
Global Imagens/João Girão
O escritor António Lobo Antunes disse hoje, em Lisboa, perante leitores e estudiosos da sua obra, que não trocava os livros que escreveu «por nada, nem pela saúde, se fosse possível fazê-lo».
O autor participou num encontro sobre a sua obra literária no Centro Cultural de Belém (CCB), no âmbito do programa de Humanidades daquela entidade, que tem vindo a homenagear alguns nomes da cultura portuguesa.
Lobo Antunes, 71 anos, estreou-se com "Memória de Elefante" e "Os Cús de Judas", em 1979, obras que tiveram êxito imediato junto do público e da crítica, sendo hoje um dos escritores portugueses mais traduzidos e lidos internacionalmente.
Somou mais de 30 livros, desde romances, poesia, e mais tarde crónicas publicadas na imprensa que têm sido reunidas em coletâneas.
«Não trocava os meus livros por nada. Gosto muito deles, por razões diferentes, que nem sequer têm a ver com a literatura. Tive uma doença que me fez sofrer muito, mas não trocaria os meus livros nem pela saúde, se fosse possível fazê-lo», disse o escritor, perante um auditório repleto de público de todas as idades.
Pessoalmente olha para a escrita como «um vício»: «Começa-se por prazer, mas depois torna-se um vício. A literatura é uma atividade que eu nunca associei ao prazer. Quem escreve empenha nisso o seu tempo, a sua saúde e a sua esperança», disse Lobo Antunes.
O autor de "Comissão das Lágrimas", (2011) e "Não é Meia Noite Quem Quer" (2012), títulos mais recentes, regressou mentalmente à infância para dizer que a mãe ensinou todos os filhos a ler muito cedo e sentiu, com sete anos apenas, que não conseguiria viver sem escrever.
«Escrever é muito difícil. Os primeiros esboços dos livros são tão imperfeitos, os livros de que gosto são tão poucos. Mas se não escrevo sinto-me culpado», admitiu, perante leitores e amigos que se deslocaram ao CCB para o ouvir, como o ensaísta Eduardo Lourenço, o pintor Júlio Pomar e o escritor Rui Cardoso Martins.
Ainda sobre a importância da literatura, estranha que «todos os regimes policiais, seja de esquerda ou de direita, tenham perseguido os livros e os escritores com tanta ferocidade, porque o seu efeito é sempre muito lento».
Mas saudou e agradeceu aos leitores presentes no encontro em sua homenagem: «Sentir que somos ouvidos é a razão da nossa existência», disse o Prémio Camões 2007, cuja obra foi muito marcada inicialmente pela experiência como médico psiquiatra e na guerra colonial, em Angola.
Durante a tarde, no pequeno auditório, estiveram presentes no "Dia António Lobo Antunes", o presidente do CCB, o também escritor Vasco Graça Moura, e especialistas como Maria Alzira Seixo, Agripina Carriço Vieira, Norberto do Vale Cardoso e Ana Paula Arnaut.
Nos leitores, amigos e admiradores da obra, participaram a atriz Maria Rueff, frei Bento Domingues, e o tradutor holandês Harrie Lemmens, que considerou António Lobo Antunes «o maior escritor português dos nossos tempos».