: hoje a estrutura primitiva da casa plurissecular sofreu alterações, mas o brasão permanece, encimando o portão da quinta totalmente murada, um dos cenários descritos no romance «O Senhor do Paço de Ninães», da autoria do escritor que viveu ali bem perto, em S. Miguel de Seide.

Uma alameda sob denso e refrescante arvoredo conduz à mansão que alberga o restaurante A Quintinha, mais conhecido por Casa de Pasto de Pouve.

Envolta por um cenário tão rural, quanto bucólico, que propicia retemperadores momentos na esplanada, ouvindo o cacarejar galináceo ou o grunhido distante dos porcos entre o chilreio da passarada.

Antiga casa de lavoura, construída em pedra, com duas salas no corpo principal e ambas com lareira, vizinhas da ampla cozinha, o restaurante conta com um quarto de século de história na restauração pela mão de Artur Matos e família.

De construção um pouco mais recente é a 3.ª sala, ampla e com um telheiro a cobrir o balcão do espaço cuja decoração - rústica - não difere do conjunto.

Na parede, um painel em azulejo, emoldurado por cachos de uvas, enuncia os mandamentos do reverendo abade de Travanca, apologista, pelos vistos, da báquica beleza em pleno reino dos vinhos verdes.

O ambiente é informal, descontraído. Nada de luxos. A ementa do dia, algo contida, é manuscrita e mostrada em papel - uma folha de 35 linhas, à antiga.

Para entreter, broa e salpicão - de boa qualidade - preencheram o tempo que mediou até chegar à mesa a dose de bolinhos de bacalhau - o diminutivo é bem aplicado - com feijão-frade. Sabor e boa culinária de mãos dadas, antecedendo prato mais substancial: vitela assada.

Belo naco, a rescender em travessa de barro. Reavivada a gula, foi meter a faca na carne macia, suculenta, bem assada. As alouradas e canónicas batatinhas e o arroz, acólito deste manjar, completaram, com galhardia, tão apetitosa escolha.

Este pitéu marca presença diária na ementa, emparceirando com o bacalhau com dois anos de cura, na brasa ou frito com cebolada, vulgarmente denominado à Braga,

Ao longo da semana há frango caseiro estufado (2.ª feira); rojões com arroz de sarrabulho na 3.ª; à 4.ª, cozido à portuguesa, no dia seguinte, as opções são língua estufada com ervilhas e cenoura; massa à lavrador, mão de vitela com grão pernil assado no forno:

O bacalhau à Brás e as costelinhas estufadas com favas são outras das propostas de 6.ª feira; sábado é dia de tripas à moda do Porto e de cabrito assado no forno, Propostas domingueiras: vitela, cabrito, rojões e arroz de pato.

Nas sobremesas, destaque para a pera bêbeda - excelente - e o toucinho-do-céu.

Garrafeira suficiente. Vinho da casa, um verde amarantino, bastante razoável.

Serviço familiar neste restaurante típico, popular, com clientela diferenciada, maioritariamente local, e com uma cozinha regional, bem feita, sem devaneios.

À antiga portuguesa, a Casa de Pasto de Pouve, em S. Paio de Seide, na rota de Camilo Castelo Branco, «uma légua andada de Vila Nova de Famalicão».

Onde fica:
Localização: Rua Zeferino Rodrigues Carneiro 125, 4770-680 São Paio de Seide (V.N. Famalicão)
Telef.: 252 375 491; 919 110 852

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