Sociedade

Tiago Oliveira diz que não quis ofender autarcas e quer "aposta na prevenção" de incêndios

O presidente da Estrutura de Missão para a Instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, Tiago Oliveira Miguel A. Lopes/Lusa (arquivo)

Tiago Oliveira defende, em declarações à TSF, que "lendo a narrativa toda", o que tentou demonstrar é que "há uma oportunidade de melhorar as leis para reforçar até o orçamento, mas na lógica da prevenção".

O presidente da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), Tiago Oliveira, recusa as críticas que lhe são feitas pelos 16 autarcas algarvios e sublinha que não quis faltar ao respeito, nem aos bombeiros, nem aos autarcas, acrescentando, contudo, que deve haver uma "aposta maior na prevenção" dos incêndios e uma "maior racionalidade" na atribuição de verbas.

"Nós reconhecemos o papel e a importância dos bombeiros. Longe de nós não reconhecermos. Não é isso que está aqui em causa. Nós temos [feito] um esforço muito grande em tentar racionalizar um tema que é muito emotivo, toca nas pessoas, toca no reconhecimento das entidades locais", sublinha, em declarações à TSF.

O líder da agência afirmou previamente que "há municípios a gastar meio milhão de euros, uma barbaridade de dinheiro nos bombeiros, quando não gastam dinheiro a gerir a floresta". Para os municípios do Algarve, as declarações de Tiago Oliveira "são totalmente inaceitáveis e reveladoras de que o presidente da AGIF, passados vários anos no cargo, continua a não conhecer a realidade do setor e isso é muito grave e preocupante".

Tiago Oliveira defende, contudo, que às vezes as coisas "são ditas de forma rápida", mas que, "lendo a narrativa toda", o que tentou demonstrar é que "há uma oportunidade de melhorar as leis para reforçar até o orçamento, mas na lógica da prevenção".

"Estamos a fazer mudanças, vão estar sempre a tocar em pontos que estão há muitos anos estabilizados. Essa lei é de 2015. Haverá outras coisas que a gente diz que incomoda que faz refletir outros atores", justifica.

O presidente da AGIF considera que aquilo que tentou fazer no Parlamento foi "explicar e convencer os deputados a refletir sobre a oportunidade de mudar, reforçando o investimento da prevenção na lei das transferências das autarquias, que é uma lei da competência do Parlamento".

"Nós estamos a dizer que é preciso mais prevenção, que é preciso gastar mais dinheiro em gerir o combustível, portanto, não estamos a dizer nada de errado", insiste.

O deputado do PSD João Moura considera, no entanto, que vários estudos têm apontado um "conjunto de soluções preventivas para os incêndios em Portugal", mas acusa o Governo de não as pôr "em prática", defendo que as medidas "não têm passado do papel". Esta é uma situação que deixa os sociais-democratas "muito preocupados".

Em resposta, Tiago Oliveira afirma que "há pessoas que têm perspetivas sobre o problema", mas "que não têm uma única solução" e destaca que este "não é um problema tecnológico, é um problema socioeconómico".

"Há sempre dificuldades na mudança e há resistências orgânicas. Na máquina pública estas coisas são sempre mais difíceis, há muita gente, há muitos níveis de decisão e estas coisas demoram a entrar. Quanto mais falarmos e quanto mais ideias partilharmos, mais fácil vai ser os decisores tomarem as decisões", explica.

João Moura acusa ainda o Governo de agir pouco e tarde no combate aos incêndios e alerta que o "Partido Socialista não tem um olhar atento sobre aquilo que a floresta pode dar", o que considera ser "um total abandono" da questão.

"E aquilo que é mais grave é que as áreas que ardem são mais suscetíveis ao surgimento de novos incêndios, seis/sete anos depois. E é isso que se está a verificar neste momento com Pedrógão Grande, depois daquela grande catástrofe. O Governo demorou sete anos a perceber que era preciso fazer alguma coisa", lamenta.

Tiago Oliveira afirma que as suas declarações estão alinhadas com uma auditoria feita pelo Tribunal de Contas, em março de 2022, em que é dito que "os municípios recebem o dinheiro, mas não há um critério para a atribuição do dinheiro na questão da prevenção e do combate".

E diz que vai também ao encontro "daquilo que se pretende da Liga dos Bombeiros, que é ter um contrato-programa de financiamento estável e plurianual". "É esse esforço de comunicação, de colocar o tema em prol do relatório Tribunal de Contas e em prol da oportunidade de mexer nas leis do Parlamento que nós o dissemos", esclarece.

Rui Polónio com Cláudia Alves Mendes