Vida

Pires Veloso - o "espírito do norte"

Foi Alto Comissário em S. Tomé logo após o 25 de abril e comandante da Região Militar do Norte, onde se assumiu como uma voz no "verão quente" em pleno PREC. Candidatou-se às eleições presidenciais de 1980.

António Elísio Capelo Pires Veloso nasceu a 10 de Agosto de 1926, na aldeia beirã de Folgosinho, no concelho de Gouveia. Filho de um casal de professores do ensino primário, Manuel e Piedade, em 1935 a família fixou residência em Vila Nova de Gaia, mas foi praticamente no Porto que o jovem António atingiu a idade adulta.

Concluído o ensino primário em 1937, Pires Veloso frequentou o liceu Alexandre Herculano até 1944, ano em que se matriculou no Curso de Preparatórios Militares da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, donde transitou, aos 20 anos, para a Escola do Exército, e aí concluiu o curso de Infantaria, fazendo de seguida o tirocínio na Escola Prática de Infantaria.

Em 1949 partiu para Macau, graduado em alferes, onde permaneceu até 1951 e começou a consolidar a sua carreira militar, acompanhado de dois amigos, Casqueiro de Sampaio e Ferreira da Cunha, que lhe marcaram o percurso. Regressado a Portugal, foi colocado no Batalhão de Caçadores da Guarda, e mais tarde na Base N.º 1 da Força Aérea e no Instituto Técnico Militar dos Pupilos do Exército.

Em 1956 casou com Maria Cândida, com quem teve dois filhos, António Manuel e Helena Dulce. Logo no início das guerras coloniais foi mobilizado para Angola de 1961 a 1964. Menos de um ano mais tarde seguiu para as frentes de guerra em Moçambique, cumprindo três comissões militares, de 1965 a 1974.

Após a Revolução de Abril de 1974 foi nomeado Governador de S. Tomé e Príncipe, até 18 de Dezembro do mesmo ano, data em que assumiu o cargo de Alto Comissário, em cujas funções se manteve até à independência daquele território, em 12 de Julho de 1975. De novo regressado ao continente, foi nomeado comandante da Região Militar do Norte em Setembro de 1975, funções que desempenhou até 14 de Novembro de 1977, passando a ser uma referência militar, a partir do Quartel-General do Porto, no chamado "verão quente", em pleno PREC dominado pelas alas marxistas das Forças Armadas.

Um militar com sensibilidade política

Pires Veleso foi um dos homens fortes do "25 de Novembro", elevando ao tempo a Região Militar do Norte ao estatuto de «reserva e garante dos ideais democráticos da revolução». Nomeado membro do Conselho da Revolução, tornou-se numa referência nacional, como fiel depositário da sensibilidade política das gentes do norte.

As suas posições políticas, fortemente alicerçadas numa cumplicidade ideológica com um dos homens fortes do aparelho social-democrata, o eng. Eurico de Melo, mereceram-lhe a designação popular de «vice-rei do norte», epíteto que partilhavam entre si, numa espécie de cooperação entre a corrente político-civil e a sua congénere político-militar.

A popularidade do então brigadeiro Pires Veloso atingiu tais níveis no norte do país que a sociedade civil se organizou para uma homenagem pública de grande envergadura. Assim, na dia 19 de Novembro de 1977 dezenas de milhar de pessoas concentraram-se na Av. dos Aliados, no Porto, para lhe entregar a "Espada de Honra". Pires Veloso, que havia abandonado o cargo de Governador Militar da Região Norte cinco dias antes, não compareceu, mas foi representado por seu filho António Manuel Veloso, que recebeu o troféu, e agradeceu a homenagem do povo à pessoa do pai.

Em 1980 candidatou-se a Presidente da República, na qualidade de independente, «por imperativo cívico», a par com o general Ramalho Eanes que se recandidatou ao mesmo cargo nessas eleições, e que venceu folgadamente.

Com a frequência do Curso Superior de Comando e Direção do Instituto de Altos Estudos Militares, só em Outubro de 1988 foi promovido a oficial general, por intervenção direta do então Presidente da República, Mário Soares.

Nas comemorações do 25 de Abril de 2006 Pires Veloso foi agraciado pelo Presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, com a Medalha Municipal de Mérito, grau ouro, pelo seu desempenho militar e «papel fundamental na consolidação da democracia nacional durante o período em que comandou a Região Militar do Norte».

Inconformado com o rumo do país

Após ter recolhido à sua quinta da Beira Alta, desde a década de oitenta, onde se tornou um apaixonado agricultor, o general Pires Veloso nunca abandonou a intervenção cívica, com aparições públicas em momentos cirurgicamente escolhidos pelo próprio. Em 2006 publicou o livro "Vice-Rei do Norte - Memórias e Revelações", onde narrou alguns episódios desconhecidos protagonizados por diversas personalidades políticas e militares nos primeiros anos do regime democrático.

«Vejo a situação atual com muita apreensão e muita tristeza. Porque sinto que temos uma mentira institucionalizada no país. Não há verdade. Fale-se verdade e o país será diferente. Isto é gravíssimo; (...) dá a impressão de que seria preciso outro "25 de abril" em todos os termos, para corrigir e repor a verdade no sistema e na sociedade»,declarou Pires Veloso em entrevista à agência Lusa, por altura das comemorações do "25 de Abril" de 2012.

Nessa mesma entrevista, o general dizia ainda que «o povo já não aguenta mais e não tem mais paciência, é capaz de entrar numa espiral de violência nas ruas, que é de acautelar». Como solução para evitar que as coisas se compliquem, Pires Veloso defendeu na mesma entrevista uma cultura de valores e de ética. «Há uma inversão que não compreendo desses valores e dessa ética. Não aceito a atuação de dirigentes como, por exemplo, o Presidente da República, que já há pelo menos dois anos, como economista, tinha obrigação de saber em que estado estava o país, as finanças e a economia. Tinha obrigação moral e não só de dizer ao país em que estado estavam as coisas"- dizia, então, o general.

Fontes consultadas em novembro de 2013: ancora-editora.pt; dodouro.com; diariodebraganca.blogs.sapo.pt; sicnoticias.sapo.pt/pais/article1504393.ece; pt.cyclopaedia.net/wiki/pires-veloso; dicas.sas.uminho.pt; expresso.sapo.pt/vice-rei-do-norte-quer-um-novo-25-de-abril-mas-popular; ppmbraga.blogspot.pt/2012/04/vice-rei-do-norte-quer-um-novo-25-de.html; wikipedia.org