
Reuters
Já passaram mais de dois anos. Foi no verão de 2012. O mundo ficou a conhecer, primeiro através de notícia tímidas, depois em vários destaques, a pintura de Cristo que foi retocada por uma habitante de uma pequena cidade espanhola. A cara desfigurada transformou-se numa atração. Quem lucra é Borja.
O "The New York Times" fez as malas e viajou até este lado do Atlântico, até Borja. A cidade espanhola que há mais de dois anos saltou para as capas e ecrãs de jornais e televisões em todo o mundo.
O motivo da viagem? A imagem de Cristo, um fresco de Elías García Martínez, pertença de uma igreja local, que foi restaurada por uma habitante com gosto pela pintura. Cecilia Giménez, farta de ver a pintura Ecce Homo longe da figura original decidiu restaurá-la, mas o seu traço acabou por retirar as feições à figura de Cristo.
Criticada, gozada, parodiada, até elogiada, a nova imagem deu voltas ao mundo e segundo o jornal norte-americano, Borja deve agora muito a Cecilia. O episódio "salvou" a economia local, escreve o jornal que fala numa «cidade e não apenas numa pintura restaurada».
A pintura de Cristo que "mora" em Borja foi a sensação do verão de 2012, mas não só. Desde então, a localidade tem beneficiado da visita de milhares de turistas que ali se deslocam para ver ao vivo e a cores o que viram na comunicação social.
Para entrar no Santuário de Nossa Senhora da Misericórdia, onde se encontra a obra pintada nos anos 30 e restaurada por Cecilia Giménez, cada turista tem de pagar um euro. De acordo com os cálculos do jornal "The New York Times", durante estes dois anos a pintura atraiu mais de 150 mil turistas de todas as partes do mundo.
Os ganhos não ficam por aqui. A afluência de visitantes a Borja reflete-se um pouco por toda a localidade, especialmente nos restaurantes.
O autarca de Borja, Miguel Arilla, entrevistado nesta reportagem, assegura que o aumento do turismo ajudou a economia local a recuperar. Os outros museus que locais também estão a beneficiar do restauro de Cecilia Giménez. O "Museo de la Colegiata" de Borja, onde se encontra uma coleção de arte religiosa medieval, tem dez vezes mais visitas. As entradas anuais passaram de 7 mil para 70 mil.
O restauro levou um produtor norte-americano a viajar até Borja. Andrew Flack está a preparar uma ópera sobre «a história de como uma mulher arruinou um fresco e salvou a cidade». A obra vai chamar-se "Behold the man". Para o autor estamos perante «uma história de fé. É um milagre a forma como o restauro impulsionou o turismo. Porque é que tanta gente quer ver um trabalho artístico terrível? É uma autêntica peregrinação a um fenómeno que nasceu nos meios de comunicação. Deus atua mesmo de forma misteriosa» afirmou.
Nestes dois anos, Cecilia converteu-se numa personagem famosa em Borja e não só. No início «estava devastada. Diziam que estava louca, que era uma idosa que tinha destruído uma pintura que custava muito dinheiro», escreve o jornal. Depois recuperou e Cecilia até desenhou uma etiqueta com a sua própria versão de Ecce Homo, que é utilizada como rótulo de um vinho local.
Também há, diz o "The New York Times", quem viaje até Borja só para conhecer Cecilia Giménez.