
Pedro Granadeiro / Global Imagens
Só este ano há mais de 40 feiras medievais em todo o país. O que explica este fenómeno? Falámos com uma especialista na Idade Média para perceber o fascínio.
Cortes e cavaleiros. Torneios e combates. Feiticeiros e magia. Há uma aura especial na Idade Média que a Professora Lurdes Rosa considera ser responsável pela atracção por esta época. "Um grande historiador, George Duby, dizia que a Idade Média era o faroeste da Europa", lembra a investigadora.
Mas para além do mistério, da magia e da aventura, há outras razões que levam ao fascínio pelo Medievalismo. "As sociedades tecnológicas, individualistas, urbanas precisam de um alterego exactamente oposto: rural, selvático, até. Com imprevistos", explica Lurdes Rosa, "sem dúvida é um fenómeno de evasão, que tem a ver com a época contemporânea e não com a Idade Média histórica".
Este fenómeno é cada vez mais global. A historiadora e professora Lurdes Rosa, do Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, lembra que a febre das recriações começou em Inglaterra com os nobres a abrirem as propriedades aos visitantes e hoje estão por todo o lado. E não só através das feiras, " se formos a pensar na questão das séries televisivas, dos livros e dos jogos de computador, é uma dimensão que nos ultrapassa completamente".
A Portugal o fenómeno chegou há 23 anos, em Coimbra, estendeu-se a todo o país e assim continua. Com mais ou menos rigor histórico. Até porque "as feiras não são aulas de Historia", como explica Lurdes Rosa, "o intuito principal é lúdico". Ainda assim, a historiadora e investigadora diz que nas feiras que acontecem há mais tempo, há uma preocupação com reproduzir o que aconteceu, com especialistas envolvidos na organização.
Para além disso, há também um envolvimento com as comunidades locais, através das escolas e de grupos de teatro, o que as distingue de outras. "não serem só aquelas empresas, muitas vezes estrangeiras, que vêm de fora, que fazem coisas numa como fazem noutra, uma espécie de Idade Média para consumo imediato, sem quaisquer referências".
A mais recente tendência internacional é juntar congressos académicos com as feiras - uma parte lúdica com outra mais direccionada para o conhecimento. Um fenómeno que a historiadora gostava de ver por cá. No Instituto de Estudos Medievais essa hipótese de juntar os promotores de feiras com os académicos está a ser estudada, "num espírito de colaboração, tentar dar algum rumo a todo este mundo, que está aqui para ficar, não tenho a menor dúvida".
Também Carina Gomes, vereadora de Cultura da Câmara de Coimbra, acredita que o fenómeno vai permanecer, pelo menos no município. "É um momento em que o Largo da Sé Velha ganha uma nova vida, um momento de celebração da cidade e portanto é um sucesso que está para continuar".
Coimbra foi pioneira. Em 1992 a Feira Medieval surgiu numa parceria da câmara com o INATEL e a ADDAC (Associação para o Desenvolvimento e Defesa da Alta de Coimbra) com o objectivo de criar um atractivo cultural na Alta de Coimbra. Há dois anos a autarquia assumiu por inteiro a organização mas continua a colaborar com entidades locais - 20 grupos de teatro amador com cerca de 200 figurantes.
Desde o início a feira teve acompanhamento científico da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Para a vereadora, "esta é uma das feiras mais conceituadas do nosso país não apenas por ser uma as mais antigas mas porque zelamos por esse rigor". Este ano, a Feira de Coimbra aconteceu entre 3 e 5 de Julho. Uma das mais de 40 deste ano em todo o país.