
Olivia Harris/Reuters
Começou ontem ao pôr do sol e termina daqui a 30 dias. Milhares de muçulmanos espalhados pelo mundo cumprem hoje o primeiro dia do Ramadão. Uma celebração associada à espiritualidade, à renovação da fé e à partilha do valor da família.
Rui Santiago, 55 anos, encontrou-se com a religião islâmica há uma década. Justifica esta opção de vida com a coerência, diz, que caracteriza a religião em comparação com outras. "Procurei a vivência ou a comunidade em que a distância entre aquilo que se diz e aquilo que se faz é menor".
O valor da família é, por exemplo, um valor que, segundo Rui, está mais cimentado na comunidade islâmica.
O Ramadão
"No fundo, é um momento no ano islâmico que marca um momento de balanço. Ou seja, é um mês em que a pessoa deve passar boa parte do tempo mais recolhido, mais voltado para si próprio, ou através de leituras, ou procurando fugir mais ao reboliço da vida normal e também, tentar, estar junto da comunidade".
Um momento de espiritualidade que é potenciado pelo jejum associado a este ritual. "É um jejum diurno, não é um jejum de 24 horas. Quando nasce o sol abstém-se de comer e beber, até o dia se pôr. Quando o dia se põe interrompe-se o jejum. Primeiro com água, normalmente com frutos secos, tradicionalmente a tâmara e depois durante a noite vão-se fazendo vários tipos de refeições".
Explica Rui que a alimentação durante este período varia muito de região para região, ainda assim, com um traço em comum: procura ingerir-se alimentos de fácil digestão. "Em Marrocos, por exemplo, passa-se a comer muito mais vegetais. A tendência é sempre fazer refeições mais leves mas não se deixa de comer carnes vermelhas, privilegiando, no entanto, carnes brancas e peixe".
Seja qual for a ementa, é aconselhável não ingerir demasiado alimentos. "Não é propriamente para comer e rebolar porque se o que se pretende é alcançar um estado de contemplação, meditação, não podemos encher-nos de alimentos ou de bebida".
As orações
Para além das cinco orações diárias, durante o período do Ramadão os fiéis promovem sessões conjuntas de leitura do Corão. "Todos os dias se lê um bocadinho para que no final dos 30 dias se tenha lido todo o livro sagrado".
O "Zakat"
É outra marca do período do Ramadão. "Aquilo que se recebe durante um ano, retira-se todas as despesas e aquilo que sobrar tira-se 2,5%. E é a única oferta que é feita. Mas atenção: não é para entregar a ninguém em particular. Não é para entregar à mesquita. Bem feito é, estar atento, e ver quem entre a comunidade está a precisar mas principalmente dar sem que a outra pessoa saiba. Até pode ser ao nosso pior inimigo. O importante é que ele nunca saiba. Isto é um exercício para quem se propõe a esta pureza que não deixa de ser desafiante todos os dias, não é".
O final do Ramadão
"Há uma coisa que é certa: psicologicamente sinto-me mais forte e fisicamente mais magro (risos). Acho também que passo a ter uma predisposição para encarar o mundo muito mais salutar. Ou seja, eu sinto que tive de deitar uns lixos para fora de mim. Em termos mentias ficamos muito mais fortes".