Monumento nacional, obra de complexa engenharia que deu ao Porto um novo centro na Boavista, um arco de betão que ficou para a história e quatro elevadores sem uso, a Ponte da Arrábida comemora no sábado 50 anos.
O arco em betão servia de travessia aos trabalhadores que dormiam no estaleiro de Gaia, ia ver-se a obra como se fosse cinema, muitos quiseram observar se caía a ponte, mas quem morava ali não tinha desses receios.
«Não caía, não. Se andavam a fazer de novo ia cair? Só se fosse velha...», simplifica Maria das Dores, 86 anos, moradora no quase centenário bairro de Sidónio Pais, no Porto, desde que começou a construção da ponte da Arrábida.
Cinquenta anos depois da inauguração de umas das obras-primas de Edgar Cardoso, a 22 de junho de 1963, sobram memórias da construção da travessia que fez vista por ter à data o maior arco do mundo.
Manuel Rito atravessou-o, dias seguidos: como trabalhava na ponte e dormia em Coimbrões, Gaia, «onde o empreiteiro tinha um estaleiro" teve direito a "um cartão para atravessar o arco».
«Não tinha medo nenhum, o medo que podia ter na altura é o mesmo que posso ter agora a atravessá-la a pé», garante o homem de 68 anos, que trabalhou na travessia quanto tinha «18 ou 19».
«Íamos dormir para lá e vínhamos de lá para cá para trabalhar», recorda.
Para Maria das Dores, o arco era uma coisa «natural» para quem «nunca tinha visto fazer pontes», o pior foi o filho, «atravessado», que lhe fugiu «para ir andar em cima daquela coisa [do arco], sujeito a cair».
«Lembro-me de começarem a fazer, ainda o Salazar era vivo... Posso falar no Salazar, não posso? Ele morreu... Veio ali muito em segredinho, caladinho, viu a ponte e espantou-se. Não esteve com muita conversa, que tinha medo. Não era com a ponte, era com as pessoas, andavam com raiva a ele, agora andam com raiva a outros», descreve.
Quase parece mito, esta visita do chefe de Estado, mas está documentada a presença do Presidente da República Américo Tomás na inauguração da travessia e no «momento crucial» da obra, quando lhe coube carregar nos botões para retirar à «primeira costela da ponte» o cimbre (estrutura metálica provisória) que suportara a sua construção, relata João Cardoso, sobrinho de Edgar Cardoso.
«O cimbre estava apoiado em quatro macacos de 700 toneladas de cada lado. Tinha de baixar 40 centímetros por acionamento de uns botões que faziam baixar o macaco. Estava cá o presidente da República e foi com bastante medo que carregou nos botões», acrescenta.