
Apenas com quatro anos pintou a vermelho um círculo perfeito na parede da sala de casa. Concluídos os estudos de arquitetura, Nadir Afonso partiu em 1946 para Paris, apadrinhado por Portinari. Mas terá sido Le Corbusier, com quem trabalhou, a sua maior influência.
Nadir Afonso Rodrigues nasceu em Chaves a 4 de Dezembro de 1920, filho de Artur Maria Afonso e de Palmira Rodrigues. A atração pelo traço artístico nasceu-lhe no berço. Apenas com quatro anos pintou a vermelho um círculo perfeito na parede da sala de casa. Com 14 anos pintou os seus primeiros trabalhos a óleo. Com 17 anos ganhou o segundo prémio do concurso "Qual o mais belo trecho da paisagem portuguesa?", e em 1938 matriculou-se em arquitetura na Escola de Belas-Artes do Porto.
Embora a frequentar arquitetura, Nadir Afonso, enquanto estudante, continuou a pintar, sendo notório que os seus trabalhos foram evoluindo para uma progressiva abstração. Aos 20 anos realizou as primeiras exposições como aluno da Escola de Belas-Artes, mantendo uma presença permanente, até 1946, em todas as exposições do designado "Grupo dos Independentes". Em 1944 participou em Lisboa na IX Exposição de Arte Moderna promovida pelo SNI (Secretariado Nacional de Informação), na qual os seus trabalhos relevam já as suas tendências surrealistas, que a crítica muito enalteceu.
Aos 24 anos Nadir Afonso viu reconhecida a singularidade do seu talento, quando o Museu de Arte Contemporânea de Lisboa acolheu a sua obra "A Ribeira", já no período irisado. Concluídos os estudos de arquitetura, Nadir Afonso partiu em 1946 para Paris, onde, apadrinhado por Portinari, conseguiu uma bolsa de estudo do governo francês que lhe assegurou os estudos em pintura na École des Beaux-Arts. Simultaneamente, entre 1946 e 1948, e de novo em 1951, colaborou com Le Corbusier, que lhe libertava as manhãs para pintar sem o afetar no ordenado. Iniciou aqui o seu período barroco.
A arquitetura não é uma arte?
Em 1948 Nadir Afonso apresentou no Porto a tese "A Arquitetura não é uma Arte", trabalho desenvolvido sob orientação de Le Corbusier, com o projeto da Fabrica Duval em Saint-Dié. Paralelamente, trabalhou na pintura, servindo-se do atelier de Fernand Léger. No atelier de Le Corbusier trabalhou também no projecto da "Unité d`Habitation", que deu origem a uma perspetiva que foi reproduzida na revista "L`Home et l`Architecture", e depois em livros da especialidade de todo o mundo.
No final de 1951 Nadir Afonso decidiu partir para o Brasil, onde permaneceu até ao final de 1954, sempre envolvido nos projetos de Óscar Niemeyer, e de que se destacaram sobretudo o projeto do IV Centenário da Cidade de S. Paulo e o Parque de Ibirapuera. De regresso a Paris, envolveu-se no movimento da arte cinética, expondo na galeria Denise René em 1956 e 1957 e em exposições colectivas com Victor Vasarely, August Herbin, e Richard Mortensen. Neste âmbito efetuou a série "Espacillimité" e na vanguarda da arte mundial que apresentou no Salon des Réalités Nouvelles de 1958 um "Espacillimité" animado de movimento.
Em 1955 concorreu ao projeto do Monumento ao Infante D. Henrique a erigir em Sagres. Em Chaves projetou a Panificadora, uma das obras de referência da arquitetura portuguesa do século XX. Representou Portugal na Bienal de São Paulo, em 1961 e em 1969. Em 1967 recebeu o Prémio Nacional de Pintura e, passados dois anos, o Prémio Amadeu de Souza-Cardoso. Em 1965 abandonou definitivamente a arquitetura, e foi-se refugiando pouco a pouco num grande isolamento, dedicando-se exclusivamente à sua obra de criador artístico.
A Fundação Gulbenkian dedicou-lhe uma exposição retrospetiva que foi apresentada em 1970 no Centre Culturel Portugais, em Paris, e posteriormente em Lisboa. Nos anos seguintes desenvolveu uma intensa atividade artística e aos poucos a sua pintura irradia pelo mundo, ao mesmo tempo que prosseguiu com sucessivas publicações, nomeadamente as obras: Aesthetic Synthesis, Universo e o Pensamento, O Sentido da Arte, Da intuição Artística ao Raciocínio Estético, Sobre a Vida e Sobre a Obra de Van Gogh, As Artes: Erradas Crenças e Falsas Criticas, Nadir Face a Face com Einstein, e o Manifesto - O Tempo não Existe.
Obra em evolução e movimento permanentes
A obra de Nadir Afonso foi marcada pelo movimento e evolução permanentes, centrada no sentido do absoluto na arte. Daí ter merecido sempre as maiores atenções dos estudiosos da arte, e inspirado as mais diversas inciativas. Em 2003 surgiu o filme Nadir, da autoria de Jorge Campos para a RTP, e nesse mesmo ano foi homenageado na XII Bienal Internacional de Vila Nova de Cerveira, onde apresentou uma exposição antológica, e na II Feira Internacional do Estoril, sendo-lhe aqui atribuído o Prémio Nadir Afonso. Em 2010 foi realizada uma grande exposição da sua obra no Museu Soares dos Reis, no Porto, e logo de seguida no Museu Nacional de Arte Contemporânea, ao Chiado, em Lisboa, enquanto o Museu da Presidência da República lhe dedicou uma exposição retrospetiva. Ainda em 2010 recebeu o doutoramento "honoris causa", pela Universidade Lusíada de Lisboa, honra académica que repetiu em 2012 na Universidade do Porto. Do seu palmarés faz ainda parte a atribuição dos graus de Oficial e Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada, condecorações que recebeu em 1984 e 2012, respetivamente.
(Fontes consultadas em dezembro de 2013: raiodestintaluz.blogs.sapo.pt; jpn.c2com.up.pt; nadirafonso.com; lis.ulusiada.pt; thegoodarticle.com; wikipedia.org)